15 junho 2015

Sobre o V Congresso do PT: significantes sem significado


Pois é, mais do mesmo. Me uno ao coro dos descontentes com o V Congresso do PT. Passei parte do meu domingo lendo a “Carta de Salvador”, o documento resultante, e algumas análises feitas a respeito. Não tive acesso às resoluções. Para mim, a “Carta de Salvador” soa como música progressiva, que progride num crescendo sibilante e enjoado, ponto à ponto, sem variação de ritmo. Música chata.
Não sei onde ficaram aquelas análises de conjuntura, sérias e inteligentes, que o PT sabia fazer. O que mudou no capitalismo brasileiro, no padrão de acumulação de riquezas, durante o Governo Dilma? Qual o impacto desse conservadorismo canibalesco que tomou o Congresso e parte da sociedade sobre a organização social no país? Qual a estratégia possível para o combate a essa partidarização do judiciário e da Polícia Federal que estamos vendo? São perguntas quem, ao que me parece, nem se tentou responder.
Significantes e significados se embaralharam. Por um lado se diz: “a nova realidade impõe um desmonte progressivo do rentismo, um combate implacável aos saudosistas do neoliberalismo a fim de recuperar a soberania financeira do Estado”. Ótimo. Mas isso fica vazio quando não se diz o que se há de fazer em relação a tudo isso. E não se diz mesmo.
Pede-se paciência: aprova-se a política econômica do Governo, ignora-se a questão da mídia e não se toma uma posição, como esperado, em relação à interdição, no partido, do financiamento privado de campanha.
Embaralham-se significados com significantes, e já nada mais significa alguma coisa. Já não se podia falar de ruptura no PT: a proposta passou a ser de “transição” do neoliberalismo para “outro modelo”, mas agora já nem se pode falar em transição. O termo “significante” passou a ser “desmonte progressivo”. Do que? Do rentismo. Ora, senhores, do rentismo? E a luta de classes, onde ficou? E as reformas estruturais, onde ficaram?
Música progressiva. Pois é, música chata. E a crise de “significados” fica ainda mais braba com os efeitos retóricos, absolutamente ridículos, que abundam no documento. Coisas do tipo “É só querer e, amanhã, assim será!”. Gente, o que isso quer dizer? Quer o quê? Ora, já não se sabe que querer não basta? Me deu até vontade de escutar Carcará com a Maria Bethânia, para ver se um significado, mesmo que arcaico, se acomoda a essa ideia. Afinal o Carcará, sendo o bicho que é e que faz aquilo que (lembram?) faz, sabe mais que nenhum outro, que não basta querer.
Alguém me diz, “Ah, mas é preciso ter sensibilidade para com o momento”. Então... Bom, eu a tenho. Justamente. Todo apoio ao Governo Dilma. Toda solidariedade e toda indignação em relação ao golpismo e ao conservadorismo que assolam a nação. Porém, outra coisa é o partido. Penso que caberia ao PT a coragem de elaborar, neste momento, com transparência e discutindo com a sociedade, uma análise profunda e crítica dessa situação.
Entrementes... a opção foi pela mudez. E pela paralisia. A velha estratégia de fingir-de-morto para esperar que as forças históricas (sobrenaturais) coloquem no eixo a situação – bem como os significantes de significados exaustos.

02 junho 2015

Quebrando a ordem da cultura oficial: a ocupação do Solar da Beira, o grupo Proa e outros.


A ocupação do Solar da Beira por artistas, durante 19 dias, foi uma das coisas mais importantes, do ponto de vista da mobilização social – e, portanto, da política – que aconteceram em Belém nos últimos anos.
Pena que acabou. E pena que acabou desse modo: com uma ação judicial de “retomada” (sic) de posse amparada por uma ação policial. Não precisava de tanto. E esse “tanto”, que tanto pecou pelo excesso, apenas prova a inabilidade do poder público para realizar políticas sociais, em particular políticas culturais.
O prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, do PSDB, não precisava desses arroubos de autoritarismo: podia negociar, deixar a galera no Solar da Beira, fazer do limão uma limonada, como se diz. Mas a pulsão autoritária está no DNA do seu partido.
No que tange às políticas culturais, esse DNA é nítido. O Pará padece há cinco governos com a falta de gestão de cultura do Governo do PSDB. Com o mesmo secretário, com as mesmas figuras, com a mesma arrogância elitista que não aceita dialogar com a sociedade sobre política cultural, que não aceita democratizar e regulamentar o acesso aos recursos para a cultura e que não aceita qualquer forma cultural que não caiba na sua compreensão, reduzida e restritiva, do que é a cultura.
Nesse cenário, a ocupação, pacífica e ordenada, do Solar da Beira, foi um acontecimento da maior importância. Significativo enquanto mobilização e enquanto ação.
Da mesma maneira, é preciso reconhecer o movimento Proa, um grupo cultural, dentre tantos que há em Belém, que tem sua principal ação na articulação de artistas e produtores em torno de uma agenda de reivindicações no campo da política cultural, notadamente a implementação do sistema estadual de cultura.
Fui ao evento que o Proa organizou na Praça da República na sexta-feira passada em torno dessa agenda – com um show público delicioso de dona Onete, da Gina Lobrista e da Gangue do Eletro, dentre outros.
Apesar de achar que faltou uma perspectiva mais política no evento, algumas falas mais contundentes e, por exemplo, um panfleto esclarecendo a agenda de suas reivindicações, reconheço que é um começo – ou uma continuação, talvez.
Há dois anos tivemos uma forte mobilização, em torno dessa mesma agenda, com o movimento Chega!, que aglutinou centenas de artistas e intelectuais num protesto com várias ações públicas espalhadas ao longo várias semanas, em protesto ao autoritarismo da política cultura do PSDB.
São bons ventos, todos esses, mas a inflexibilidade e a insensibilidade do governo, no campo da cultura, costuma fechar as janelas aos bons ventos.
Por isso mesmo é preciso repetir todas essas ações. É preciso que o Pará entre na normalidade das políticas culturais. 
Um bom exemplo, que prefeitura de Belém e Governo do Estado deveriam seguir é o processo de construção da Política Nacional das Artes, puxada pela Funarte, que inicia no próximo dia 9 de junho, e que tem por objetivo reunir artistas dos diversos campos e linguagens artísticas em torno de um processo colaborativo, em plataformas digitais, de organização dos fundamentos dessa política.
Sim, é claro que, como todos sabemos, palavras como “colaborativo” e “reunir artistas” não são toleradas nos governos do PSDB. E daí a necessidade de reunir, agregar, debater as agendas da cultura e reivindicar, sim, que essas posturas autoritárias sejam revistas.

28 maio 2015

Sobre a greve mas universidades federais: a agenda da esquerda-útil


Iniciou hoje a greve, por tempo indeterminado, das universidades federais. As reivindicações são justas: reajusta linear de 27,3%, reestruturação da carreira e reversão dos cortes de 30% no orçamento da edução.
Eu mesmo a acompanho, pois compreendo que faço parte de uma categoria – os professores das universidades públicas – que, legitimamente, em assembleia, decidiu pela greve.
No entanto, não tenho como deixar de expressar minha opinião sobre essa greve: sou contra e penso que ela serve para atender à agenda da direita e da esquerda-útil, essa esquerda que, sem visão de conjuntura, se deixa levar por um pauta que, embora justa, constitui um instrumental despolitizado que favorece o golpismo e a crise institucional que, a termo, tende a reverter todas as conquistas que o ensino superior público alcançou durante os governos Lula e Dilma.
Acredito que esta greve está a serviço de um movimento oportunista de oposição ao Governo Federal e que, no contexto político que o país atravessa, acaba por favorecer a agenda golpista. Em última análise, à agenda dos tucanos, dos juízes do STF partidarizados e dessa parte podre do PMDB que, no controle da Câmara Federal, mercantiliza a política e avilta a democracia.
Esta greve é a greve da esquerda menor: da esquerda que se rebaixa ao quotidiano e sem visão histórica. A greve dos que fecham os ouvidos e os olhos. É a greve do oportunismo... de uns poucos. E da inocência... de muitos.
Aderir à greve é repetir a pauta da agenda golpista. No fundo, da agenda que, no seu esquecimento útil, perde de vistas o caos que foi, para o ensino superior público, o governo neoliberal do PSDB. Eu vivenciei esse período e me lembro. Não me custa lembrar. Era preciso que morressem, ou se aposentassem, três professores, para que se abrisse um concurso público. Não havia nenhum dinheiro para pesquisa. Nenhum. E não havia nenhuma possibilidade de expansão do ensino.
Olhem, eu tenho todas as razões do mundo para me decepcionar com a agenda política e econômica do Governo Federal: creio que o ajuste fiscal em curso é um retrocesso. Penso que o governo Dilma traiu o pensamento petista referente às políticas de cultura, comunicação e educação. Me sinto aviltado diante do abandono de projetos construídos e pactuados com a sociedade civil.
No entanto, apesar de todas as circunstâncias, tenho convicção de que retroceder, nas conquistas realizadas, significa rifar a universidade pública e, também, a democracia brasileira.
Lastimo profundamente que minha categoria aceite fazer esse jogo. Mas infelizmente constato, ao mesmo tempo, que ela está, apenas, sendo coerente com o absurdo despolitizado que sociedade brasileira experimenta neste momento.
Por tudo isso, me recuso a fazer uma “greve de ocupação”. Faço minha greve, dentro da greve. Os motivos dessa greve são menores. A ignorância impera. A pequenez absurdiza...
Mas... quem sabe, concretizada a agenda golpista que esta greve favorece, possamos, um dia, na força dessas palavras despolitizadas que a permitiram, nos reencontrarmos... reivindicando democracia... e investimentos em educação superior.