28 dezembro 2018

Crônica de domingo 2: Natal de 75

1.
Vou logo dizendo que não houve, neste Natal, grandes aventuras. Longe da Quicê, estávamos seguros, pacíficos e tranquilos. A Quicê – embora sob protestos – fora liberada de nos acompanhar ao Rio de Janeiro, onde deveríamos passar Natal, ano-novo, dia de Reis e o verão sulista, e isto constituía um destacado elemento de alívio aos sentidos de minha mãe. 
Os dois últimos Natais foram excessivos para quem queria apenas paz e fraternidade – como minha mãe, coitada. No Natal de 1973 a Quicê, minha babá, fora vestida de Papai Noel e fora atacada pelo dobermann da casa, o Quinquin, ou Rolf do Capimtuba – de seu nome completo – que para além de destruir a Quicê destruiu, também, todos os presentes que ela carregava no seu saco de Papai Noel (não conhecem a história? Vejam-na aqui). E, no Natal seguinte, em 1974, a Quicê provocou o incêndio da grande árvore de Natal americana que meu pai trouxera da Zona Franca de Manaus, quase morrendo eletrocutada (Vejam aqui esse relato). 
Tratava-se de uma criatura afetiva, mas que tinha o dom de estragar as festas e de provocar colapsos de nervos em algumas pessoas.
Desgastada com a Quicê, minha mãe decidira que em 1975 passaríamos no Natal no Rio de Janeiro, onde morava a maior parte da família. E, ato contínuo, decidiu que a Quicê não iria. Para ela, tratava-se de um imenso alívio e, bom, embora sempre entusiasmados com a fabulosa Quicê, com seu esprit d’equipe, com sua bonne disposition, não deixávamos de compartilhar, com minha mãe, a sua sensação de merecida tranquilidade.
Ocorre que, embora deixada em Belém, a Quicê não saía de nós, de nossas mentes – e, malgré ma mère, de nossos corações. 
“Gostaria de ver a Quicê por aqui!”, disse meu pai, irônico, perscrutando a eventual presença da Quicê em meio ao “primeiro grito de carnaval” da banda de Ipanema, aonde nos metera, eventualmente considerando o efeito de contágio da alegria momesca sobre ela.
“Já pensaram a Quicê no bondinho?” A pergunta era propositiva, considerando, a um tempo, que o referido bondinho era o que elevava as criaturas ao morro da Urca e, de lá, ao Cristo redentor e  que, por outra lado, a Quicê tinha substancial pânico de altitudes.
Em tudo projetávamos a Quicê. Até mesmo no creme de leite de supermercado, de venda ainda difícil em Belém desse tempo e já desabusada no Rio de Janeiro, e que a Quicê adorava destemperadamente, a ponto que querer botar creme de leite, quando havia, até mesmo no seu pão.
Tão efetiva, forte e dramática era a sua figura que a sua ausência praticamente equivalia a uma sua presença. Mas digo-o para constar, porque havia outras coisas em jogo, naquela Natal de 1975, como logo se verá.

2.
Obliterando um pouco a Quicê, preciso referir que o natal de 75 foi experimental. Tratava-se de experimentar a possibilidade de irmos morar no Rio de Janeiro. Compreendo que eu mesmo estava no centro da questão, posto que ouvi secretos diálogos de meus pais a respeito do que essa possibilidade pesaria sobre minha existência. Bisbilhoteiro como sempre fui, perscrutei suas razões. Eram razões ambivalentes. Meu pai estava convicto de que, diante das mentalidades coloniais e autocoloniais que envolviam nossa província, estava tudo por estar perdido. Eram anos de ditadura, de “integração nacional”, essa bizarra coisa que nos impedia todo futuro e que frustrava meu pai em todas as suas  vivências... Minha mãe, por sua vez, restava fiel a certo esprit du temps, essencialista, certa de que a profundidade da sua província venceria:
“Não posso ver meu filho sendo criado nesta cidade, sem história, sem passado, sem religião, sem festa de São João, sem festa de São Marçal...” (minha mãe adorava a festa de São Marçal), “sem quermesse, sem Mosqueiro...”
“Filha, tudo isso está se perdendo...” dizia meu pai. “O mundo está mudando... Daqui há pouco não tem mais nada disso. Do jeito que as coisas estão, em dez anos seremos todos muito diferentes...”
Minha mãe se magoava. Não admitia tanta transformação. Desejava que eu fosse seu contemporâneo, partícipe da sua província feliz. Minha mãe protegia-me de um presente marcado pela perda e pela desidentidade, de um presente no qual se acelerava a integração da nossa distante província à sociedade nacional. 
Meu pai, por sua vez, desejava salvar-me: “Continuar em Belém é condenar toda possibilidade de futuro” – era essa a sua opinião.
Só que dizia que estava falando de mim, quando, a bem da verdade, hoje tudo medido, creio que estivesse falando de si próprio. Tivesse ele a coragem de dizer à minha mãe que era em si mesmo que estava pensando, e não exatamente em mim, creio que ela tivesse lhe dado todo apoio e que todos nós tivéssemos ido viver no Rio de Janeiro. 
Mas não houve, entre eles, esse entendimento. E, a meu pretexto, restamos em Belém.
Para constar, destaco que fui criado, como desejava minha mãe, com história, com passado, com religião, com festa de São João, com muita São Marçal – atando fogo em paneiro – com quermesse e com Mosqueiro.
Não obstante, no tempo de meu filho, nada disso ainda havia.
Em 1975 tudo, em meu pai, era frustração. E desejo de transcendência. E, por contraponto, em minha mãe, tudo era desejo de permanência e imanência. Como eles faziam dessas contradição a sua própria experiência de amor, comprova-se que o meu futuro era apenas um pretexto para a discussão das prospectivas, bem o percebo.

3.
Em anos de ditadura militar, era um Natal de muita melancolia. Relativamente conscientes de todo o mal que o regime militar fazia à nossa província, estávamos quietos, perpassados no lenga-lenga da comida-presentes-histórias, em nosso canto – e,nosso canto, no Rio de Janeiro, era o apartamento de meu avô em Copacabana, no prédio do Cabral 2000 – quando a campainha tocou.
Era o Aranha,
O Aranha era um amigo da família, muito doido, que deixara Belém havia uns 20 anos mas que sempre restara fiel a seu passado. E o Aranha foi logo gritando:
“Irão vocês rezar pela minha alma pecadora?”
No que ouvi minha avó Nida comentar,
“Antigamente o que bastava se dizer era feliz Natal!
Mas todos sabiam que o Aranha era dramático. Dramática e excitado. E o Aranha berrou:
“Não vim só! Espiem quem me acompanha:”
E abriu a porta, deixando aparecer uma criatura toda vestida de branco e muito sorridente.
Era o primo MacDowell.
A meu lado, minha avó cochichou: 
“Ao que me consta, roupas brancas quando se as usa é no dia 31. E quem me é, esse daí?”
Era o primo MacDowell. Ao menos um deles. Havia uns sessenta primos MacDowell no Rio de Janeiro, todos exilados do Pará, e minha avó Nida não os conhecia porque eram primos por parte de pai.
E o primo MacDowell foi logo berrando:
“Vão perdoar ou não os pecados do Aranha?”
Era a sua maneira de chegar nas casas.
Perdi um pouco o fio da meada, mas nas horas seguintes, desejando perceber quais teriam sido – acaso não eram ainda – os pecados do Aranha (jamais revelados), escutei umas boas histórias.
E como tenho excelente memória, pude acompanhar o dialogo entre meu pai, o primo MacDowell e o Aranha. Lembro que girava em torno, justamente, de virmos morar no Rio de Janeiro. Era o assunto do momento. 
Restava lembrar que meu pai e minha mãe, junto comigozinho aqui, residíramos durante um ano naquele mesmo apartamento, em 1972. Desse tempo, algumas boas lembranças restavam, sobretudo para o Aranha e para o primo MacDowell, ao que me parecia. Ainda que eu próprio não tivesse nenhuma memória desse tempo, tratava-se de uma época alegre, para esse convivas. Que desejavam repeti-la.
O que contrariava minha mãe. 
Minha mãe até gostava do Rio de Janeiro, mas lamentava a não existência, nessa cidade, de boas histórias, de bons passados, religião, festa de São João e São Marçal, quermesse e Mosqueiro.

4.
Foi quando o telefone tocou. Telefonema a cobrar.
Era a Quicé.
Chorando.
Estava sentindo saudades de todos nós.
Minha mãe ouviu-a por longos quinze minutos ao telefone.
Desligou e ficou pensativa por uns instantes. Não sei o que lhe disse a boa Quicé, mas acredito ter sido algo infinitamente importante, pois minha mãe, em seguida, muito resoluta, se dirigiu até a mesa aonde festejavam o Natal meu pai, o Aranha e o primo MacDowell e tomou deles a garrafa do bom whisky que partilhavam para servir-se a si mesma de uma dose e anunciou a todos, estragando talvez o Natal de uns,
“Ficaremos em Belém!” 
Minha mãe decidiu-se, em definitivo, a não vir habitar a mui leal cidade... penso que mudando de vez o meu destino.
Em relação à Quicé, cabe dizer que em nosso retorno a Belém fui rebeijado por ela ao infinito.
Em relação ao primo MacDowell, cabe ressaltar que ele se vestia de vermelho na noite de São Silvestre.
Em relação aos pecados do Aranha, cabe informar que eles ficaram obscuros para toda a eternidade. Nunca me dei ao trabalho de ponderar a seu respeito, considerando que quem revela que os tem já perdoado se consente deles. E deixei-os passar.

Crônicas de domingo 1 - O GUARDADOR DE REBANHOS

Crônicas de domingo 1
O GUARDADOR DE REBANHOS
Era crença, em casa de meus bisavós, que minhas tias-avós não se casaram em função da escrupulosa vigília moral que meu pai, desde os cinco anos de sua idade, lhes infligia. Era recomendação da minha bisa, a sua avó Dica,
“Luiz, fica de olho, se algum pelintra se atirar demais tu me avisas”,
E lá ficava meu pai a vigiar as tias, envaidecido da sua responsabilidade, enquanto a bisa Dica ia cuidar das suas tarefas na casa.
A primeira guarda era a da janela. Havia o grande janelão em forma de ferradura que acomodava facilmente as quatro moças – mais a Elvira, de contrapeso –, ladeada por duas janelitas ogivais, numa das quais o meu pai se posicionava, tal como os destemidos vigilantes de almeias magras do tempo de Ivanhoé. 
Por lá passavam os pretendentes, em geral à meiga luz das horas vespertinas. Passavam, iam até a esquina, retornavam, cumprimentavam com discretos acenos de chapéu ou, eventualmente, com sorrisos e até mesmo, no caso de não terem sido razoavelmente educados, com olharezinhos maliciosos.
E meu pai tomava notas. Notas verbais, que ainda não sabia escrever. Notas de tudo. E com pontos de exclamação!
“A Dinda suspirou quando o sujeito passou na calçada pela segunda vez!”, narrava para a bisa Dica, balançando a cabeça, assertivo de seu bom juízo.
Sim, o rebanho das manas de seu pai estava sob seu controle e ele se fazia o preclaro juiz da virtude familiar.
E fora isso tinha a segunda guarda, a dos pretendentes já declarados, aquando eram permitidos à sala de visitas.
“Luiz, repara bem, qualquer coisa me chama, viste?”
Nessas ocasiões o pretendente e uma de minhas tias-avó dividiam o mesmo sofá, embora com ao menos dois palmos de intervalos entre os corpos – intervalo esse que meu pai aferia escrupulosamente. E meu pai tomava assento bem à frente deles, os olhos que nem piscavam, a testa franzida, com ares de pastor alemão.
E, a qualquer deslize de uma das partes, meu pai berrava:
“Avóoo”
E era coisa de um segundo para a bisa Dica aparecer, 
“O que há?”
“Ele sussurou-lhe alguma coisa que não ouvi!”
E a bisa Dica: “Nesta casa se fala alto e claro, que não tem espaço para segredos em uma família decente, estamos entendidos? Porque se for assim, começamos muito mal!”
O pretendente se encolhia, envergonhado da bronca. Mas passados quinze minutos já novamente se aventurava.
E meu pai não dava trégua:
“Avóoo”
E voltava a bisa, já impaciente:
“O que foi desta vez?”
“Este homem tentou tocar na mão da minha tia!”
E a bisa Dica fustigava o infeliz com um olhar devastador. Ele, porém, ainda tentava argumenta a seu favor evocando a inocência do espião,
“Não foi bem isso, dona Dica, o menino não viu direito...”
“Ah! O senhor está insinuando que meu neto está mentindo?”
O pobre noivo, quase se mijando de vergonha, estando já por desistir...
E meu pai triunfando, lá consigo pensando, 
“Esse aí se julga mais esperto do que eu, coitado!”
Isto quando não era o caso – o que com freqüência acontecia – de tentarem subornar meu pai com uma moeda reluzente,
“Menino, tu não queres correr lá na esquina para comprar umas paciências? Vais e voltas num pulo!”
Mas quando, que meu pai era mais do que escolado. Aceitava a moeda e dizia ao pobre,
“Muito obrigado pela gentileza. Irei sim, mas quando tu fores embora!”
E o velhaco ainda tentava persuadir meu pai,
“Achava melhor se tu fosses logo, porque depois pode não ter mais paciências. As que se vendem lá são tão boas que logo são vendidas, acabam num minutinho!”
Meu pai pausava um momento, produzindo no velhaco a impressão de que estava a refletir e a se deixar convencer pelos argumentos interpostos. Mas o fazia apenas para criar uma expectativa no pobre casal, porque logo berrava:
“Avóoo!”
E lá se vinha dona Dica, já cansada, tanto do noivado impertinente como do excesso de zelo do guardador de seu rebanho,
“O que foi, desta vez?”
E meu pai lhe mostrava a moeda polida, brilhando à contraluz, enquanto passava o relatório:
“Este milionário tentou me subornar, avó!”
De fato, era demais para minha bisavó.
“O senhor não tem vergonha? Onde já se viu? Meu marido será informado do ocorrido, o senhor pode ter certeza. Olivia, já para dentro!”
O noivo se encolhia, se punha a suar frio, agora sim a um pico de se urinar de medo, descoberto num ato vil.
“E o senhor, rua! A porta de saída é a sua serventia nesta casa!”
Meu escrupuloso pai sorria, todo satisfeito, e se calhasse ainda ganhava uma outra moeda reluzente dos bolsos de minha bisavó.
No resto da tarde ouvia-se o choro soluçado de minha tia-avó, mas meu pai era sempre perdoado, e as tias até se riam dele. Mas contavam que era por sua causa que não se casaram e que a tia Odila até virou freira.
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