14 março 2011

Autor questiona tesa sobre a "sociedade do conhecimento"


Para começar a semana com uma tese contundente o blog reproduz artigo de Vicenç Navarro que questiona o mito da "sociedade conhecimento" e lança novas luzes sobre as transformações no mundo do trabalho. Recolhido do blog do Luis Nassif.
O erro da tese da “Sociedade do Conhecimento”
Vicenç Navarro
Uma característica dos tempos atuais é o elevado desemprego na maioria dos países desenvolvidos. Quase todos os países da OCDE (o clube dos países mais ricos do mundo) apresentam taxas de desocupação mais elevadas do que as que costumavam exibir durante o período pós-II Guerra Mundial (1945-1980). Além disso, o incremento dessas taxas na atual recessão foi maior do que em recessões anteriores. O caso espanhol é o mais acentuado, mas não é o único; ao contrário, o que se verifica na Espanha está a ocorrer de forma generalizada dos dois lados do Atlântico. Naturalmente, há uma grande variabilidade na taxa de desemprego dos diversos países, sendo a Espanha um caso extremo. Mas o fato é que a grande maioria dos países da OCDE apresenta agora maior desemprego do que em períodos e recessões anteriores.
Por que isto está a acontecer? Uma explicação que se tem dado com frequência para a persistência das elevadas taxas de desemprego é a falta de adequação entre o tipo de trabalho que se oferece e as qualificações dos candidatos a esses empregos. Alega-se que na assim chamada Sociedade do Conhecimento os desempregados simplesmente não têm a qualificação e o treinamento necessários para executar as tarefas exigidas nos novos empregos que estão a ser criados, e com isso chegamos a uma situação em que há vagas de trabalho que não podem ser ocupadas ao mesmo tempo em que o desemprego se eleva. A baixa qualificação da maioria dos trabalhadores impede o seu ingresso no mercado de trabalho. Os economistas que defendem esta tese nos EUA apontam que três quartos dos postos de trabalho cuja oferta está crescendo mais rápido são justamente os que necessitam de trabalhadores e colaboradores com elevadas qualificações (college degree, more than high school diploma – formação superior ou acima do ensino médio) e que, supostamente, são escassos. Esses economistas também citam que, segundo estimativas do Departamento do Trabalho, das 30 ocupações cuja oferta irá crescer no período 2006-2016, 22 exigirão qualificações mais elevadas. Assim, o problema, segundo esses economistas, é que a grande maioria dos cidadãos estadunidenses não possui essas qualificações e, consequentemente, observam-se altas taxas de desemprego ao mesmo tempo em que há uma série de vagas de trabalho não preenchidas.
Parece, portanto, que há uma incompatibilidade (mismatch) entre a oferta e a procura no mercado de trabalho. Disto se segue que a solução é aumentar a proporção de trabalhadores com qualificação elevada dentro da população total. E é o chamamento à adaptação à sociedade do conhecimento que supostamente caracteriza as nossas sociedades. Este apelo tem sido uma constante desde o Tratado de Lisboa em 2000, assinado pelos líderes da União Europeia (UE), estabelecendo a estratégia de desenvolvimento da sociedade do conhecimento como forma de resolver o desemprego (e, a uma só vez, o aumento da competitividade).
A fragilidade da tese de "sociedade do conhecimento"
O problema com essa explicação é que ela ignora – ou desconhece – que, muito embora os setores de mais rápido crescimento na produção de emprego sejam efetivamente os que exigem qualificações mais elevadas, tais setores respondem por apenas 3% de todos os empregos existentes em os EUA. Os economistas entusiastas da sociedade do conhecimento parecem ignorar que, para calcular o potencial de crescimento de postos de trabalho em um setor, há que se ter em conta o número absoluto de postos de trabalho criados e não apenas a taxa de crescimento do setor. Na realidade, segundo os mesmos dados do Departamento do Trabalho, dos 30 setores que oferecem o maior número de postos de trabalho, 21 delas não exigem qualificações mais elevadas, mas formação média ou elementar. Um quarto de todos os postos de trabalho disponíveis em 2016 estará dentro destes 21 setores, incluindo comércio, processos de produção e distribuição de alimentos, serviços domésticos e de cuidado a pessoas incapacitadas, e outros serviços domésticos. Segundo os cálculos do Departamento do Trabalho, 62% de todos os empregos em 2016 não exigirão alta qualificação, e sim média e baixa escolaridade (with only high school – ensino médio completo).
Outro dado que também questiona a tese de que a falta de profissionais altamente qualificados é o fato de que, embora o número de empregos criados nesses setores que exigem alta qualificação tenha crescido rapidamente, o número de profissionais altamente qualificados trabalhando a tempo parcial, porém desejando um emprego de expediente integral, aumentou consideravelmente. O subemprego (“underemployment”) nestes sectores altamente qualificados é significativo, o que põe em dúvida a existência de uma escassez de pessoal qualificado. Além disso, entre os setores que estão crescendo muito fortemente em números absolutos – os serviços de saúde e educação – o desemprego também é acentuado e crescente, especialmente desde que a crise começou em 2007.
A "incompatibilidade" não é o maior problema ou a causa do elevado desemprego
Não parece, portanto, que o desequilíbrio ou “mismatch” entre a oferta e a demanda de empregos seja a principal causa do desemprego. Sem embargo, isto não significa que não exista uma incompatibilidade, e que deva ser corrigida, entre a oferta de empregos e as competências dos trabalhadores. Este descompasso que existe entre o sistema entre o sistema educacional e o mercado de trabalho é muito forte na Espanha, onde, como consequência do enorme poder de classe (dos 20% mais ricos), há um excesso de pessoal com graduação superior (os filhos desses 20% estão concentrados na população de estudantes universitários), com pouco desenvolvimento do ensino secundário e profissional, onde se encontra o maior déficit em recursos humanos na Espanha. Há, ainda, outro descompasso, não tanto de qualificação, e sim de lugar. Existem fortes restrições à mobilidade da força de trabalho, resultado (sobretudo na Espanha) dos altos impostos sobre a propriedade imobiliária, o que explica a baixa propensão à mobilidade territorial, uma notável escassez a nível europeu. Na UE, as diferenças regionais entre as taxas de regiões de desemprego são muito maiores que nos EUA, onde há maior mobilidade inter-regional.
Mas nenhum desses desequilíbrios pode explicar o elevado desemprego resultante da produção limitada de postos de trabalho. É este o problema mais grave, e que se acentua a cada nova saída da recessão. Cada nova recuperação econômica produz menos novos empregos. E isso acontece mesmo em setores que geram empregos em maior número, tais como saúde e educação.
Polarização da renda como causa do desemprego  
Por que há tão pouco trabalho? Uma resposta é que essa recessão que estamos enfrentando é muito pior do que as anteriores, e isso é verdade. Mas não é o suficiente. A raiz do problema está no que vem acontecendo com a distribuição dos rendimentos nos principais países da OCDE, devido à proliferação de políticas neoliberais, no período 1980-2010. O argumento de que a expansão do Estado na economia é a causa do problema econômico, absorvendo demasiados recursos (a explicação neoliberal), não é sustentável com base nos dados existentes. Existe extensa documentação que questiona essa tese (in Navarro, V. Globalización, Economía, poder político y Estado del Bienestar. Ariel, Colección Sociedad Económica, 2000). A expropriação de recursos do setor privado pelo setor público devido à crise é uma tese que não encontra suporte na evidência científica. Corresponde ao fundamentalismo neoliberal propalado por autores como Sala i Martín, que têm pouca credibilidade científica (mas gozam de grandes espaços e prestígio nos media espanhóis).
Na verdade, nos dias de hoje, o que não está em falta no grande mundo dos negócios é o dinheiro. Nos EUA, em meados de 2010, os lucros das empresas foram 60% maiores do que os registrados em 2008, e iguais aos obtidos em 2006, quando o nível mais alto no ciclo anterior foi atingido. Naquele ano, as grandes empresas não-financeiras não tinham nenhuma escassez de recursos. As pequenas empresas, contudo, não ostentavam tamanha liquidez. Mas o fato de que as mais importantes empresas não-financeiras nos EUA não investiram nem criaram empregos foi porque não havia demanda suficiente para os produtos ou serviços por elas produzidos. E o mesmo vale para as pequenas empresas: a falta de demanda por seus produtos é a principal causa da escassa oferta de empregos. E a demanda, por sua vez, está baixa devido à queda na renda do trabalho como porcentagem da renda nacional. Tentar resolver este déficit estrutural de demanda (como vem propondo a UE) com base nas exportações (portanto com base na demanda externa) é uma ideia absurda, e ainda mais absurda em tempos de recessão global, como os que correm.
Na União Europeia a situação é semelhante à dos EUA, com duas diferenças notáveis. Uma delas é que os cortes de despesas públicas da UE recaem mais fortemente sobre os setores que mais produzem empregos – saúde e educação – o que faz com que a destruição de empregos na UE seja mais intensa que nos EUA. A outra grande diferença é que o capital financeiro (os bancos) domina as instituições europeias, que dão mais importância ao controle da inflação do que à produção de empregos. O comportamento do Banco Central Europeu (BCE) é um excelente exemplo. Falta a consciência, entre a comunidade política e midiática europeia, que o BCE é muito mais um lobby da banca que um Banco Central. O Banco Central deveria ter como objetivo facilitar o crescimento econômico e, portanto, a criação de empregos. Este não é um objetivo primordial do BCE, e isto é resultado do excessivo poder dos bancos nas culturas políticas europeias.
A elevação dos rendimentos do capital, a expensas da renda do trabalho, tem levado ao crescimento exuberante do capital financeiro, predominantemente baseado na especulação, e este setor é o que hoje domina o comportamento da economia, contribuindo decisivamente para a rarefeita recuperação econômica e a escassa geração de empregos. E é isto o que não se fala, centrando-se o discurso econômico na formação dos trabalhadores, como se isso fosse a causa central do desemprego.

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