17 novembro 2010

Memórias da Era da Borracha: Capítulo 1 - O Beijo


Vou contar a história de um beijo de cem anos atrás. Era em Belém que ele acontecia e embora fosse bem agosto, aquele tempo, o céu estava carregado com cúmulos cinzentos, como os que envolviam a cidade nos meses chuvosos. Era Belém e chovia. Sebastião tinha vinte e seis anos e Edmée tinha dezessete em agosto de 1912. Os dois estavam na varanda da casa dela e se despediam, e havia no ar da cidade, carregado de mistérios, uma estranha ambivalência de saudades prematuras. Sebastião aproximou seu rosto enquanto Edmée conseguia pensar somente em flores, como me foi contado, e a beijou. Era a primeira vez que se beijavam em dois anos de noivado. Despediram-se em seguida.
Em menos de duas horas, Sebastião embarcava num vapor da companhia "Pará & Amazonas" que estava ancorado no cais inglês - um dos que restaram da imensa frota do Visconde de Santo Elias. Partiu para o Rio de Janeiro um pouco afobado - os acontecimentos na cidade provocavam muitas partidas naqueles dias. Era bem agosto, tudo aquilo, ainda que um céu cinzento, de desejo incasto, envolvesse por cima a cidade, e fosse desenhando, como num sonho, uma contingência de chuvas gigantescas e sucessivas, no mês de maior calor. Edmée jamais tornou a ver Sebastião. Ele partiu da cidade para tentar solver a falência da empresa do seu pai, e, não conseguindo, jamais retornou. Escreveu algumas cartas e certa vez enviou um presente de natal, mas acabou por desaparecer completamente. Aquele primeiro e único beijo entre os dois, no entanto, não foi esquecido, e foi-me contado por algumas amigas de Edmée do tempo em que eram todas senhoritas, e do tempo em que mesmo a cidade era ainda senhorita, e o que seguem, nesta série de artigos, são memórias e sonhos, simplesmente porque não sei se um beijo é só um beijo, cem anos depois.
Ou, talvez, pudesse dizer assim: cem anos depois, uma "Era da Borracha" vai ser só uma "Era da Borracha"... ou não? Será, que hoje, cem anos depois daqueles dias, Belém se livrou dos seus mitos de apogeu, glória, loucura e vigorosa queda? Ou, será que não... Proponho ver que sobre Belém existe outra Belém - imaginária. E que esta Belém imaginária (que precisa ser conhecida) surge daquela outra (dentre outras mais) de cem anos atrás.
O que seguem, são anotações para que sejam inscritos túmulos no ar.
Continua amanhã.

Um comentário:

andréa disse...

Acho que Belém não se livrou dos seus mitos de apogeu, glória, loucura e vigorosa queda. Quero saber mais amanhã. bjs