10 maio 2020

Rebelião no dia das mães

Cresci com a interdição de referir o dia das mães. Era uma norma doméstica, imposta pela sabedoria de meu pai, sempre implicante contra o que considerava como “afetos vulgares do capitalismo”.

“Escolher um único dia para homenagear uma mãe é um símbolo maior da decadência ocidental”, repetia meu pai, muito incomodado e retórico, completando o raciocínio de maneira indignada: “Reduzir uma mãe a um dia, a um presente, é a pior maneira de ofendê-las! Significa reduzir a pouquíssimo a pessoa mais importante da vida de cada um. Significa reduzir as mães a uma condição simbólica apenas efemérica!”

Efetivamente, ninguém dava muita bola para as revoluções de meu pai, mas nem que fosse para termos paz, fingíamos concordar com ele, e toda a família conseguia comemorar o dia das mães sem que ele percebesse, exatamente, o que estava acontecendo.

Ah, meu pai... Suas controversas, críticas e cataclismáticas opiniões sempre foram mal-compreendidas. Mesmo por mim, tão interessado na alheia hermenêutica.

E, isto posto, recordo-me daquela vez...

Tratava-se der ser vésperas do dia das mães, creio que no ano de 1980, se bem conto, havendo em casa, conosco, um casal muito amigo e muito querido de meus pais, Valdemir Teixeira e Doristela Chermont Vidal.

Sabendo que confrontava os deuses, sussurrei à Doristela, “Pede para minha mãe ir ao quarto dela e olhar debaixo do travesseiro, depois da meia-noite”

A doce Doristela assustou-se, mas concordou comigo; e eu ainda lhe pedi,

“Não conta para o meu pai”.

E olhou-me eternecida, cúmplice, talvez sabendo de que nosso comum cristianismo era superior ao paganismo racionalista-crítico do bárbaro que era meu pai.

E assim, passada a meia-noite, nos primeiros minutos daquele domingo, dia-das-mães, Doristela, comovida, sugeriu à minha mãe que fosse a seu quarto e olhasse, como eu lhe pedira, sob seu travesseiro.

Havia lá uma rosa de papelão extremamente mal empreendida, com umas bordas patéticas de papel alumínio e uns desenhos que mais sugeriam a lepra do que o amor filial. Mas em seu apoio, não obstante, havia uma pequena carta, de minha precária autoria, na qual escrevia, se bem me lembro, afrontando as certezas de meu pai, que, mais do que apenas um dia, eram todos os dias que eram seu dia, do ponto de vista de um filho... se bem lembro.

Talvez que Valdemir e Doristela pudessem  precisar, porque não lembro bem. Lembro apenas do mote desse texto antigo “todos os dias, e não um dia apenas”.

E lembro da emoção da Doristela, que entendeu minhas palavras como se eu fosse um cruzado contra o pagão infeliz que era meu pai.

Minha mãe, que sempre se divertia ao confrontar meu pai desses seus princípios que ela sabia escusos, leu para os presentes minha pequena carta, falando que todos os dias eram seus, e não apenas um,

“O que me dizes?”, perguntou ela a meu pai, com aquele riso de sua alma, aquele riso que sabia que falas não convolam mentes.

E meu pai comoveu-se. Permaneceu calado por uns quinze minutos, com o olhar afundado no seu copo de whisky, tal como ocorria toda vez que desejava sugerir que estava afetado por alguma inesperada comoção.

(Ah, meu pai...)

E então Doristela fustigou-lhe,

“Teu filho te superou, Luiz, vivi para ver isto!”,

Doristela muito querida! Naquela noite ela partilhou comigo uma espécie de rebelião contra meu pai. Todos eles eram amigos de adolescência, e creio que havia anos que meu pai a irritava, bem como ao sempre cavalheiro Valdemir, com suas insubordinações em relação às convencionalidades dos afetos costumeiros.

Todos sabíamos, naquele tempo, que meu pai era um terrível pagão, constando como evidência de seu paganismo sua irridência contra os costumes capistalistas e midiáticos de nosso tempo, mas todos o amávamos e rezávamos por sua pobre alma.

Recordo que recebi imensos beijos de minha mãe e sua amiga Doristela apertou minha mão, como se fosse minha cúmplice – além de dizer que meu texto estava lindo e que desejava, um dia, que um filho seu lhe ecrevesse algo semelhante.

Fábio Fonseca de Castro.

05 maio 2020

Um blog para refletir sobre a pandemia a partir de nossa experiência de pesquisa

Car@s, nosso grupo de pesquisa, o SISA (Socialidades, Intersubjetividades e Sensibilidades Amazônicas) – Ppgcom-Ilc / Ppgdstu-NAEA – fez um blog para refletir sobre a pandemia a partir de nossa experiência de pesquisa.

Talvez seja tempo de “converter” nossas pesquisas, inclusive nas ciências sociais, para pensar essa nossa experiência comum, afinal estamos no mundo da vida, escrevemos nela, por meio dela e com o cuidado dela.

Convido tod@s a darem uma olhada no Cadernos do SISA, gentilmente hospedado na plataforma científica francesa hypotheses: https://sisa.hypotheses.org/

As questões que começamos a construir são as seguintes:

Quais as práticas de sociabilidade possíveis em tempos de pandemia? De que maneira a experiência da pandemia e, especificamente do confinamento, transformarão as formas da sociabilidade em nossas sociedades? Como se produzem e reorganizam as sensibilidades diante dos enfrentamentos produzidos pela pandemia? Como a pandemia transforma o mundo da vida, o quotidiano, o cuidado de si e dos outros? Que formas de intersubjetividade virão da sua experiência social? Que futuros sensíveis e insensíveis serão produzidos a partir da sua experiência? Quais as formas do Estado e da política em épocas de pandeia? Que sensibilidades e “insensibilidades” se produzem? Quais as imagens possíveis para o Estado-protetor e para a necropolítica? Quais as lógicas argumentativas que justificam o Estado-mínimo, o Estado-responsável, o Estado, as escolhas políticas e econômicas e as políticas públicas? Que temporalidades projetam a existência, o medo, a morte, o afeto, a solidariedade em tempos de pandemia? Qual o papel das tecnologias informacionais e comunicacionais num mundo pandêmico? Quais os sentidos de proximidade, conexão e distanciamento que surgem numa sociedade de risco? Quais os efeitos da tecnologia sobre as formas de sociação, controle e circulação das identidades? Como fazer uma fenomenologia dessas experiências sociais?

26 abril 2020

Expulsar Bolsonaro é lutar pela vida, pela inteligência e pelo direito à solidariedade

O principal signo de que alguém é ignorante, burro, idiota e imbecil é o binarismo. A prática de reduzir o mundo a equações do tipo “ou... ou...” constitui a quintessência do sofismo e, ao mesmo tempo, da asnice pura. Essas coisas do tipo branco ou preto, doente ou saudável, nacional ou estrangeiro, mulher ou homem, dentro ou fora, falso ou verdadeiro, ciência ou ficção e até mesmo esquerda ou direita nunca deram conta de expressar a riqueza, a diversidade e a complexidade da vida social.
Por que estou dizendo isso? Só para dizer que o bolsonarismo é, fundamentalmente, binarista.
Essa conversa que tende a opor saúde pública a economia é ridícula e não deixa de ser impressionante como tem gente ainda cai nesse papinho. De jornalistas a economistas, de gente “séria” a gente “doida”. O fato é que o bolsonarismo produz falsos dilemas. Para fazê-lo, quando na falta de um polo opositor, inventa inimigos quiméricos: do marxismo ocidental ao deus-mercado.
Politizar binariamente essa epidemia serve apenas para manter mobilizada a horda bolsonarista, que só é capaz de raciocinar, minimamente, através de polarizações.
O vírus expõe perfeitamente as contradições do bolsonarismo. Para combatê-lo é preciso ciência e solidariedade, duas coisas que o ferem de morte. A ciência, porque nega o antiintelectualismo e o terraplanismo dessa horda. A solidariedade, porque nega seu princípio de exclusão, sua necropolítica e a necessidade de agir coletivamente para vencê-lo.
Ciência e solidariedade são duas coisas que não se acomodam ao binarismo.
Expulsar Bolsonaro é lutar pela vida, pela inteligência e pelo direito à solidariedade.
#ForaBolsonaro
Fábio Fonseca de Castro, professor da UFPA.