18 novembro 2010

Memórias da Era da Borracha: Capítulo 2 - A queda


Na noite de 28 de agosto de 1912 a cidade de Belém do Grão-Pará foi tomada por uma série de acontecimentos surpreendentes. Situa-se, naquela noite, uma chuva de proporções tão gigantescas, que, conta-se, chegou a destruir a todos os vitrais da loja Cúpula de Malquistã. Daquela noite lembra-se, ainda, que a cidade foi invadida por um odor profundo de gerâneos, que a alguns lembrou o odor de cadáveres insepultos e suscitou a hipótese de a chuva ter alagado o cemitério da Soledade, no centro da cidade, e ter trazido os mortos à superfície da terra. Por sinal, foi também a noite de uma festa familiar na qual se viu surgirem de dentro de paredes brancas dois fantasmas, como me foi contado, que prenunciaram vários desassossegos. E ainda, porfim, foi a noite em que o líder oposicionista, o ex-governador Lauro Sodré, sofreu um atentado, enquanto se dirigia em seu coche para assistir a uma récita lírica no Theatro de Nossa Senhora da Paz.
Aí terminava a "Era da Borracha", de forma tão inesperada e rápida quanto foram vertiginosas as folias da sua história privada. A renda per capta da região, que em 1910 fora calculada 323 dólares, para decair, na década seguinte, a 74 dólares, tendo sido superior, na última década do século XIX, aos valores estimados para cidades como o Rio de Janeiro, Boston e Nova York.
No entanto, o monopólio que a Amazônia mantinha sobre a produção mundial de caucho (a seiva milagrosa que modificava o processo industrial de todo o mundo e que equipava indústrias crescentes, como a automobilística) não duraria para sempre. Preocupados com as manobras especulativas que começaram a ser desenvolvidas por exportadores paraenses e portugueses, em 1908, em Nova York, 407 companhias e 231 firmas internacionais formaram a "Rubber Growers Association", que passou a financiar pesquisas e a desenvolver técnicas de cultivo ordenado - na Amazônia, afora algumas poucas experiências, a atividade sempre foi extrativista - com plantações próprias na Malásia.
Essa produção de borracha no oriente subiu de 3 mil quilos em 1900 para 28 milhões de quilos em 1912. Em 1913 alcançou a produção de 48 milhões de quilos e, em 1914, a Malásia produziu mais da metade da borracha mundial, 71 milhões de quilos. Em 1919 a borracha oriental alcançou 90% do mercado mundial, desbancando, definitivamente, a concorrência da produção amazônica.
Não será difícil imaginar o baque que sofreu a estrutura econômica amazônica com a súbita e inesperada queda dos preços. De acordo com Paul Le Cointe, somente na praça de Belém as falências pronunciadas alcançaram o valor de 100 milhões de francos (cerca de 59.524 contos de réis), e isto somente no ano fiscal de 1913. A renda interna da região caiu de 485.833 contos de réis em 1910 (e fora ainda maior nos anos do final do século XIX) para 153.568 contos em 1915.
Alí terminava a "Era da Borracha". Seus mitos e metáforas, no entanto, ainda persistem. Hoje, cem anos depois de alguns dos melhores dias do ciclo, num momento em que a cidade, humilhada, procura referenciais para se reconstituir, é preciso contar muitas histórias. Não sei se uma “Era da Borracha” será a mesma coisa que um “ciclo do látex” cem anos depois. Estas “memórias” modernistas, talvez, permitam que não o sejam. O que seguem, nos próximos artigos, são “memórias” para que sejam inscritas cidades no ar.
Continua amanhã.

2 comentários:

Breno Peck disse...

"Cúpula de Malquistã"? Não era Torre de Malakof, Fábio?

Fabio Fonseca de Castro disse...

Havia as duas. A Torre de Malakof, do grupo La Rocque da Costa & Cia, ficava no comércio. A Cúpula de Malquistã foi, a princípio, uma sucursal do magasin O Pelicano, mas mudou de nome a partir de uma divisão de herança litigiosa. Foram concorrentes.