11 novembro 2010

Para retomar o desenvolvimento

Li o seguinte artigo, de Ha-Joon Chang, no jornal Valor Econômico. Publicado dia 09/11, ele analisa as estratégias de desenvolvimento do seu país, a Coréia do Sul, às vésperas da reunião do G-20 que também ali vai ser realizada.

Para retomar o desenvolvimento
Ha-Joon Chang

A reunião do G-20 esta semana, nos dias 11 e 12, em minha cidade natal, Seul, na Coreia do Sul, tem uma importância simbólica - é a primeira vez que a nova principal mesa de negociações do mundo reúne-se fora dos países do G-7, assumindo o papel de principal organismo de coordenação mundial de políticas de governo.
Agora que a reação inicial à crise terminou, o G-20 está buscando uma missão. Meus colegas coreanos querem um foco em "desenvolvimento", especialmente dos países mais pobres do mundo. Mas antes de acolher a iniciativa com braços abertos, é preciso perguntar que tipo de desenvolvimento o G-20 deve tentar estimular.
Um lugar evidente onde buscar inspiração é a história recente do país anfitrião. No curso de minha vida, a Coreia do Sul viveu um dos maiores milagres desenvolvimentistas - meio século atrás, sua renda per capita anual era de cerca de US$ 80, ou menos de metade da de Gana, à época. Hoje, essa renda é de US$ 19 mil, colocando o país em pé de igualdade com Portugal e Eslovênia. Como isso foi possível?
A Coreia do Sul, evidentemente, fez coisas que, a maioria das pessoas concorda, são importantes para o desenvolvimento econômico, como investimentos em infraestrutura de saúde e educação. Mas, além disso, praticou uma série de políticas hoje supostamente más para o desenvolvimento econômico: ampla utilização de política industrial seletiva, combinação de protecionismo com subsídios às exportações; duras regulamentações sobre investimentos estrangeiros diretos; ativa, ainda que não particularmente ampla, utilização de empresas estatais; frouxa proteção a patentes e outros direitos de propriedade intelectual; pesada regulamentação das atividades financeiras nacionais e internacionais em um país. 
O G-7 foi sempre extremamente relutante ao recomendar essas políticas "heterodoxas" e insistiu que o pacote do Consenso de Washington - abertura, desregulamentação e privatização - era a receita certa para todos. Quando confrontados com o caso coreano, os defensores do Consenso de Washington tentaram descartá-lo, qualificando-o de exceção. Entretanto, a história das decolagens desenvolvimentistas na maioria dos países do G-7 - especialmente no Reino Unido, EUA, Alemanha, França e Japão - é, na verdade, muito mais próxima do modelo coreano do que qualquer coisa parecida com a agenda Consenso de Washington. As políticas "não ortodoxas" usadas pela Coreia e quase todos os outros atuais países ricos precisam ser seriamente consideradas em qualquer discussão inteligente e aberta sobre opções de desenvolvimento.
Será que as coisas vão mudar, com o lançamento da agenda de desenvolvimento do G-20? Uma análise das propostas do governo coreano sugere que podemos assumir um otimismo cauteloso.
A Coreia quer que o G-20 se concentre numa longa lista de questões ligadas ao desenvolvimento: infraestrutura, investimento privado e criação de emprego, educação, maior acesso dos países pobres aos mercados dos países ricos, maior inclusão financeira; estabelecimento de elementos para resistir a choques financeiros ou climáticos, segurança alimentar; governança.
Esse é um bom começo. Os coreanos rejeitam deliberadamente a abordagem "tamanho único" de décadas anteriores, em favor do que denominam "modelo iPhone dinâmico" - um conjunto de aplicativos de desenvolvimento para cada ocasião, inspirados em experiências bem-sucedidas em diversos países.
Mas existem algumas lacunas, também. É visível a falta de uma política industrial. A experiência coreana mostra que o sucesso exportador sustentável durante um longo período, pelo qual o país é famoso, demanda proteção e incubação de "setores nascentes" mediante uma política industrial seletiva, em vez de livre comércio e desregulamentação.
Equanimidade recebe atenção insuficiente. Em especial, não há menção a reforma agrária e a outras medidas para redistribuição de riqueza, que criaram a coesão social que tornou o desenvolvimento coreano posterior politicamente mais sustentável.
Então, vem a questão do dinheiro. É verdade que a agenda do G-7 por vezes parecia equiparar desenvolvimento a ajuda. No entanto, as propostas coreanas foram muito longe em rumo oposto, fazendo menção apenas passageira à importância de melhorar os fluxos de ajuda, tanto em qualidade como em quantidade.
Se essas lacunas puderem ser sanadas, a reunião do G-20 em Seul poderá representar um divisor de águas: o início de uma nova abordagem desenvolvimentista realista e historicamente esclarecida, após décadas de equivocado fundamentalismo de mercado. Claro, o G-20 é um fórum de discussão, mas fórum de discussões têm um papel- eles confirmam ou contestam o "senso comum" de uma época. Um Consenso de Seul baseado na verdadeira história de meu país poderá ser mais justo e mais eficaz do que o de Washington, que perdeu sua credibilidade intelectual e pragmática.
Ha-Joon Chang é professor de Economia na Universidade de Cambridge. Ele é o autor de "BadSamaritans" (Maus samaritanos, publicado em 2008) e "23 Things  TheyDon't Tell You About Capitalism" ("23 coisas que não te contam sobre o capitalismo", de 2010). 

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