01 fevereiro 2011

Morreu Daniel Bell, pensador central da pós-modernidade conservadora


Morreu em Massachussets, aos 91 anos, um pensador instigante da sociedade contemporânea. Daniel Bell, era professor emérito de Ciências Sociais da Universidade de Harvard.

Seus três livros mais conhecidos são "O Fim da Ideologia", " The Coming of Post-Industrial Society,'' e "As Contradições Culturais do Capitalismo''.

Em uma entrevista concedida em 1992 ao jornal The Globe, Bell atribuiu sua exuberância intelectual singular à sua juventude na época da Grande Depressão, Nova York: "Eu cresci no Lower East Side. . . e sempre tive curiosidade, por que eu estava desse jeito? Tudo começou com a Depressão - mas por que houve uma depressão? Porque as pessoas estão com fome? Não dizem que os EUA são um grande país?".

Quando estudante de mestrado em sociologia na Universidade de Columbia, foi-lhe pedido que descrevesse sua especialidade. "Eu me especializei em generalizações'', respondeu. Em um mundo acadêmico da especialização crescente e alcance cada vez mais estreita, Bell esforçava-se em direção a esse anacronismo: uma grande ambição intelectual, que se espalha por vários domínios, o poder de assimilação, e a gama de interesses.

Em 1965 fundou e editou, juntamente com o amigo Irving Kristol, a revista trimestral "Interesse Público", a qual editou até 1973. A revista se tornou um dos cernes do pensamento neoconservador norte-americano - e, como tal, uma matriz fundamental para o surgimento do pensamento neoliberal. Em 1984, num depoimento sobre ela, Bell afirmou que o objetivo da publicação foi "transcender a ideologia fundamentada através do debate público e do inquérito em conhecimento".

Na verdade, transcender não seria um conceito justo para caracterizar a publicação, à medida em que, em vez de ir além do debate ideológico, superando-o, o que acontecia é que ele acabava sendo firmado por meio da linha editorial.

Verdade seja dita, quando Bell percebeu que "Interesse Público" se tornara a principal voz neoconservadora dos EUA, decidiu abandonar a publicação. Na verdade, Bell era mais que um neoconservador. Penso que pertencia a uma nova, e mal-nascida, geração liberal.

Seu pensamento era muito complexo para que pudesse caber, bem acomodado, nos -ismos classificadores da cultura contemporânea. Ele mesmo, por exemplo, certa vez, se definiu como "um socialista na economia, um liberal em política e um conservador na cultura''.

Daniel Bell nasceu em Nova Iorque, filho de Benjamin Bolotsky e Anna Kaplan, imigrantes judeus, mas a família mudou seu nome para Bell para melhor se adaptar ao novo país. Falou iídiche até 6 anos de idade. Aos 19 anos graduou-se em sociologia pelo City College de Nova York.

Durante os anos 40 e 50, Bell se dedicou, simultaneamente, à academia e ao jornalismo. O jornalismo era uma paixão e, algumas vezes, quase o impeliu a abandonar seu posto universitário. Atribui-se a essa paixão um dos caracteres mais pronunciados da sua obra: o esforço pela atualidade e pelo frescor dos dados.

Bell atuou como jornalista enquanto fazia seu mestrado, também em sociologia, na Universidade de Columbia. Começou a se destacar com seu ensaios para a revista The New Leader. Dispensado do serviço militar por razões médicas durante a Segunda Guerra Mundial, atuou como editor dessa revista entre 1941 e 1944. No ano seguinte, se tornou editor na revista Common Sense e professor na Universidade de Chicago.

Em 1948, a revista Fortune contratou-o como editor da seção sobre Trabalho e Emprego, cargo que ocupou por dez anos. Tornou-se um instrutor a tempo parcial em sociologia na Universidade de Columbia em 1952 e, a partir de 1956, passou 18 meses dedicado à realização de seminários para o Congresso pela Liberdade da Cultura.

Em 1959, tornou-se professor associado na Universidade de Columbia, recebendo seu doutorado em 1960. Em, 1962 tornou-se professor titular dessa universidade. Durante o levante estudantil de 1968, Bell desempenhou um papel nas negociações entre alunos e professores de Columbia. 

Em 1969 se transferiu para a universidade de Harvard, onde se aposentou em 1990.

Tornou-se muito conhecido durante sua fase novaiorquina. Entre seus colegas estavam crítico literário Irving Howe, Nathan Glazer, que mais tarde seria um colega de Harvard; o sociólogo Seymour Martin Lipset e o já mencionado Irving Kristol. Todos pertenciam ao corpo influentes escritores e pensadores que viria a ser conhecido como "os intelectuais de Nova York''.

A característica do grupo era uma matriz judaica. Pelo menos inicialmente, havia uma inclinação forte, do grupo, à esquerda. Mas se tratava de um grupo variado demais para manter uma mesma linha ideológica. O crítico de arte Harold Rosenberg definiu o grupo, por exemplo, como "uma manada de mentes independentes'.

Daniel Bell atraiu grande atenção para o grupo - e, na verdade, muitos insultos - quando publicou seu livro sobre o "fim da ideologia'', mas essa atenção acabou implodindo o grupo, porque estimulou os membros a criticarem o trabalho de Bell.

Já em Harvard, integralmente dedicado à sua interpretação do mundo contemporâneo, Daniel Bell escreveu sua obra mais importante, "The Coming of Post-Industrial Society'', publicada em 1973 e que introduziu o conceito de "pós-industrialismo" na análise social. Esse livro foi a primeira grande percepção de que o mundo começcava a caminhar em direção a uma economia baseada na informação e no conhecimento.

Outros livros do Dr. Bell incluem "O socialismo marxista nos Estados Unidos'' (1952); "A Reforma da Educação Geral'' (1966); "Ensaios e Jornadas Sociológicas 1960-1980'' (1980); "As Ciências Sociais depois da Segunda Guerra Mundial'(1981)" e "O Impacto do intelectual sobre a sociedade'' (1995).

Bell era membro da Academia Americana de Artes e Ciências e membro da Associação Century of New York, da Sociedade Filosófica Americana, e da American Sociological Association. Durante o ano lectivo 1987-1988, ocupou a prestigiosa cadeira American Pitt, na Universidade de Cambridge.

Sua obra é reconhecida por muitos como um dos sustentáculos da teoria pós-moderna conservadora. Nesse sentido, distancia-se da teoria pós-moderna "crítica", caracteriza por uma percepção menos moral e mais "à esquerda". Independentemende de rótulos, sua contribuição à sociologia contemporânea foi enorme.

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