22 dezembro 2010

Retrato de um país que não exporta sua cultura

Via blog do Nassif:

O Brasil se orgulha de ter uma cultura reconhecida em todo o mundo e ter sua música como um dos ícones da expressão mundial. Mas não passa na prática de país marginal em termos de exportação de cultura e, na realidade, já é deficitário nesse setor. Hoje, o Brasil já importa mais bens culturais que exporta. Isso é o que revela dados da ONU e que mostram que as vendas de produtos culturais do País no exterior são insignificantes em comparação ao volume de comércio global.
No mundo, bens e serviços culturais movimentaram US$ 592 bilhões em 2008, último ano antes da pior crise econômica em décadas. Para a ONU, que pela primeira vez compilou dados globais sobre a cultura, o setor que é conhecido como das "indústrias criativas" já é hoje um dos mais dinâmicos da economia mundial.
Em apenas seis anos, o volume mais que dobrou. O carro chefe desse comércio são mesmo a exportação de produtos, totalizando US$ 407 bilhões, como música, artes plásticas, artesanato, filmes, objetos de decoração e até carpetes.
Mas, no caso do Brasil, o País representa pouco mais de 0,2% desse total. Em 2008, o País exportou apenas US$ 1,2 bilhão em bens culturais, um crescimento de apenas 5% ao ano na década. O volume é o mesmo exportado por Portugal e Romênia.
Em 2008, as importações de bens culturais chegaram a US$ 1,7 bilhão. Na prática, o País tem hoje um déficit de US$ 500 milhões no setor cultural. Outra constatação da ONU foi de que, desde 2002, o Brasil foi o País que mais incrementou suas importações de bens culturais no mundo. A expansão foi de 33% em apenas seis anos, revertendo a balança comercial que era favorável ao Brasil no início da década para ter pela primeira vez, em décadas, um déficit cultural.
O problema também é vivido por outros países latinos, que não conseguem exportar sua riqueza cultural e artesanatos de maias, incas e vários outros grupos. "O potencial das indústrias criativas na América Latina não foi totalmente explorado", afirmou a análise de quase 400 páginas elaborada pela ONU.
O Brasil não faz parte nem mesmo dos 20 maiores exportadores entre os países emergentes: está em 26.º lugar. Índia, Turquia, Tailândia, Coreia e Malásia aparecem acima do Brasil. Na América Latina, a liderança é do México, que conseguiu até mesmo que a Unesco declarasse há poucas semanas sua cozinha como patrimônio da humanidade.
Mas o que mais impressiona a ONU é que, nesse comércio, a liderança já é da China. Muitos dos CDs, filmes, mas também artesanato de outros países são hoje produzidos a um preço menor na China, que passou a receber fábricas e encomendas de todo o mundo, com vistas a tornar os produtos mais competitivos. As vendas chinesas ao mundo passaram de US$ 32 bilhões em 2002 para mais de US$ 84 bilhões, liderados pelo artesanato. Se o setor de serviços for adicionado ao cálculo, o valor total chegaria a US$ 122 bilhões.
Sem contar a China, porém, o que resta do mercado aos demais emergentes é uma fina fatia de apenas 11% do comércio mundial de bens culturais. O restante estaria todo nas mãos de países ricos.
Música. O raio-X do comércio mundial de cultura ainda mostra a concentração da produção musical nos países ricos. O comércio de música explodiu entre 2002 e 2008, passando de US$ 9,6 bilhões para mais de US$ 26 bilhões. Mas um quarto disso é gerado exclusivamente pela Alemanha, seguida pelos EUA, Holanda e Áustria. Apenas quatro conglomerados controlam a distribuição de 80% da música no mundo.
Não é por acaso que a América Latina praticamente não existe no comércio mundial de música, com apenas 0,2% dos fluxos mundiais, cerca de US$ 400 milhões por ano. O México é mais uma vez líder.
O teatro, por exemplo, é um espelho da incapacidade de exportar cultura na região. Grupos alemães faturam por ano US$ 5,6 bilhões nesse setor. Na Argentina, a exportação se limita a US$ 24 milhões gerado pelo tango. O Brasil nem aparece em tal ranking.
A única área em que o Brasil se destaca é na exportação de alguns serviços culturais, como o de arquitetura. No total, serviços culturais movimentam no planeta US$ 186 bilhões. O Brasil conseguiu abocanhar US$ 6 bilhões desse total, uma expansão de cinco vezes em comparação ao ano de 2002. Nesse setor de serviços, o Brasil representa um terço das exportações de emergentes e está no mesmo nível de países como Suécia ou a Itália. 

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