17 novembro 2010

O caipira Lincoln e a elite nortista

Reproduzo artigo de Sally Jenkins, publicado originalmente em The Washington Post e traduzido pelo jornal O Estado de S. Paulo.
O caipira Lincoln e a elite nortista
Sally Jenkins
O candidato estava parado pouco à vontade na plataforma; seu terno preto, ainda enrugado pela valise na qual tinha sido carregado na viagem de trem de três dias desde Springfield, Illinois. Quando Abraham Lincoln começou o discurso que buscava lançar sua campanha presidencial, sua voz era tensa e aguda, seu sotaque interiorano. "Senhor Chirman", disse ele, num timbre alto e estridente. Parecia uma perna de cadeira arrastada no chão.
Muitos dos 1,5 mil membros da elite nortista que lotavam a Cooper Union em Nova York em 27 de fevereiro de 1860 ficaram chocados com o embaraço do orador. Era esse o fenômeno político de que tanto tinham ouvido falar? Ele era uma figura desajeitada de 1,90 metro, com tórax côncavo e pescoço fino. Suas mangas eram curtas demais, uma perna de sua calça estava mais comprida que a outra e o lado esquerdo de seu colarinho tendia a cair. Seu cabelo preto estava desgrenhado, seus olhos cinzentos, melancólicos.
Lincoln estava visivelmente nervoso embaixo dos lampiões a gás. Aquele seria seu teste decisivo como aspirante presidencial. Na plateia reluzente estava cada figurão e agente político republicano importante do Nordeste, incluindo William Cullen Bryant, editor do New York Evening Post, e Horace Greeley, editor do New York Tribune e fundador do jovem partido, que mal completara cinco anos. A convenção para a nomeação do candidato republicano seria realizada em Chicago dentro de apenas dez semanas e a capacidade de Lincoln de desafiar o refinado primeiro colocado, William H. Seward, dependeria da impressão que ele causasse.
Primeiro, Lincoln tinha de convencer seus ouvintes de que ele era um "rematado estadista" como o nova-iorquino Seward, apesar daquilo a que o editor George H. Putnam se referia como a aparência "esquisita, rude e inculta" de Lincoln. Esse acabou sendo o desafio mais fácil. À medida em que Lincoln esquentava sua fala, ficou evidente que não era nenhum caipira, apesar de informal.
Lincoln dera a seu poderoso rival em Illinois, Stephen A. Douglas, a luta política de sua vida na eleição para o Senado em 1858. Douglas vencera, mas os debates sobre escravidão haviam rendido a Lincoln uma proeminência nacional e levaram ao convite para que ele fosse a Nova York. Quem vencesse a nomeação republicana enfrentaria Douglas, conhecido como o "Pequeno Gigante", pois combinava estatura baixa com grande influência política e capacidade oratória. Douglas era autor dos acordos mais polêmicos sobre escravidão e provável candidato presidencial democrata.
A escravidão era a "questão viva do dia", como colocou Lincoln, e o tecido político estava se estilhaçando por causa dela. Cada acontecimento parecia dividir ainda mais os partidos políticos e empurrar homens de um lado a outro. A decisão Drewd Scott da Suprema Corte estarreceu os adversários da escravidão, enquanto o ataque de John Brown em Harpers Ferry, Virgínia, em 1859, inflamou seus seguidores e assustou seus apologistas.
O novo Partido Republicano fora fundado sobre princípios antiescravagistas, em 1854, como uma resposta direta à Lei Kansas-Nebraska. Idealizada por Douglas naquele mesmo ano, a lei permitia que colonos nos novos territórios votassem em favor ou contra a permissão para a escravidão dentro de suas fronteiras. Alguns republicanos perguntavam-se se o partido devia tirar a ênfase nos valores abolicionistas na tentativa de atrair eleitores. Lincoln, não.
Embora fosse um moderado relativo que não aboliria a escravidão onde ela já existisse, Lincoln acreditava que os republicanos deviam ter um homem "que não hesitasse em declarar a escravidão um erro; nem tratasse com ela enquanto tal; que acreditava no poder e dever do Congresso de impedir que ela se espalhasse".
As apostas eram altas. Os escravos constituíam a porção maior da economia americana em termos de capital, maior até mesmo que as ferrovias e a indústria manufatureira. A cidade mais rica per capita do país era Natchez, Mississippi. Havia 4 milhões de escravos americanos, a vasta maioria deles no Sul, e um simples agricultor valia em torno de US$ 1,1 mil a US$ 1,5 mil - aproximadamente US$ 75 mil a US$ 135 mil em dinheiro de hoje. Não espanta que barões sulistas saíssem vociferando em defesa da "instituição peculiar".
Os nortistas, por sua vez, orgulhavam-se de ser trabalhadores livres, e produtores em massa. As duas culturas eram tão diferentes que o jornal Charleston Mercury disse em 1858: "O Norte e o Sul... não são apenas dois povos, são povos rivais, hostis."
Para Lincoln, a questão não era cultural ou econômica, mas constitucional. Ele enumerou os fatos para sua plateia na Cooper Union: 23 dos 39 homens que assinaram a Constituição declararam votos refletindo sua crença de que a escravidão devia ser federalmente regulamentada e finalmente extinta. O próprio George Washington dissera: "Não há um homem vivo que deseje mais sinceramente do que eu ver um plano adotado para sua abolição." Ao buscar conter a propagação da escravidão, deduzia Lincoln, ele estava simplesmente seguindo o caminho traçado pelos fundadores.
Tradução de Celso. M. Paciornik.

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