15 fevereiro 2011

Quando hei dormido com a bela Isabel


"Durmo com a Isabel. Quase não durmo porque estar na cama contra a Isabel, cheirar-lhe o corpo, tocar-lhe no cabelo que é liso e preto, agarrar-lhe os braços, colar-me às suas costas, ocupa as minhas noites. A mamã diz que a Isabel rouba toalhas e lençóis e que vai mandá-la embora, para casa da irmã, na cidade. É mentira. São os cães que levam os lençóis. Vi-os no fundo do quintal a disputar os farrapos. Um dos cães tinha o focinho afilado e quando abria a boca via-lhe a dupla fieira de dentes afiados, que são a marca distintiva das ratas africanas, especializadas em devorar os gatos e rasgar as toalhas das famílias condenadas. Isabel dorme no meu quarto, na minha cama. No quarto ao lado esteve a minha avó, vinte anos acamada desde que Perón voltou e a Virgem Maria apareceu sobre um depósito de água de Rosário da Fronteira, a uma rapariga tão perturbada que nunca foi capaz de contar decentemente os pormenores da aparição. Agora a mamã expulsou o Gregório do quarto, alegando que ele largava a tinta do cabelo na almofada e que está calor demasiado para partilhar a cama e o vinho. Um dia a mamã vai deixar de se levantar e esse dia já chegou".
Lucretia MartelLa Ciénaga, Argentina 2001.

3 comentários:

Anônimo disse...

Visão emocionante neste sítio, tópicos assim emotivam a quem analisar neste blogue :/
Realiza muito mais deste sítio, a todos os teus visitantes.

Meg disse...

Fabio.
Um belo e precioso presente. E, no meu caso, uma *apresentação*
Obrigada
Megf

Fabio Fonseca de Castro disse...

Só uma retribuição, então, aos presentes e apresentações que já encontrei no seu blog.