25 agosto 2020

Um velho projeto: uma plataforma com meus livros, artigos, textos e planos de curso em PDF



Em tempos pandêmicos, a vontade de estar e dividir tem crescido. Nisso, toquei uns projetos antigos:

1 – Fazer versões digitais, em e-pub e PDF, de meus livros « A Cidade Sebastiana » e « Entre o Mito e a Fronteira ».

2 – Publicar um livro de contos, « Apontamentos sobre a cidade imaginária de Belém”. Esse livro foi escrito 25 anos atrás para acalmar « A Cidade Sebastiana », da « inerência da sua ficção ».

3 – Disponibilizar ainda meu novo livro de pesquisa, « As Identificações Amazônicas », publicado pelo Naea.

4 – Fazer um site reunindo isso e muito mais: meus artigos científicos e de opinião, planos de curso, bibliografias, áudios, vídeos etc.

Isto dito, peço que visitem e ajudem a divulgar essa plataforma: www.fabiofonsecadecastro.org.

Meus livros e artigos em PDF estão lá ou entrarão lá logo mais, para quem quiser fazer download, gratuito e rápido.

O material em formato e-book estará no site da Amazon, com link no meu site, ao preço de R$ 15, com renda revertida para o querido Movimento República de Emaús, que precisa de nosso apoio.

O livro de contos chega em setembro.

« As Identificações Amazônicas » chega logo em seguida.

O site fabiofonsecadecastro.org tem outras coisas, na coerência possível do trabalho que a gente faz.

O momento é de partilha e cuidado com todxs, mas também de reflexão.

Grato por todo apoio na divulgação.

22 agosto 2020

Kamala Harris, com todas as habituais contradições que perfazem o jogo político

Fonte: Joey Weatherford USA TODAY Network

Observando o tratamento dado pela mídia à indicação de Kamala Harris como candidata a vice-presidente dos EUA, na chapa democrata liderada por Joe Biden, deu para perceber uma grande diferença editorial, apesar da quase unanimidade das opiniões compreendendo que, do ponto de vista eleitoral, foi uma boa escolha.

Não obstante, foi bastante diverso o tratamento editorial dado a essa notícia, mundo afora. As diferenças foram marcantes, entre os diversos veículos e certamente traduzem posições políticas de diferentes Estados em relação à política norte-americana na gestão Donald Trump. A mídia massiva canadense, que geralmente odeia Trump, elogiou enormemente a escolha de Harris. O The Globe and Mail, principal jornal do país em língua inglesa, editado em Ottawa mas que circula de costa a costa, chegou a dizer coisas como “Joe Biden para co-presidente” e que Harris, com seus 55 anos, é o futuro da América – diante de um Biden que, com 77 anos, provavelmente não se apresentaria para um segundo mandato.

Por sua vez, a mídia massiva francesa, do Le Figaro ao L'Humanité, lançou vários questionamentos sobre Kamala Harris, notadamente a respeito das contradições entre seu marketing pessoal progressista e a realidade das suas escolhas. A mesma temática frequentou o jornal italiano Corriere della Sera.

Nos Estados Unidos, todo espectro do jornalismo político norte-americano recuperou seu desempenho no debate de 26 de junho de 2019, quando Harris criticou a posição de Joe Biden sobre o 'busing', uma política dos anos 1970, ainda em vigor, por meio da qual o governo custeia o transporte escolar possibilitando que crianças de bairros diferentes sejam educadas na mesma escola, promovendo a integração social e racial.

Partindo das diferenças programáticas entre o pré-candidato Binden e a pré-candidata Harris, a mídia massiva norte-americana tendeu a considerar Harris como uma escolha “ponte”, sugerindo que ela produziria o diálogo entre o moderadíssimo Biden e a esquerda dos democratas. Quer dizer, com a esquerda democrata em diferentes níveis de entusiasmo, pois, se de um lado a comunidade negra do partido fez imenso lobby pela indicação de uma mulher negra para a vaga, outros próceres dessa esquerda, como Bernie Sanders e Elizabeth Warren, ofereceram apoio menos persistente.

Esse sutil confronto entre matizes políticas estiveram presentes, geralmente, nas análises dos comentaristas políticos americanos – que também exploraram em detalhes o percurso de Harris, ainda que sem o mesmo criticismo da imprensa francesa e italiana.

Harris foi procuradora distrital em São Francisco por seis anos e, em seguida, procuradora-geral da Califórnia, antes de sua eleição para o senado, em 2016, onde atuou em comitês importantes, como o de Orçamento, Segurança Interna e Judiciário e o de Inteligência.

Sua ação como promotora distrital de São Francisco foi conservadora e, talvez, marcada pelo desejo de exposição midiática. Ampliou as taxas de condenação por crime doloso e lutou contra a decisão da Suprema Corte de reduzir a população carcerária da Califórnia em 40 mil detentos com o argumento (bastante cínico, por sinal) de que sem os presos o estado perderia uma importante (barata) fonte de trabalho no combate aos incêndios florestais (cada detento ganhava US$ 2 por dia nessa ação).

Sua gestão como procuradora-geral foi considerada conservadora e antidemocrática. Por exemplo, quando fez aprovar uma lei que decretava prisão e multa de US$ 2 mil para os pais de crianças que faltavam às aulas.

Também há relatos de muitas perseguições políticas e de grande hostilidade em relação à população pobre do estado, apesar de seus esforços para criar uma persona pública progressista.

Um bom termômetro é sua posição em relação às propostas de Bernie Sanders – o democrata socialista mais à esquerda no espectro político convencional norte-americano. Por exemplo, ao repudiar a proposta de Sanders de encerrar o seguro saúde privado em favor de um sistema financiado pelo governo federal.

Outro indicativo ruim, negativo, é sua adesão à proposta de usar "as forças do mercado para acelerar a transição de combustíveis fósseis para energia mais limpa", que, na prática, sequer desacelera a exploração energética suja.

Por fim, cabe citar seu apoio a um salário mínimo federal de US$ 15 / hora, que representa um aumento tão insignificante que deixa os trabalhadores inelegíveis para programas de assistência pública, como vale-refeição, subsídio de moradia e Medicaid.

Para mim, resta mais evidente essa percepção, que ecoa, na verdade, tudo o que já li, soube, sei, a respeito da falsa dicotomia entre os partidos Democrata e Conservador e que me permite ter a seguinte compreensão a respeito de Kamala Harris: em síntese, Harris é uma populista midiática, que diz uma coisa mas faz e pensa outra. Restamos na demagogia, apesar da reivindicada posição de mulher negra e filha da imigração e apesar da efetiva significação política que significa sua indicação na composição da chapa presidencial democrata, com todas as habituais contradições que perfazem o jogo político.

19 agosto 2020

Prof Otacílio Amaral Filho (DocBio)

Reproduzo o vídeo produzido pelo Projeto Documentários Biográficos da Amazônia (DocBio), da Faculdade de Comunicação, em homenagem ao Prof Otacílio Amaral Filho, por ocasião da sua defesa de memorial acadêmico:

  

Palestras sobre os Amigos, n. 58: Otacílio e os afetos rolantes

Por ocasião da defesa de memorial acadêmico do prof Otacílio Amaral Filho na UFPA, publico mais esta "Palestra sobre os Amigos", em sua homenagem. O Tatá é um dos colegas mais éticos e sensíveis que conheci na minha vida acadêmica. Sempre aprendi muito com ele e sobre diferentes coisas: ser pesquisador, ser professor, ser cidadão, ser gente... e isso fora seus grandes temas, como a "marca Amazônia" e os "espetáculos culturais", dentre outros. Grande orgulho de ter a chance de trabalhar junto com ele. As "palestras", já expliquei antes, são pequenos textos que de homenagem aos meus amigos. A ironia discreta desses textos com o academicismo não conseguiria estar num lugar mais apropriado do que numa homenagem ao Otacílio - que sempre desconstruiu as pretenções por trás da ciuência. Uma oportunidade de lhe dizer OBRIGADO!


Palestras sobre os Amigos, n. 58.
Otacílio e os afetos rolantes
Senhoras e Senhores,
Meu amigo Otacílio A. F. possui a mesma desenvoltura de Simon Blackburn, professor de filosofia em Cambridge, na sua compreensão e esforço por democratizar, popularizar e desmistificar a Academia. Otacílio – e Blackburn – dentre muito poucos outros, efetivam seu compromisso com a acessibilidade ao saber. Por isso mesmo, trabalhar com Otacílio ao longo de toda a minha vida profissional – bem como com Blackburn, por uma tarde – enchem-me de orgulho e me fazem saber que estou no caminho certo, na construção de um saber autocrítico – virtude deles que procuro partilhar – e mesmo auto-irônico, pecado defeso aos dois nobres colegas mas do qual não consigo me libertar.
Foi lendo o sétimo capítulo do magnífico “Rulling Passions”, de Blackburn, que percebi, justamente, a grandeza do Otacílio. Isso porque, nesse texto, nosso cantabridgean thinker, buscando proceder uma investigação a respeito de nossa natureza enquanto seres deliberadores, argumentou em favor dos modelos “sentimentais” contra os modelos “racionais”.
Ora, ora, quem diria... Quem diria que um dia eu fosse ver, na academia, os fundamentos do agir moral serem abjugados pela moral, superior, de que somos seres eticamente imparcias... Que Kant, que nada! Recuperemos Hume!
Para Hume, o fundamento do nosso agir moral não é ditado por Deus e nem, muito menos, pela Razão, mas sim por nossa capacidade – e vontade, e predisposição, e determinação – de construirmos um ponto de vista comum. Essa é, precisamente, a argumentação de Blackburn naquele capítulo.
Ora... isso é Otacílio. Isso é a essência do pensamento otaciliano. Partir de Hume em direção a Otacílio significa percorrer o caminho comum que faz com que a humanidade reste a vicejar em nós. Significa, ainda, perceber que essa ridícula busca por um fundamento universal para a moral nada é, na história do pensamento ocidental, senão uma tentativa precária de evitar o relativismo ético a que posições como a de Hume, Blackburn e Otacílio conduzem.
Serei sempre grato aos aportes que a fenomenologia de Cambridge, desdenhosa e invulgar, me proporcionou, quando lá estive. Serei grato, igualmente, ao professor Blackburne, que me fez observar que a ética relativista supera Deus, a razão, a razão de Deus e, ainda, o deus-razão.
Por fim, serei eternamente grato a meu amigo Otacílio, que, atualizando Hume, pratica, com absoluta simplicidade, a ética do saber em comum.
Afinal outra não é a ética senão a ética de construir horizontes permissíveis. Outra ética não é ética senão a ética de fazer com o outro – horizonte por meio do qual podemos, e devemos, partilhar o evento raro da compreensão e nos esforçarmos por democratizar, popularizar e desmistificar as pretensões da Academia.
Fábio H-C.