08 março 2015

Aula Inaugural do ano letivo do mestrado em Comunicação e da Faculdade em Comunicação da UFPA


Este ano resolver fazer diferente: a Aula Inaugural do ano letivo do Mestrado em Comunicação e da Faculdade de Comunicação da UFPA será conjunta. E teremos uma bateria de discussões sobre temas que consideramos fundamentais num momento da história do país no qual é preciso pensar e repensar o papel do meios de comunicação como instrumentos de fabricação de consensos de poder e de manipulação da opinião pública.

Assim, temos o prazer de convidar a todos para a Aula Inaugural conjunta do curso de Comunicação Social e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia (Ppgcom/UFPA), sobre o tema “Liberdade de expressão no mundo contemporâneo”, evento que abre a Semana do Calouro de Comunicação 2015. A aula inaugural, que acontece na próxima segunda-feira, dia 09, às 9 horas do auditório do Instituto de Letras e Comunicação, será proferida conjuntamente, pelo professor Fábio Fonseca de Castro, da Faculdade de Comunicação e coordenador do Ppgcom, e pela professora Marise Morbach, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFPA (Ppgcp).

O atentado ao jornal francês Charlie Hebdo no início deste ano, que resultou na morte de doze pessoas, o escândalo internacional do banco HSBC, a intensa polarização ideológica na postura editorial dos meios de comunicação, entre outros fatos, põem em xeque os limites éticos da liberdade de expressão na atualidade. Quais as grandes questões que envolvem o tema da liberdade de expressão no mundo contemporâneo? Qual o papel dos profissionais de comunicação nesse cenário? Para onde caminha a democracia no início deste século? São alguns dos eixos temáticos da aula inaugural.

A Semana do Calouro de Comunicação Social 2015 dará as boas vindas aos novos alunos com uma programação especial, tratando de temas que envolvem interesses do curso, da universidade e do mundo. As mesas, oficinas, minicursos e rodas de conversa que integram a programação da semana põem em pauta tanto a liberdade de expressão, como o ciberativismo e a cibercultura, o mercado de trabalho, as diversas linguagens da comunicação, mas também voltam-se a refletir  sobre o significado do regime militar pós 64 na vida da Universidade Federal do Pará.

Em relação a este último tema, haverá, na terça-feira (10/03), às 9 horas, também no auditório do ILC, uma manhã totalmente dedicada a discutir a “Ditadura militar às margens do Rio Guamá: 35 anos sem César Moraes Leite”. Foi justamente nesse dia, 10 de março, no ano de 1980, que o estudante do curso de engenharia da UFPA foi morto, quando a arma de um agente do regime militar caiu e disparou, atingindo fatalmente o rapaz de 19 anos. O trágico episódio, ocorrido dentro de uma sala de aula do pavilhão F do setor Básico do campus do Guamá, onde há muito tempo ocorrem as aulas do curso de Comunicação, tornou pública a estratégia de infiltração e controle do regime militar nas universidades. O objetivo que as novas gerações conheçam e reflitam sobre um período extremo de perda de direitos e liberdades no país. Os convidados dessa mesa são a professora Edilza Fontes, presidente da Comissão"César Leite" Memória e Verdade da UFPA, e o professor e poeta João de Jesus Paes Loureiro, que vivenciou todo esse período de repressão e foi uma das vítimas do período da ditadura na UFPA.




A Semana do Calouro de Comunicação Social segue até o dia 13 de março, com programações diárias, como mesas de debate, minicursos, oficinas e rodas de diálogo. As mesas e rodas serão abertas ao público.  O início do ano letivo na Facom será, portanto, no dia 16 de março.

A programação detalhada, com horários e locais você pode conferir no blog do Centro Acadêmico de Comunicação Social 
https://cacoufpa.wordpress.com/.

Direção da Facom  e Coordenação do Ppgcom

12 janeiro 2015

A cidade apócrifa


Fábio Fonseca de Castro


(Homenagem a Belém, no seu 399o aniversário - acreditando que só o que pode salvar a cidade é sua imaginação)

Em 1438 a cidade de Belém localizava-se na Bayonne, e antes disso ela estava no Egito, na Bratislava, a algumas léguas de Jericó, num pedaço católico do rio Mississipi e também no Orinoco e em outros lugares do mundo, suscitando um mistério secular que leva inevitavelmente a Maria, a Iluminada, e ao evangelho apócrifo mais fascinante do mundo, que é o que está nos arquivos do Estado, em São Petesburgo, escrito num grego vital dos tempos de São Jerônimo. Nesse evangelho, Deus rompe o Acordo da Aliança, contraído com os judeus, e põe no mundo uma filha, a Virgem Maria, que gerará o Salvador, a nascer num lugar chamado Bethelem. A nova aliança só será estabelecida quando o Salvador nascer, e não se sabe quando será isso, e tampouco quais serão os seus fundamentos (creio que isto inválida o Decálogo). No mesmo evangelho, Jesus Cristo aparece somente como uma criança levada e dotada de poderes especiais (sobrenaturais), que transforma seus amiguinhos em ovelhas sempre que é expulso das brincadeiras e que mais tarde se faz passar pelo Salvador, para amargamente descobrir, na cruz, que não é o filho de Deus, como pretendia. A vida desse impostor seria uma metáfora do próprio homem, ou então da religião, e é por detrás dessa belíssima metáfora que se escondem os elementos que nos interessam: o ícone da cidade de Bethelem e o ícone de Maria Virgem, dita A Iluminada, que é a filha de Deus e que se encarregará de fazer nascer o Salvador, não necessariamente sendo a sua mãe de carne. Esses dois ícones, quis acreditar um teólogo não menos apócrifo que viveu no Grão-Pará, se repetiriam propiciamente na Bethelem daquele país, porque Maria, a Iluminada, se faria existir no culto gigantesco que é o Círio de outubro e a cidade teria o nome místico tantas vezes repetido em outras cidades pelo mundo. O teólogo a que me referi é Terceiro Paulo, um corcunda que viveu no porão da Sé, na Cidade Velha, e cuja única obra, manuscrita, está escondida no Hospício das Ursulinas, em Moncovo (Asra leu para mim trechos esparsos dessa obra, na nossa quinta investigação pelos labirintos da cidade, que é a mesma que jamais relatarei). Terceiro Paulo é um amador da sua Bethelem, a do Grão-Pará, e quer ver nela a presença de Deus, ainda que seja por mimetismo. Essa forma graciosa de amor aproxima-o de ser um cavalheiro que corteja uma dama eglatina, que tanto faz se é Bethelem ou Maria Virgem. É preciso ter paciência com o sentimento amoroso, sempre impreciso, desses místicos, Acreditei, porém, na sua tese como se ela própria fosse o terceiro elemento da Santíssima Trindade, mas é lógico que todas as suas idéias, bem como o fato de que possamos ter boa vontade para acreditar nelas, são risíveis.

Para entender o espírito do Charlie Hebdo


Irreverente, vulgar, ácido, obsceno, sarcástico... Os adjetivos que podem descrever o Charlie Hebdo seguem nessa direção. O jornal, quanto a ele, segue uma tradição secular – nos dois sentidos da palavra – vigente na França deste a revolução de 1789: a do pasquim irreverente, anti-religioso, ateu, popular. Uma tradição que, na verdade, está na base política da sociedade francesa e que se assenta sobre o princípio da critica à religião.
Essa filosofia política – a do “secularismo”, ou da “laicidade” – é o princípio fundador da República Francesa e está no bê-a-bá que todas as professoras pregam às crianças desde o maternal. Meu filho fez o maternal e os primeiros anos de escola lá e acompanhei essa história na minha vida quotidiana. A laicidade, que significa a radical separação entre Estado e Religião, é, na verdade, bem mais que isso: é o próprio motor da vida política, da concepção política de nação, na França. 
Há toda uma longa história cultural, que não procurarei resumir aqui, em torno dessa questão, mas acho interessante fazer referencia a ela se a questão é falar do Charlie Hebdo.
A propósito: esse Hebdo, do título do jornal, é um diminutivo coloquial de “hebdomadaire” significa “semanal”. E há um ar de graça nisso, porque toda vez que os franceses cortam uma palavra no meio – e eles sempre fazem isso – é como se estivessem desmistificando poderes. Por exemplo, dizer Sarkô, por Sarkozy, é uma forma irônica, talvez irreverente, pela sua coloquialidade, de falar do ex-presidente. Assim, dizer Hebdo, em vez de hebdomadaire, além de mais propositado e sonoro, também contém um aviso sobre a disposição à irreverência da publicação.
O Charlie Hebdo foi criado em 1969, na esteira da rebelião estudantil do ano anterior e seguiu sendo publicado até 1989 – ano emblemático, do bi-centenário da revolução. Ficou três anos fechado e ressurgiu em 1992.
Suas provocações lhe renderam vários atentados, o mais importante deles, antes do ocorrido este mês, foi o de 2011, quando jihadistas lançaram uma bomba na redação – sem que houvesse vitimas.
Em 2006 publicou a antológica capa na qual mostra Maomé morto de vergonha pelos seus fieis integralistas: “É duro ser amado por imbecis...”.

Em 2010 o Charlie acompanhou, como sempre acidamente, o debate que envolveu a sociedade francesa em torno da proibição do uso da burqa no pais. A capa abaixo, exemplo dessa campanha, diz “Sim ao porte da burqa... no interior”.

No mesmo ano o jornal satirizou o discurso do Papa Bento XVI sobre a interdição aos cristãos do uso de preservativos e o controle da natalidade.

A edição que provocou o atentado de 2011 foi particularmente ácida: teve como “convidado especial no posto de editor-chefe” o próprio Maomé e o titulo especial de “Caria Hebdo”. Na capa, Maomé dizia: “Cem chicotadas se você não morrer de rir”.

Em seguida a ela, além da bomba, que incendiou a redação, os jihadistas também hakearam o site do jornal. O atentado não impediu a continuidade do jornal e já na semana seguinte o Charlie saiu com a antológica capa que trazia um redator e um jihadista atracados num beijo e a mensagem “O amor é mais forte que o ódio”.


Nesse mesmo contexto que Charbonnier, o editor do Charlie – um dos mortos no atentado do dia 7 de janeiro – declarou que o jornal pretendia banalizar o islã tanto como o catolicismo o fora, no processo de secularização experimentado pela França.
Na verdade, fizeram mais que isso: procuraram banalizar o terrorismo, associado ao jihadismo, como demonstra a famosa capa de uma das edições de outubro de 2014, que mostra o Profeta sendo decapitado por um jihadista do Estado Islâmico recentemente instalado na Síria. O letreiro diz: “Se Maomé voltasse”, enquanto o próprio avisa ao seu algoz: “Eu sou o Profeta, estúpido”, e este lhe responde, “Cala a boca, infiel”.

Bom, em síntese, o Charlie Hebdo segue nessa direção. Com exageros e ofensas? Sim. Talvez não seja possível fazer sátira sem isso.
A França defende isso por princípio. Uma coisa é um jornal, pretensamente sério, pretensamente responsável e pretensamente comprometido com a informação inventar mentiras, caluniar, difamar e ofender. Outra coisa é fazer a sátira. A subjetividade de toda sátira escusa seus excessos.  E por trás desse princípio, nítido para quem quiser enxergar, está a idéia da República laica.
A capa do Libération – o grande jornal de esquerda francês – de hoje, fazendo referencia à manifestação, que reuniu 3 milhões de pessoas no pais, ontem, para prestar solidariedade ao Charlie e às outras vitimas do terror jihadista da semana passada, sintetiza em princípio de fundação da idéia de República ao substituit o “Je suis Charlie” por um “Nous sommes un peuple”: “Nós somos um povo”.

07 janeiro 2015

Sobre o atentado no Charlie Hebdo


O morticínio ocorrido no Charlie Hebdo é a notícia que abre e puxa 2015. Várias palavras se embaralham em torno: identidade, etnocentrismo, multiculturalismo, laicidade, islamofobia, liberdade de impresa, liberdade de expressão e, mais uma vez, a França é palco desse debate, transcendental na Europa, que surge no conflito entre a laicização do Ocidente e a intolerância violenta de um certo islamismo.

As manifestações a respeito estão sendo as mais variadas e o debate que vai sendo feito, especializado ou laico, explora de maneira variada esse vocabulário, mas por todo o lado vamos ouvido generalizações perigosas que tendem a simplificar o atentado em torno de dicotomias generalistas que não só não explicam a violência ocorrida como também colaboram para o mascaramento das reais motivações dessa violência.

Vamos ser sinceros: não dá para generalizar, o que se vê não é uma guerra entre identidades e nem, muito menos, uma guerra entre Ocidente e Oriente. Isso é bobagem. Quem apela para essa violência é um islamismo ignorante e irracional. O qual tende a crescer quando se encontra com um "ocidentalismo" preconceituoso e etnocentrista.

É óbvio que o Charlie Hebdo, bem como qualquer jornal ou pessoa, tem direito de fazer a sátira e de recorrer à ironia. A sátira é uma forma legítima de questionar o poder, a ignorância, o sectarismo, a desonestidade e a estupidez. Qualquer religião, como qualquer estrutura de poder, é passível de receber críticas e deve saber respeitar as críticas que recebe. Não gostou? Que se defenda: que argumente, que recorra a processos civis. Mas nada justifica a violência. Muito menos o assassinato de pessoas.

Contra a violência dos dogmatismos religiosos, mas também contra o etnocentrismo é que, hoje, somos todos Charlie Hebdo. E não por outras causas, e não por identidades, e não por religiões.