24 maio 2017

Transcrição da aula pública "Mídia, poder e escândalos políticos no Brasil. O que está por trás da crise?"

Mídia, poder e escândalos políticos no Brasil.
O que está por trás da crise?

Fábio Fonseca de Castro
Doutor em Sociologia. Professor da Faculdade de Comunicação, do Programa de Pós-graduação Comunicação, Cultura e Amazônia, ILC-UFPA e do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido, NAEA-UFPA

Transcrição da aula pública ocorrida no dia 22 de maio de 2017

Introdução
Boa tarde a todos, começo agradecendo o convite da Faculdade de Comunicação e do Programa de Pós-graduação Comunicação, Cultura e Amazônia da UFPA para fazer esta aula pública. Essas duas unidades têm sido ativas e presentes no processo de reflexão e de discussão a respeito do processo político e social em curso no Brasil, o que é louvável e muito importante.
Vou dividir minha fala em três momentos. No primeiro, vou trazer alguns elementos que nos ajudem a construir uma análise da conjuntura nacional após a delação dos proprietários da JBS no último dia 17/05, cinco dias atrás, portanto. No segundo momento, vou agregar alguns elementos para refletirmos sobre a posição da Rede Globo e dos demais veículos da grande mídia golpista nessa conjuntura. Por fim, a partir da inserção do papel da mídia nessa conjuntura, buscarei trazer alguns elementos de economia política da comunicação que nos permitam construir uma agenda de enfrentamento do golpe e de luta pelas Diretas Já.
Mas antes de passar à análise de conjuntura, quero fazer uma constatação de partida e lançar algumas perguntas que, imagino, são as perguntas que nos trazem a este debate.
A constatação de partida – e imagino que ela seja um ponto passivo entre todos que estão aqui – é a percepção de que as empresas Globo instrumentalizaram o episódio da delação dos empresários da JBS para decretar o fim do governo Temer. O ponto mais evidente desse processo, o que centraliza esse comportamento editorial, foi o editorial de O Globo de sábado, dia 22/05, que exigia, de maneira contundente, a renúncia de Temer.
Isto dito, passemos às perguntas de partida:
Pergunta 1: Por que essas denúncias aconteceram, por que vieram à tona da maneira como vieram e o que está por trás desses eventos?
Pergunta 2: Qual o objetivo tático desse golpe dentro do golpe?
Pergunta 3: Como se posicionam os outros atores políticos de apoio ao governo diante das delações?
Pergunta 4: Teria a Globo participado dessa articulação do golpe dentro do golpe?
Pergunta 5: Por que a Globo rompeu com Temer?
Pergunta 6: Como se posicionam os demais atores midiáticos, na conjuntura, em relação à posição da Globo?
Pergunta 7: Quais as consequências possíveis para a Globo, a partir desse movimento?
Pergunta 8: O que fazer com a rede Globo na eventualidade de um governo democrático?
Pergunta 9: Qual o futuro da Rede Globo?
Pergunta 10: Como o governo golpista se posiciona em relação à mídia, em geral, e em relação à televisão e rádio públicas, em particular?
As três primeiras questões ajudam a refletir sobre a conjuntura política recente e as demais indagam sobre o papel da grande mídia golpista nessa conjuntura. Procuro respondê-las no tópico seguinte e, às demais, no tópico posterior.

I. Elementos para a análise da conjuntura após as delações da JBS

Elemento 1: A polarização do tecido golpista
É a resposta para a pergunta 1: Por que essas denúncias aconteceram, por que vieram à tona da maneira como vieram e o que está por trás desses eventos? Minha impressão é de que o que leva às delações da JBS é uma polarização, com potencial de ruptura, entre os dois corpos sociais que sustentam o golpe: de um lado os grandes partidos golpistas, associados aos grandes veículos de comunicação, ao empresariado, aos ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes do STF, a setores do Ministério Público e da Polícia Federal e ao juiz Moro. De outro lado, uma classe togada que reúne inúmeros procuradores e juízes e que se constrói em torno do Ministério Público, com ramificações importantes na Polícia Federal. Os dois grupos têm unidade em torno do programa econômico do golpe – ou seja, em torno das reformas neoliberais – e, igualmente, aceitam a adoção de medidas de exceção para criminalizar as forças democráticas e populares.
As delações constituem um trunfo deste segundo grupo, que aparentemente está em processo de rompimento com o primeiro grupo – não porque sejam defensores do estado de direito ou da democracia, mas porque vislumbram uma oportunidade de ampliar seu poder no Estado brasileiro. Nesse contexto, percebe-se uma ruptura em curso entre a Procuradoria Geral e o juiz Moro. O golpe dentro do golpe pode produzir, também, uma Lava Jato dentro da outra.
Esse elemento oferece resposta, também, para a segunda pergunta que coloquei acima: Qual o objetivo tático desse “golpe dentro do golpe”?
Como disse, o “golpe dentro do golpe” aparenta ser um oportunismo da classe togada, que tem em comum, com o outro grupo, uma visão elitista da realidade brasileira, a intenção de preservação da política econômica neoliberal e a hostilidade ao PT. As denúncias, ao envolverem Temer e Aécio, teriam força suficiente para “limpar” o golpe e afastar a camada mais corrupta e intransigente do controle da situação.
De quebra, seria possível, por meio de eleições indiretas, colocar na presidência um quadro técnico - Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, por sinal ex-funcionário da JBS até 2016 – com predomínio dessa classe togada nos destinos da nação.

Elemento 2: A posição de Janot
O Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, é o grande articular da classe togada que apoia o golpe no golpe – com as “ilustres” exceções de Gilmar, Alexandre de Moraes e Moro. Evidentemente é o grande articulador das delações, da operação de apuração movida pelo MP e pela PF e do vazamento final. O estrito controle da operação evitou a blindagem de Aécio e desmoralizou o núcleo de Curitiba, tomando a liderança da Lava Jato. De quebra, avançou sobre Gilmar Mendes, sabido desafeto de Janot.
Fica bem mais fácil entender por que tudo isso está ocorrendo – e, assim, responder às perguntas 1 e 2 – quando se percebe que:
1) Janot tem até o final de maio para decidir se concorre ou não a um novo mandato de Procurador Geral;
2) o vazamento das delações ocorreu no dia seguinte a um pronunciamento de Temer no qual este declarou que não tinha compromisso de indicar o primeiro nome da lista tríplice que os procuradores lhe enviassem.
3) o vazamento das delações ocorreu uma semana depois do bastante noticiado bate-boca entre Janot e Gilmar Mendes.

Elemento 3: Os pronunciamentos de Temer no sábado
Pouco a dizer. Temer puxa o próprio cabelo para sair da areia movediça. A maneira como se agarrou a uma suposta perícia encomendada pela Folha corroeu o que restava à dignidade do posto que ocupa. Sua fala não teve credibilidade e serve, se muito, para enviar mensagem ao PSDB de que não é hora de deixar o governo e, se pouco, para evitar a prisão de seu grupo mais próximo.

Elemento 4: O fato da PF de Brasília tomar à frente da Lava Jato
É um dos fatos maiores do contexto pós-delações. Em primeiro lugar porque, como disse, desmoralizou o núcleo de força-tarefa de Curitiba da Lava Jato. Em segundo, porque fortaleceu o controle de Janot, e dos grupo dos togados, sobre a operação. Por fim, porque impediu a blindagem de Aécio.
Esclareço que a desmoralização referida se deve ao fato de que, pela primeira vez desde seu início, a Lava Jato teve seu modus operandi modificado – a bem dizer, profissionalizado. Deixou de funcionar com seu habitual espalhafato, denuncismo e vazamentos para efetivar uma investigação consiste e com provas documentais válidas, com impacto num processo de negociação de delação premiada que tem sentido, do ponto de vista jurídico.

Elemento 5: O impasse na agenda golpista
A crise impacta fortemente em três episódios em curso: a votação da reforma da previdência na Câmara dos Deputados, a votação da reforma trabalhista no Senado e a decisão de Moro sobre Lula.
A batalha da reforma da previdência pode ter uma reviravolta a favor dos interesses do povo brasileiro. Como se sabe, o governo interino de Temer já recuou em alguns pontos. Além disso, cabe lembrar que uma vitória contra o governo, nessa questão, produziria um impacto forte na opinião pública, produzindo a percepção de que a greve geral é um instrumento de luta válido e eficiente.
Em relação à votação da reforma trabalhista, de mais difícil percepção e, consequentemente, também de mobilização popular, trata-se de uma vitória talvez um pouco mais difícil, e que, justamente por isso, caso ocorra, de peso simbólico decisivo para a erupção das forcas de apoio a Temer.
Por fim, em relação à provável condenação de Lula por Moro, no caso do tríplex, a conjuntura parece ampliar as possibilidades de que isso ocorra, pois as delações produzem uma cortina de fumaça e reforça o falso julgamento de que “todos roubam e são culpados”.
Também é preciso perceber que quanto mais tempo for sangrada e permanecer no governo maiores são as chances de que reformas percam força e sejam abandonadas.

Elemento 6: A sucessão de Temer
A possibilidade das Diretas já, a única solução justa e capaz de restabelecer a legitimidade do poder, parece improvável – a depender da mobilização das ruas. Para aprovar uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC), é necessário cerca de 6 meses – e isso se for tratada com toda pressão política possível, como foi o caso da PEC 55, a do teto dos gastos públicos. Fora isso, o TSE precisa, também, de um tempo, ao menos três meses, para organizar as eleições.
Na eventual renúncia de Temer, ou na possibilidade – cada dia mais provável – de que o TSE julgue inelegibilidade da chapa Dilma/Temer, como se sabe, a situação tende a conduzir para eleições indiretas – pois os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Eunício Oliveira, reproduzem, por seu envolvimento na Lava Jato e em inúmeras outras situações, justamente o modelo a evitar no processo de “assepsia do golpe”.  Quanto a Carmem Lúcia, presidente do STF, certamente não tem condições pessoais de assumir o governo do país numa situação de crise extrema.
Além da ameaça das indiretas, que embora ilegítimas possuiriam o apelo (insustentável) do argumento da constitucionalidade é preciso estar muito atento para o risco de uma alteração constitucional que adie ainda mais o processo eleitoral democrático. É preciso pensar nisso porque a crise institucional caminha para se tornar uma crise de regime, caso em que forças muito estranhas e mesmo inusitadas podem lançar mão do Estado.
De todo modo, já ou em 2018, tem-se uma tendência à polarização entre uma esquerda desunida, mas representada por Lula e uma direita absurda, agregada em torno da opção que estão chamando por aí de BolDo: ou seja, ou Bolsonaro, ou Dória.

Elemento 7: A decomposição do governo Temer
Esse elemento diz respeito à terceira pergunta que fiz acima: Como se posicionam os outros atores políticos de apoio ao governo diante das delações?
A resposta é incerta, porque a idéia de dar um golpe dentro do golpe, num movimento fulminante e certeiro – na qual embarcou a Rede Globo – não funcionou. E não se sabe se funcionará. Aparentemente, o governo Temer foi ferido de morte, mas ainda cambaleia. Procura evitar a provável prisão e busca recompor sua base de apoio.
No campo político-partidário, ao que se percebe, todos foram pegos de surpresa. PPS e PSDB ameaçam sair do governo – o primeiro deles já tendo iniciado esse processo, que se se realizar integralmente, tira 30 deputado na base governista.
Necessário completar que nenhum dos agentes golpistas, mesmo com a evidência da inocência de Lula e com a extensão provável das delações, que aproximam Aécio Neves e o PSDB até do narcotráfico, assinalam uma saída que passe pelas Diretas já ou por qualquer forma de protagonismo popular.



II. A posição da Rede Globo e dos demais veículos da grande mídia golpista na conjuntura

A maioria das perguntas que coloquei no começo desta fala dizem respeito, como é a proposta do debate, a refletir sobre o papel da grande mídia golpista e em especial das empresas Globo, na conjuntura após das delações da JBS.

Pergunta 4: Teria a Globo participado dessa articulação do golpe dentro do golpe?
Embora seja grande a tentação de responder que sim, porque sabidamente a Globo conspira e articulou todas as etapas do golpe de 2016, é mais provável que não, afinal foi visível o estado de exaltação e de surpresa com que a Globo agiu no momento em que as denúncias foram vazadas. O espaço de tempo entre o vazamento e sua primeira divulgação, em boletim especial transmitido em rede por volta das 18h do dia 17/05 parece ter sido pequeno, apenas o suficiente para que se tomasse a decisão editorial de pedir a renúncia de Temer.

Pergunta 5: Por que a Globo rompeu com Temer?
Para não afundar junto com ele, provavelmente, e para fazer essa “limpeza” do golpe, preservando a política neoliberal. As delações ameaçam a estabilidade do golpe e, portanto, as reformas trabalhista e previdenciária – bem como o restante da agenda golpista.
Nesse cenário, pesando também nele a exitosa greve geral do dia 28/04, torna-se provável nova greve gerai, com ampla adesão de sindicatos e das classes médias. Ou seja, as ruas podem ferver. Em complemento, o ministro Gilmar Mendes, do STF, que também aparece nas delações, pode ser submetido a impeachment, o que abalaria a credibilidade do próprio STF junto às camadas da população que apoiaram o golpe. Por fim, nesse contexto, a própria prisão de Lula fica ameaçada.


Pergunta 6: Como se posicionam os demais atores midiáticos, na conjuntura, em relação à posição da Globo?
Este elemento contém a resposta para parte da terceira questão: Como se posicionam os outros atores políticos e midiáticos? No que tange ao campo midiático, deve-se observar que os jornais Estado de São Paulo e Folha de São Paulo não acompanharam a narrativa da Globo. Com efeito, a postura da Globo parece ser a grande incógnita que encobre possíveis segredos, ainda não assimilados pelo restante da mídia golpista.
De um lado, a Globo, apoia “o golpe dentro do golpe” e, de outro, os demais veículos da grande mídia golpista ou continuaram a apoiar ou adotaram uma postura dúbia em relação a Temer. Perceba-se que a Folha construiu os laudos e as suspeitas de que o áudio tenha sido forjado, oferecendo a Temer os elementos de sua tentativa de salvação no seu segundo pronunciamento, ocorrido sábado 20/04. No mesmo movimento de desvalidação das denúncias, o Estadão noticiou, no mesmo dia, que um ex-assessor, ainda muito próximo de Janot trabalha no escritório contratado para negociar a delação de Joesley Batista. Por sua vez, a Globo também contra-atacou, divulgando que o áudio de 38 minutos dessa gravação coincide com a programação no horário da rádio CBN, onde estava sintonizado o rádio do carro de Joesley.

Pergunta 6: Quais as consequências possíveis para a Globo, a partir desse movimento?
A escolha da Globo é arriscada. Ao ingressar num processo de polarização ao Estadão e à Folha e, ainda, talvez, ao grupo Abril, ela rompe a coerência discursiva de apoio a Temer. A evolução do cenário pode resultar, assim, numa consolidação da sua hegemonia sobre as decisões políticas ou numa condição de vulnerabilidade.

Pergunta 8: O que fazer com a rede Globo na eventualidade de um governo democrático?
Com o golpe, temos certeza de uma coisa: Democracia e Rede Globo não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo. A Globo é beligerante e reincidente. Para ter certeza disso basta lembrar dos dados apresentados por Lula em seu depoimento a Moro: de que, ao longo de um ano, o Jornal Nacional dedicou 18h15’ em matérias contra ele, Lula.
A constatação é evidente: é preciso questionar juridicamente o monopólio da Globo e trabalhar por uma revisão das concessões de radiodifusão no país.
Porém, evidentemente, essa batalha é longa e difícil. Então não é possível concentrar nela todas as forças da democracia. É também preciso fustigá-la economicamente, diminuindo e mesmo cortando completamente as verbas públicas de publicidade aplicadas nela e atraindo novos investidores, que possam fazer frente às empresas Globo com novos negócios ou mesmo com o negócio da TV aberta.

Pergunta 9: Qual o futuro da Rede Globo?
Há muito tempo a Globo está cambaleando. Por dois motivos estruturais: primeiramente porque o negócio da TV aberta está condenado. Está condenado pela tecnologia, pelo modo de produção e de consumo do audiovisual e pelo processo de convergência midiática em curso. Netflix, Google, facebook, Youtube e sobretudo as empresas telefônicas estão condenando a TV aberta à extinção. Para a Globo, é questão de tempo.
Em segundo lugar, porque a Globo é uma empresa mal gerida. Em 2004 ela quase faliu, foi salva por Carlos Slim, o magnata mexicano das comunicações, dono da Televisa, que exigiu em troca o controle da Net. Recentemente, a empresa, também em apuros, foi salva pelo BNDES – ainda que, curiosamente, hoje critique a BJS por ter sido beneficiada pelo mesmo banco e com as mesmas condições...
E é preciso saber que a Globo é mal gerida porque seus sócios, periodicamente, a descapitalizam. Nos últimos três anos a empresa distribuiu cerca de 5 bilhões de reais aos acionistas. Ademais, atualmente a Globo ganha dinheiro com os juros das suas aplicações financeiras do que com a venda de espaço publicitário.
Nesse contexto, aparentemente, o futuro da Globo é ser vendida. Ou melhor, é ser comprada... por Carlos Slim, é claro. Ele já possui a Net e duas grandes empresas telefônicas, a Claro e a Embratel.

Pergunta 10: Como o governo golpista se posiciona em relação à mídia, em geral, e em relação à televisão e rádio públicas, em particular?
Em relação à mídia golpista, o governo interino tem sido generoso e mesmo absurdamente cúmplice. Os gastos de Temer com publicidade subiram cerca de 934% em seus primeiros meses de governo, em relação ao mesmo período do governo Dilma, numa política abertamente favorecedora dos veículos que apoiaram e forjaram o golpe. Alguns dados ajudam a compreender as escolhas feitas:
·      os gastos com publicidade em jornais impressos cresceu de 1% para 7%
·      os gastos com internet caíram de 17% para 13%
·      os gastos com a TV Globo cresceram 23%
·      os gastos com a Abril, a editora da revista Veja, subiram de 52 mil reais para 380.770 mil, num incremento de 624%
Para completar, destaco alguns números curiosos, que parecem sugerir, particularmente, a perversidade do governo interino:
·      os gatos com a Fundação Nossa Senhora Aparecida, mantenedora de canal de televisão católico, subiram 500%
·      os gatos com para Fundação João Paulo II, de igual fé e compromisso, subiram 337%
·      os gatos com a revista Caras, se elevaram em 2.472,9%
Em relação à EBC, primeira e única empresa pública de comunicação brasileira de extensão nacional, criada no governo Lula, é fundamental destacar o maciço ataque que ela está sofrendo durante o governo golpista. Em primeiro lugar, a absurda tentativa de demitir seu presidente, ocorrida logo na primeira semana do governo interino e revertida na justiça. Em segundo lugar, a dissolvição do seu Conselho Curador.
Quero assinalar que acabar com a EBC, alem de um desperdício de mais de R$ 2,6 bilhões de reais investidos na sua constituição, significa:
·      acabar com o mínimo do contraditório presente na mídia nacional  e com a única estrutura de radiodifusão aberta, em nível federal
·      acabar com 9 rádios públicas, dentre as quais duas - a Rádio Nacional da Amazônia e a Rádio Nacional Alto Solimões – inseridas em contextos que não são alcançados por nenhuma rádio comercial
·      acabar com a Radioagência e com a Agência Brasil, que produzem conteúdo acessível gratuitamente por rádios de todo o Brasil e do mundo
·      acabar com o “Caminhos da Reportagem”, um programa jornalístico hiperpremiado e que explora temas que não são tratados pelas emissoras comerciais
·      acabar com o “Estação Plural”, primeiro programa em TV aberta apresentado por um transexual
·      acabar com “Guilhermina e Candelário”, primeira animação infantil protagonizada por crianças negras
·      acabar com “Igarapé Mágico”, que tem como personagens animais da fauna brasileira, do norte do país, dos igarapés, da Amazônia

III. A agenda de enfrentamento do golpe e de luta pelas Diretas Já pela comunicação

O objetivo desta terceira parte é trazer alguns elementos do debate sobre economia política da comunicação que nos permitam construir uma agenda de enfrentamento do golpe e de luta pelas Diretas Já. Relaciono-os a seguir.

Tarefa 1: Recuperar o discurso
Política é comunicação e comunicação é política. Um dos grandes erros das esquerdas contemporâneas é separar as duas coisas, como se comunicação fosse apenas comunicação. Ou seja, como se as palavras tivessem o direito de serem vazias de compromisso.
O grande exemplo disso é o erro discursivo do governo Dilma ao se render à narrativa liberal e abandonar a pauta que o reelegeu pelo discurso de austericídio da direita, assumindo posições que traiam não apenas o voto recebido mas a própria história do PT.
Num contexto de narrativas falsas e de superposição de narrativas, mais do que nunca é importante, para as esquerdas – e, sobretudo, para o enfrentamento do golpe – recompor a coerência das suas próprias narrativas.

Tarefa 2: Recuperar a coerência
Refiro-me aos erros políticos da comunicação. As esquerdas têm uma dificuldade atávica com a comunicação. Seu grande problema não é comunicar mais e nem comunicar melhor – embora isso também possa ser um problema -  mas, fundamentalmente, manter a coerência entre comunicação e política – como o discurso de Lula, por exemplo.
Poucos políticos, de esquerda ou direita, conseguem produzir esse efeito de coerência, e isso é, de fato, cadê vez mais difícil nas sociedade contemporânea. A tendência é acreditar que basta investir na intensificação e na qualificação da comunicação, mas, no caso da esquerda, isso gera problemas insuperáveis de confiança e de credibilidade, porque a essência de ser de esquerda, no seu sentido histórico, é o compromisso com a coerência.

Tarefa 3: Combater o monopólio
A questão da pluralidade social na comunicação e a da democratização da comunicação sempre foram, declaradamente, compromissos do PT. Não obstante, no poder, o partido fez muito pouco por esses compromissos. Sem admiti-lo e sem fazer essa autocrítica não é Possível recuperar a coerência sobre a qual falei há pouco.
Faz parte dessa autocrítica admitir que, no poder, PT empreendeu uma política de sustentação financeira da mídia conservadora e que, nesse processo, a Rede Globo foi particularmente e especialmente beneficiada, recebendo cerca de R$ 8 bilhões em publicidade ofi­cial durante os governos do PT. O custo dessa escolha foi imenso, não apenas para o partido mas, também, para o país. Um desperdício de recursos públicos, com altíssimo custo social e efeitos sabidos sobre a democracia e os direitos sociais.

Tarefa 4: Firmar a agenda da democratização da mídia
Não custa lembrar – embora pela centésima vez – o que deve ser feito quando a esquerda chegar novamente ao governo federal. Listo as tarefas de uma agenda mina e fundamental, para que as tenhamos em mente e saibamos porque devemos lutar pela democracia:
1.     Garantir o cumprimento do princípio constitucional da proibição de outorgas de radiodifusão para deputados e senadores;
2.     Investir maciçamente em fibra óptica: em banda larga de qualidade e com baixo custo final para o consumidor;
3.     Investir num sistema de financiamento republicano, democrático e generoso do jornalismo e da cultura digital  não-corporativos;
4.     Investir em cursos populares de crítica midiática
5.     Investir maciçamente na EBC, dotando-a de fonte própria de financiamento;
6.     Restabelecer o Conselho Nacional de Comunicação;;
7.     Combater aos arrendamentos e as subconcessões de horários no rádio e na tV;
8.     Combater o livre mercado de compra e venda de outorgas de rádio e TV;
9.     Fiscalizar e responsabilizar as emissoras e os jornais por violações de direitos humanos na programação;
10.  Encerrar o processo de criminalização das rádios comunitárias e desenvolver mecanismo republicanos de apoio e de ampliação do número de outorgas.

Tarefa 5: Fazer a desobediência civil
Reler Thoreau e fazer a desobediência civil é a grande arma. Não temos uma única grande arma midiática, um único grande veículo a nosso favor, mas podemos realizar uma desobediência civil sistemática e gradativa, nos pequenos espaços de visibilidade e, principalmente, utilizando a internet.
Por um lado, a luta contra o golpe precisa de articulação inteligente e crítica e de muita difusão. Nesse plano, ela precisa de debate público ativo – como o que estamos fazendo aqui, a partir da universidade pública – e, por outro, precisa de atos de rebeldia e de disseminação, como por exemplo mudar o nome das nossas redes wi-fi para frases de hashtag, como Lula 2018 ou ForaTemer.
Sobretudo, penso que temos um espaço e uma missão, aqui, na universidade pública, de participar do processo político em curso de maneira mais intransigente e critica, procurando meios de refletir a respeito do avanço conservador em curso e de denunciá-lo. A reconstrução da democracia e da República se faz com palavras e com a ação formativa e reflexiva.


Obrigado!

20 maio 2017

Convite: Mídia, poder e escândalos políticos no Brasil: O que está por trás da crise?


Política Cultural e Gestão Democrática no Brasil

Lançado esta semana, pela Fundação Perseu Abramo, o livro "Política Cultural e Gestão Democrática no Brasil", organizado por Albino Rubim e que traz vários artigos sobre experiências democráticas de política cultural no país. Tenho a honra de participar da coletânea, com um artigo chamado "A Política Cultural do PT no Governo do Pará (2007-2010)". Honra porque, em primeiro lugar, uso o espaço para defender, sem perder a dimensão crítica, a experiência de política cultural do nosso Governo Popular. Honra, também, por dividir o espaço com Marilena Chauí, Lélia Abramo, Hamilton Pereira, Jorge Bittar, muitos outros companheiros de luta pela democracia cultural. Mas honra, sobretudo, por partilhar este espaço com o mestre Antônio Cândido, que hoje mesmo, como se sabe, nos deixou. Minhas homenagens a ele e a seu legado, à sua luta por um Brasil mais igualitário e decente. À sua luta por uma cultura política mais crítica e mais sensível e por uma política cultural mais sintonizada com a experiência histórica real dos brasileiros.




Entrevista sobre a "marca Amazônia"


Do Blog Marca Amazônia
"Em março, entrevistamos via e-mail o professor Fabio Fonseca de Castro, graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Pará, mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília e mestre em Estudo das Sociedades Latino-Americanas (opção Antropologia) pela Universidade de Paris III (Sorbonne-Nouvelle). Na conversa, o pesquisador respondeu a alguns questionamentos sobre a possível “Marca Amazônia” e sua relação com a sociedade na contemporaneidade. 
Confira a entrevista em nosso blog:  https://goo.gl/4uJVPp"

07 maio 2017

Sobre a vitória de Macron na França

A vitória de Emmanuel Macron nas eleições presidenciais da França só oferece um motivo de comemoração: ter derrotado Marina Le Pen. Trata-se do famoso “menos pior”. 

No cenário político, Macron ocupa uma posição, digamos assim, de “extremo centro”. Participou do governo socialista, é certo, mas antes foi banqueiro dos Rotschild. Propõe um plano de investimentos sociais de 50 milhões de euros, é certo; mas também um corte de 60 milhões de euros no orçamento.

Deseja reformar o Código do Trabalho para dar mais garantias ao trabalhador, mas ao mesmo tempo promete extinguir 120 mil empregos públicos e cortar 10 milhões de euros no orçamento do seguro-desemprego.

Querem mais? Promete investir 15 milhões de euros na transição energética para um modelo sustentável, mas não deseja abandonar o modelo nuclear (a França tem 58 reatores nucleares em atividade).

Como eu dizia: Macron é o extremo centro.

O seu primeiro ministro, que deve ser anunciado dentro de alguns dias, deve reproduzir essa tensão: fala-se em François Bayrou, com simpatias socialistas - em todo caso um democrata importante -, mas também em Laurence Parisot, antiga presidente do Medef, a maior organização patronal francesa, o equivalente à Fiesp brasileira. Uma opção coerente, por seu centrista também “extremo", seria Jean-Louis Borloo, antigo ministro, amigo de Macron.

E outra coisa me assusta: a futilidade e a volatilidade do seu discurso político. Que dizer de alguém que coloca no centro dos seus compromissos, “moralizar a vida pública”? Que é um populista, é claro! Bem conhecemos os mecanismos que produzem esse tipo de afirmação, em qualquer contexto…

Isso tem a ver também com a rapidez e com a ardilosidade com a qual construiu sua candidatura. Percebendo o naufrágio trágico do governo do qual participava - o de François Hollande - Macron alimentou e fez parte das inúmeras conspirações internas e saiu no momento oportuno, sabendo que não seria o candidato dos socialistas, para fundar o movimento por meio do qual lançou sua candidatura, o En Marche.

Não sei se os próximos anos serão de crescimento das já imensas contrariedades e expectativas sociais dos franceses. Também não sei dizer, nem mesmo enquanto possibilidade, sobre o futuro dos grandes partidos franceses - os Republicanos, da direita, os Socialistas, o Front National da ultra-direita, a nova esquerda representada por Mélenchon, com sua France Insoumise e o verdes no novo cenário configurado. Porém, uma coisa parece certa: prosseguirá, na França, a política de hesitação e de dependência completa dos movimentos econômicos da Alemanha. A mesma política que arruinou os socialistas e que fez o triunfo financeiro dos apoiadores da direita. A mesma política que estimula o voto na extrema-direita. A mesma política que faz surgir “o novo” - Macron - do nada e que lança “para lugar algum” o futuro do país.