23 julho 2014

Piscadelas, preconceitos e humor de resistência

- Negão, te trouxe isto aqui!
- Negão é o cu da puta que te pariu! Sou afrodescendente. Mas se tiveres a minha cor eu deixo passar. Deixa eu ver quem está aí... Ah, és tu!
E deu uma piscadela para o rapaz. Uma piscadela.
Hoje fui trocar o óleo do carro. No posto, o responsável pela tarefa era um sujeito negro. Falador e simpático. Troquei algumas ideias com ele. Terminada a tarefa, estava pagando minha conta quando veio alguém trazendo para ele uma encomenda. Concentrado na operação de coisar meu cartão de crédito, ele estava de costas para o rapaz que chegava.
Foi quando se deu o diálogo que reproduzo acima.
Uma piscadela explica muito. Bem conhecemos quantos antropólogos já falaram de piscadelas. Geertz, Rosaldo, Dawsey, Turner...
Bem sabemos o quanto piscadelas denunciam dos entre-ditos, pós-ditos, quase-ditos, não-ditos.
- Se és tu, está tudo bem.
O rapaz que trazia a encomenda era negro, como ele.
Observador silencioso, fiquei pensando o quanto silentes são as sutilezas do humor.

E em quanto o humor responde às firmezas das necessárias reivindicações, às coragens para as lutas e para as grandes questões.

21 julho 2014

A cauda longa da Fifa

Todos os brasileiros se indignaram com a arrogância da FIFA durante a preparação da Copa do Mundo, mas apenas alguns puderam lavar a alma quando a Polícia brasileira prendeu gente da FIFA e expôs a corrupção em torno da empresa Match Services. Se foram apenas alguns isso se deu porque a cobertura da mídia estava comprometida em reafirmar a própria arrogância colonizadora - que lhe é habitual - e não explorou o assunto.

A notícia passou. Mas a repercussão crítica ainda não. Li há pouco o excelente artigo da correspondente da Deutsche Welle no Brasil, Astrid Prange, sobre o assunto. Vejam um trecho:
Até pouco tempo atrás, o banco dos réus estava reservado ao país anfitrião, o Brasil. A Fifa não se cansou de criticar a lentidão nos preparativos do espetáculo esportivo. (...) Mas agora a situação se inverteu. Não é mais o Brasil, mas a Fifa que precisa ouvir sérias acusações. E a lista de transgressões é longa. A empresa Match Services, parceira da Fifa, estaria envolvida na venda ilegal de ingressos da Copa. Árbitros da Fifa são acusados de ignorar entradas duras em campo. E as equipes de segurança da Fifa não foram capazes de garantir a segurança dos espectadores no estádio. 
A derrocada da Fifa mostra quão mal informados sobre o maior país da América Latina estão a entidade máxima do futebol e a opinião pública mundiais. A crítica da Fifa aos atrasos nas obras dos estádios e à infraestrutura precária se encaixava muito bem nos clichês vigentes sobre o Brasil. Sol, samba, carnaval e futebol, e, naturalmente, corrupção – essa era a perfeita descrição de um país simpático, mas longínquo.
Delicia ler isso. Sabemos que é verdade. A reafirmação da arrogância colonizadora da Fifa pela grande mídia e pelas elites, com seus preconceitos e seu ódio político, faz com que muitos percam de vista as coisas tal como elas, de fato, são.

Vejam outro trecho do artigo da jornalista:
O Brasil não é um país que se entrega de joelhos para a Fifa, mas uma democracia e um Estado de Direito. Isso ficou mais uma vez comprovado pelo excelente trabalho dos investigadores brasileiros. Se eles tivessem contado com a prometida colaboração da Fifa, pouco teriam avançado. O Brasil acabou com a onipotência da Fifa. Suas novas roupas são mais transparentes do que ela gostaria que fossem.

20 julho 2014

Duplos, triplos, preconceitos

Esta semana vi um excelente filme, no CineLíbero Luxardo. “Pelo Malo”, ou cabelo ruim, produção venezuelana dirigida por MarianaRondó.
O filme conta a história de um moleque de uns sete anos de idade, vivendo num suburbio de Caracas, obcecado por alisar seu cabelo crespo para aparecer numa foto como “cantor”. A mãe, viúva e desempregada, não compreende o que passa na cabeça do filho e suspeita que esse desejo de alisar o cabelo é um sinal de homossexualidade tangente.
- Eu não te amo.
- Eu também não te amo,
dizem-se os dois.
O preconceito cega. O menino tem o preconceito da “cor”, da “raça” e se autodenega. Sua mãe tem o preconceito da sexualidade, e, degenando o filho por causa disso, também se autodenega.
Preconceitos são cadeias de sentido. São redes, tecidos vivos, que tendem a se disseminar e a se superpor.
Denegação é o termo que encontro para discutir como se produzem as exclusões de si – talvez as mais delicadas e as mais absurdas.
Tratei um pouco disso num artigo que publiquei este mês na Revista de Antropologia da USP, observando como nós, aqui na Amazônia, temos uma longa tradição de autodenegação.
Nós nos autodenegamos do que somos enquanto indígenas, negros, nortistas. E isto além do tal complexo de vira-latas da comum nação brasileira, sempre reavivado em ano de Copa do Mundo.
O ciclo do preconceito dificilmente se rompe.  

Se renova, se autoproduz.