06 janeiro 2011

Itamaraty days

Durante dois felizes anos, no começo dos anos 1990, morei em Brasília, fazendo mestrado em comunicação, cursando todos os créditos na sociologia e na antropologia, assistindo a uma bateria de cursos no Itamaraty e ouvindo boa música, todas as noites, no Gate's Pub, que ficava a alguns passos da minha casa, na 402 sul. Tempos felizes, como dizia. Freqüentava o Itamaraty graças ao obséquio de um de seus diretores, amigo de família, que teve pena de mim porque, tendo feito as muitas provas para a espinhosa entrada na carreira e passado muito bem nelas, me acovardei diante da última e desisti. Era uma prova oral de questões internacionais, feita em inglês, sendo que os três membros da banca podiam também me argüir em francês. O tema era sorteado na hora e lá a gente tinha que fazer um resumo da questão durante 15 minutos e responder aos argüidores durante outros 15. Duas eternidades seguidas. Considerando que meu inglês sempre foi rude e que meu francês, nessa época, era quase uma língua privada, me acovardei, sem nenhum heroísmo, e desisti do concurso. Um tanto aterrorizado diante da possibilidade de que pedissem para eu discutir sobre o conflito Índia x Paquistão, um must daquela época. Depois disso só teria uma prova que em geral consideravam prosaica, um tal de teste psicológico. Em geral se acha essas coisas tranqüilas, mas, bom. nunca se sabe, nuca se sabe.

Desisti mas descobri que fiz bem. E não o digo com indulgências. Ocorre que, como mencionei, consegui um indulto para acompanhar alguns cursos e o fiz durante um inteiro ano. Cursos sobre relações internacionais, negociação de crise, cultura brasileira, geopolítica e geografia estratégica, etc. Tudo muito interessante. Porém, descobri a cultura geral dominante no lugar. Uma chateação de gente muito metida e um tanto inculta, apesar do senso comum que se tem a respeito. Os ares respirados eram tucanos, então, estigmatizados por um neoliberalismo dominante e quase histriônico. Os mestres, da casa como os externos, vindos para nos ensinar, praticavam e reforçavam esse clima meio "fim da história", meio Fukuyama, meio Rouanet... Deram-me grande motivos para não fazer as provas do ano seguinte, como inicialmente programado. Mesmo porque minha vida acadêmica, que seguia em paralelo a tudo isso, se tornava prioritária. Mas o amigo da minha família, que me abrira as portas com tanta generosidade, até ficou magoado, ressentido. 

Mas convidei-o para ouvir o melhor blues de Brasilia no Gate's Pub, com minha turma de então, formada por jornalistas e antropólogos descrentes de toda forma de governo e ele conseguiu me compreender. Fui perdoado sem maiores desânimos.

Meu inglês, porém, permanece rude.

4 comentários:

L.C. disse...

Boas lembranças, as tuas. Te lembras da "generala", a fiscal dos alunos do Rio Branco?

Marlice disse...

Não sabia dessa tua aventura. Será que valeu à pena abrir mão de uma vida tão confortável como a que o Itamaraty promete?

Fabio Fonseca de Castro disse...

Fala L.C., Mas essa mulher não era "coronela"?

Fabio Fonseca de Castro disse...

Oi Marlice,
Na verdade, o salário é baixo e as vantagens financeiras são pequenas. Nos anos 90 era pior, porque vc só começava a receber um pouco mais depois dos 2 anos de curso no Rio Branco. Tem certo fascínio, mas há muito mais lugares menos bons para se ser enviado do que lugares "mais" bons. É isso...