14 outubro 2012

Algumas memórias e considerações sobre o Círio


A vivência do Círio, para os paraenses, não é uma experiência contínua. Ela tem rupturas, tanto em função das mudanças que ocorrem no próprio Círio como em função das mudanças que vão ocorrendo na vida das pessoas e que implicam em experimentações diferenciadas do Círio. Quando me recordo dos meus primeiros Círios tenho em mente não a procissão, mas o arraial, ainda no Largo de Nazaré. É que meus avós paternos moravam bem em frente ao largo, no edifício Rainha Esther, um ponto de observação privilegiado para toda a festa.

Tenho recordações muito precisas dos desenhos de animais, florestas e caçadores que figuravam nos murais do carrossel. Acompanhava atentamente a montagem do largo e ficava siderado ante a expectativa de frequentá-lo. Mais que isso: quando não o frequentava – e, é claro, não o fazia sempre, mas no máximo uma vez por semana – pegava escondido um binóculo, o binóculo de madrepérola que minha avó possuía à pretexto de “usá-lo no teatro” e que não era lá grandes coisas, e ficava acompanhando, com uma atenção extremada, o divertimento das pessoas no parque. O apartamento ficava no oitavo andar e tinha duas ou três imensas janelas que se abriam para lá. Com o binóculo eu via muito do que acontecia. Acompanhava com particular interesse a sempre imensa fila para o mais assustador dos brinquedos, o Sputinik, um foguete mal ajambrado no qual as criaturas se punham para passar por giros de 360 graus, em altíssima velocidade. Bom, para mim era em altíssima velocidade. Com o binóculo eu não conseguia focar no Sputinik em movimento, mas podia perceber os rostos dos que aguardavam na fila e também dos que já estavam instalados na engenhoca, aguardando que a mesma entrasse em movimento. Por alguma razão, eu tinha uma imensa satisfação em perceber a ansiedade daquela gente. Eu ficava me perguntando por que eles se dispunham a entrar no brinquedo – e, ainda por cima, a pagar por aquilo – se estavam com aquele ar de desespero. Lembro até de ter criado uma classificação para o povo da fila do Sputinik: os apavorados, os com ar de desespero arrependido e os falsos corajosos. Quanto a estes, bem, eram geralmente homens; que pousavam de corajosos durante a fila mas que – pelo binóculo eu via – saiam do Sputink cambaleando e com cara de paisagem. Em todo caso, considerava aquela gente como um punhado de idiotas. Praticando o esporte da racionalidade, não tinha o que pensar de diferente de quem se submetia, voluntariamente (e pagando para isso) a uma coisa que lhe punha de cabeça para baixo e lhe fazia girar, sem controle nenhum sobre a vontade e, eventualmente, sem nenhum controle sobre o ventre.

Naquele tempo o Círio, propriamente, era uma festa passada na casa de meus avós maternos, que, por sua vez, habitavam o Manoel Pinto da Silva, outro local privilegiado para acompanhar a festa. Nesse caso, tratava-se de uma festa familiar, de índole feminina: minha avó e as mulheres da casa e da família organizavam o tradicional almoço. E o que realmente era incrível era a vinda dos parentes que haviam ido morar no Rio e em São Paulo; tios e primos muito queridos, que traziam consigo afetos, é claro, mas muitíssimas histórias, risos, novidades. Era uma troca intensa, muito emotiva, vivenciada na fusão entre fé e saudade, uma fusão de horizontes bem conhecida por muitos paraenses. Na casa de meu pai havia menos expansão, mas uma ótima conversa. Lá também havia o almoço do Círio, mas era diferente: era menos familiar, menos emotivo. Era um almoço, principalmente, para amigos; para os amigos dos meus avós, com menos familicies e, creio que posso dizer, absolutamente nenhum arroubo religioso. Meus avós paternos tinham uma fé comedida, um tanto tímida. O almoço de Círio era mais uma ocasião social, penso que até mesmo menos ajambrado que o famoso Dia de Reis da casa deles, esse sim, por alguma razão que nunca entendi, celebrado com paixão por minha avó paterna.

O catolicismo daquele tempo tinha elementos, digamos assim, fantasmáticos, que hoje arrefeceram: nos Círios da minha infância havia muita gente de mortalha. Não posso crer que a saúde pública tenha avançado tanto, no Pará, a ponto de que as mortalhas tenham se tornado instrumentos inúteis. Penso que houve mesmo é um constrangimento social, talvez de índole estética. Outra coisa que deixou de haver foram os grandes carros, como o Carro dos Milagres e a Barca dos Anjinhos que compunham o cortejo do Círio e que lhe conferiam uma verticalidade que hoje não está mais presente. E não só uma verticalidade, ou seja, altura: também uma diagonalidade, se posso dizer assim para evocar uma volumetria que os Círios de hoje perderam. O Círio de antigamente era um tanto barroco e, com esses carros, era dramático, mais impressivo, fantasmático.

Anos mais tarde, quando meu avô materno morreu e minha avó, Nida, foi morar conosco, na casa do Lago Azul, o almoço do Círio foi transferido para lá. Aliás, posso dizer que foi transferido com grande impacto, porque, por alguma razão, ele se transformou numa festa pantagruélica, para a qual muita gente afluía: os parentes de Rio e São Paulo, como sempre, mas também os parentes de Belém, os amigos e, por vezes, os parentes dos parentes e os amigos dos amigos – que não formavam uma facção, bem entendido. A casa era grande e o serviço da mesa – digamo-lo assim – era esmerado. E, se posso falar, sobretudo, da maniçoba da d. Nida, posso também falar das sobremesas, em particular dos quindins e do Quindão, das “castanhas dengosas”, com cobertura de cupuaçu ou maracujá, das não paraenses, mas aclimatadas bavaroises e das estranhas, mas fabulosas, tapioquinhas quadradas de bacuri. Hummm, saudades daquilo tudo...

Nesse tempo, era fundamental vermos um pouco da Trasladação e do Círio. Sem uma base permanente na “cidade”, pois meus avós paternos também já haviam morrido e não havia mais, assim, o apartamento do Largo de Nazaré, apenas escolhíamos um ponto de observação, geralmente em uma rua transversal à avenida Nazaré. Esperávamos a berlinda passar e então retornávamos para casa. Só depois disso é que os convidados chegavam e a festa começava. Era um momento fugaz, mas “ver a Santa” era algo absolutamente importante. Minha avó, minha mãe, as cunhadas de minha avó, suas sobrinhas e todo um cortejo iam, durante as semanas seguintes, inúmeras vezes, “ver a Santa na Basílica”. Já eu não gostava dessa programação; mas me sentia culpado de não ir. Preferia não ir, mas me sentia culpado. Aos poucos, me acostumei com a culpa e, então, por alguma razão, deixei de me sentir culpado – contanto “visse a Santa”, pessoalmente, ao mesmo uma vez.

Anos mais tarde, como é natural, tudo se foi mudando. Minha avó e minha mãe se foram muito cedo e os primos, amigos, parentes dos parentes, amigos dos amigos, todos, bom, todos eles se foram indo. Alguns estão dormindo, profundamente, e outros simplesmente se foram. O velho arraial deixou de existir. Aquilo que há hoje em dia não tem nenhuma relação com ele. O próprio Largo de Nazaré deixou de existir e foi transformado numa praça ridícula. O carro dos Milagres desapareceu, bem como todos os outros carros que formavam o cortejo do Círio. Minha irmã e meu irmão casaram-se e o almoço de Círio deles é, necessariamente, na casa de suas sogras – como disse, o Círio é uma festa feminina, e essa condição deve ser respeitada. Como minha sogra é espírita e possui certa cultura de diminuir a importância do evento, num arrivismo que, sinceramente... e como a Marina, minha mulher, considera que cozinhas são campos potencialmente minados que as planícies de Angola para que pise lá com segurança, coube a mim, ao longo dos últimos anos, organizar, na minha casa, o almoço do Círio. Família pequena, tempos outros, trata-se de uma festa com outra natureza, mas que se reproduz, na insistência da boa mesa paraense – informo que o segredo dos doces da minha avó se foram com ela, para sempre, mas que meu pato no tucupi tem melhorado, ano a ano – e na imensa e transcendental responsabilidade de “ver a Santa”.

Ontem a Marina me perguntava se eu não sentia alguma nostalgia desses outros Círios, bem diferentes, que vivenciei em outros tempos da minha vida. Pensei e observei que não, por que, vejam bem, meus Círios atuais têm uma coisa que, se perceberem, esteve sempre de fora de tudo o que relatei anteriormente: um estar-na-rua, uma imersão na coletividade de sentimento, que não pode ser experimentado, senão apenas muito tangencialmente, por quem está na janela, na varando, no canto da rua para ver a Santa passar.

Explico. É que hoje tenho o hábito de acompanhar, na rua, a muitos dos movimentos do Círio. Descobri o grande prazer que há em atravessar o percurso previamente que a Santa, ir encontrando amigos e conhecidos, ver um pouco dos corais que se apresentam em todo o percurso e, sobretudo, curioso como ventre que me fez me fez, ir observando as pessoas na sua vivência do Círio, ir descobrindo seus mundos, ir brincando de pensar o que elas estão pensando.

Já não preciso mais de um binóculo para olhar bem para as expressões das pessoas. Tampouco já não moro longe, para que veja rapidamente a berlinda e retorne para a distante casa onde lá aguarda-se o tal almoço. Mesmo tendo, em minha casa, uma varanda que permite uma razoável visão da procissão, o que havia de bastar, no tempo da minha infância, para mim e para a maioria dos meus parentes, não consigo dispensar, atualmente, essa proximidade, o ato de caminhar entre as pessoas, não movido por um sentido religioso dogmatizado, mas, certamente, por uma espécie de sentimento religioso que se deve ao ato de encontrar o coletivo, intuí-lo. Nem procuro a Deus e nem o encontro. Mas tenho uma irresistível vontade de olhar para as pessoas encontrando Deus. Bom, na verdade, essa tentação é de ver a pessoas encontrando qualquer coisa que achem interessante, mas é claro que o Círio é época propícia para quem encontrem Deus, ou melhor, Nossa Senhora de Nazaré, um tanto mais que a outras coisas que há por aí.

Vou terminando, bom Círio a Todos.

Um comentário:

Amelia Esperante disse...

FABIO TIA AMÉLIA TE AMA MUITO LINDO SÓ PODERIA TER VINDO DE VOCE MEU QUERIDO, A DISTANCIA SEPARA APENAS OS CORPOS NÃO OS CORAÇÕES.BEIJOS SAUDADES.