18 novembro 2010

Tentando entender o "blocão" do PMDB


A notícia sobre a formação do “blocão”, na Câmara Federal, com 202 deputados, reunindo PMDB, PR, o PP, o PTB e PSC, soou a muitos como mais uma manifestação da lenda do escorpião, aquela, vocês sabem, cuja moral é a noção de que não dá para confiar no escorpião, porque é da natureza dele a traição.
O PT ficou, de fato espantado, surpreso, e recebeu a notícia da formação do blocão como quem revalida a moral do escorpião: não dá para confiar no PMDB.
Quando vi a notícia também me surpreendi. Penso que a atitude do PMDB é um despropósito politico, um erro do próprio PMDB. Um erro estratégico e que o que o motiva só pode ser a pressão dos cacidados do partido por mais cargos na máquina governamental.
Um partido que acaba de ganhar a vice-presidência não precisa dar mostras de força. Michel Temer e seu partido poderiam ter uma interlocução estreita com a presidente eleita – e, ainda, acumular muito poder no executivo, somando vários ministérios e órgãos.
No entanto, não passou desapercebido, a ninguém, o fato de que Temer estava reunido com Eduardo Dutra, o presidente do PT, no exato momento em que o PMDB fechava o blocão na Câmara e que não informou Dutra sobre isso, deixando que o petista soubesse do fato pela imprensa, horas depois.
O que explica o PMDB ter optado por uma tal mostra de dentes logo num momento de diálogo e construção da parceria?
Suponho que o fato do PT ter ventilado que desejava revezar com o PMDB não apenas a presidencia da Câmara, à qual tem o direito, como o partido com maior número de deputados, mas, também, a presidência do Senado, espaço que o PMDB domina com folga.
A jornalista Renata Lo Prete, na sua coluna de hoje, na Folha de S. Paulo, sugere que as lideranças petistas compreenderam essa mensagem e que abandonarão, no tempo hábil, sua pretensão a um revezamento também no Senado. Diz que o PT não vai esticar a corda, para não arriscar que Dilma comece sua gestão sob clima de instabilidade no Congresso.
Por outro lado, vários veículos de imprensa, hoje, sugerem uma ofensiva petista contra o movimento do PMDB: um grupo parlamentar maior ainda, unindo o partido a cinco outros: PSB, PDT, PCdoB, PV e PMN.
Também cabe observar que, ontem, ocorreu uma reunião de três tendências internas petistas - Construindo um Novo Brasil (CNB), PT de Lutas e de Massas (PTLM) e Novos Rumos. Embora o motivo da reunião fosse outro, a “traição” do PMDB se tornou o principal assunto. Essas três tendências representam 55% da direção nacional petista. De acordo com que os jornais noticiaram, a avaliação que saiu da reunião traduziu, em primeiro lugar, pasmo, e, em segundo lugar, a percepção do movimento do PMDB como uma barbeiragem desmensurada. Porém, uma barbeiragem que enfraquece a relação em construção e que, pressão ou não dos cacicados, exige refluxo.
Bom, isso tudo considerado, ainda ressoa em minha mente uma fala que li na coluna de hoje de Maria Inês Nassif, no Valor Econômico, e que considero muito, muito didática:
“Não é bom ter o PMDB como amigo. Pior ainda tê-lo como inimigo. A presidente eleita, Dilma Rousseff, já deve ter percebido o tamanho do barulho que o PMDB faz e a enorme capacidade do partido de desferir golpes rápidos e certeiros em seus aliados, quando o assunto é participação na máquina do governo”. 

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