09 abril 2014

Diários de Montreal 45: Política e identidade

O resultado das eleições aqui no Quebec foram dramáticos para Partido Quebecois, o PQ. Sua derrota foi épica.
Começa um longo inverno para o PQ e, consequentemente, para o ideal soberanista do Quebec. Nas eleições de ontem o PQ foi submetido a uma derrota fragorosa pelo Partido Liberal do Quebec (PQL), que recebeu 41,5% dos votos e fez 70 das 153 cadeiras do Parlamento e que, assim, formará um governo majoritário com seu líder, o novo primeiro ministro Pierre Couillard. O PQ recebeu 26% dos votos e fez 30 eleitos. Igualmente ruim para o PQ foi a votação obtida por um outro partido, a Coalition Avenir Quebec (CAQ), de centro-direita, tal como o PQL, que recebeu 23,34% dos votos e fez 22 cadeiras. Essa votação alentada tira um pouco o PQ da sua posição clássica de oposição e complica ainda mais sua situação.
E não foi a única derrota do PQ. Também simbólico foi o fato da primeira-ministra, a líder do partido, Pauline Marois, não conseguir se reeleger na sua própria circunscrição, perdendo-a para os liberais.
O PQ perdeu porque perdeu sua identidade. E identidade, em política, é tudo. Tenho dito isso aqui no blog de diversas maneiras. E o exemplo que estou acompanhando aqui é dos mais interessantes.
Durante 40 anos o partido foi definido por meio de duas palavras: soberania e social-democracia. Soberanismo significa a condução do Quebec à secessão do Canadá. Neste governo ele dissimulou seu soberanismo e, quanto à social-democracia... bom, é difícil falar nisso em meio a uma crise de empregos.
A dissimulação do soberanismo se deu de duas maneiras: evitou falar em plebiscito pela secessão, de um lado, e, de outro, substituiu a histórica defesa da língua francesa por um novo combate: a defesa de um “Carta dos Valores” um projeto de lei que interditaria o uso de símbolos religiosos em órgãos públicos. Projeto politicamente problemático, porque interditar o uso de véus, da cruz e de outros símbolos afasta do PQ o voto de numerosas populações de imigrantes.
Na prática, essa “Carta dos Valores” é um projeto conservador, que tem o efeito de dizer aos imigrantes que o Quebec não pertence a eles, e sim aos francófonos. É um projeto excludente, que fere a alma do velho PQ, em seus fundamento socialista, democrata e favorável à imigração.
Por tudo isso, o PQ perdeu sua identidade. Se confrontou com suas contradições.
Os liberais souberam explorar muito bem essa deriva identitária e conseguiram transformar estas eleições num referendum sobre a opção soberanista. Soube construir a questão: vocês querem um novo referendum e a possibilidade de um Quebec independente e excludente? Votem no PQ... 
O fato é que o apetite soberanista enfraqueceu, de 1995, a data do último plebiscito sobre a independência, para cá. A campanha liberal foi hábil em sugerir que um governo majoritário para o PQ significaria um novo plebiscito sobre a autônoma. As novas gerações não imaginam essa possibilidade.
O governo do PQ durou apenas 18 meses. Antes, houve 9 anos de governos liberais, açodados por uma corrupção sistêmica que acabou, por fim, por derrubá-los
O resto do Canada deve estar pensando, agora, que o Quebec se resigna em ser apenas uma província. Talvez um pouco mais folclórica, mas, de resto, apenas outra província.


08 abril 2014

O Pará está perdido na violência, e o governo Jatene não está menos

Se o Pará está perdido nessa onda de violência - 53 mortes violentas (latrocínicios e homicídios) em apenas 5 dias, com a prisão de apenas 2 suspeitos - o Governo Jatene não está menos.

Perdido politicamente. Conceder um aumento salarial de mais de 100% a oficiais da PM e dos Bombeiros e nenhum reajuste às categorias inferiores é uma mancada política que não se explica.

E assistir de braços cruzados à paralizacão das corporações, recusando-se a todo diálogo parece uma insanidade.

Por fim, chamar o motim iniciado de "oportunismo eleitoral" é um total contrasenso, uma bobagem que só faz piorar as coisas.

Ao que tudo indica, o governo já acabou. Não consegue fazer, não consegue dialogar, não consegue dizer. Não tem argumentos, não tem leitura de fatos e não tem respostas.

Vamos acompanhando esses acontecimentos perplexos. E com medo, é claro, porque a inoperância do PSDB estea transformando o Pará no caos.

07 abril 2014

Diários de Montreal 44: Eleições

Hoje é um dia especial aqui no Quebec: dia de eleições. Eleições provinciais. Ano passado acompanhei intensamente as eleições municipais da província e aprendi enormemente. Agora chequei a poucos dias de uma nova disputa e posso dizer que, outra vez, estou aprendendo muito. Como já mencionei, o sistema político é completamente diferente do Brasil. Tanto pela forma parlamentarista como pelo sistema federativo.
Estão em disputa quatro candidaturas principais:
- O Parti Quebecois, da atual primeira-ministra, Pauline Maurois. Partido de centro-esquerda, social-democrata, nacionalista do Quebec, soberanista, historicamente procura construir a independância do Quebec.
- O Parti Libéral du Québec, do bufão da vez, Philippe Couillard. O partido é de centro-direita, liberalista radical, federalista, nacionalista canadense e contra a independência do Quebec.
- A Coalition Avenir Québec, de François Legault. Partido de centro-direita, namora o liberalismo, identitarista, prega a radicalização do federalismo e cogita a independância do Quebec.
- O Québec Solidaire, de Françoisa David. Partido de extrema esquerda, socialista, anti-capitalista. E favorável à soberania do Quebec e comprometido com as causas da alter-mundializacão, da ecologia e da dignidade humana em geral.
O processo eleitoral foi deflagrado no dia 5 de março passado. Ritualmente, o lieutenant do Governador Geral, a pedido da primeira-ministra Pauline Maurois, dissolveu as Assembleia e convocou eleições. A intensão da 1a-ministra era ampliar sua vantagem na Assembleia. Desde setembro de 2012 ela governa com um governo minoritário. Acreditando na oportunidade do momento, dissolveu a Assembleia e convocou novas eleições apenas 18 meses após o início do seu governo.
É preciso entender que o PQ governava sem maioria na Assembleia, o que torna incrivelmente difícil a concretização do seu programa. A Assembleia Nacional do Quebec possui 125 cadeiras. Para formar um governo majoritário são necessárias 63 cadeiras.
Em geral, a população sabe que um governo minoritário significa dificuldades e eventuais crises políticas, então há uma tendência de que as pessoas votem de maneira a possibilitar a formação de um governo majoritário.
Durante toda a história do Quebec houve apenas três governos minoritários: um em 1878 e os dois outros na última década, em 2007 e em 2012. Dois governos minoritários tão próximos indicam uma reestruturação da vida política.
Em parte porque o PQ perdeu a força histórica que tinha e se distanciou um pouco dos seus compromissos om a esquerda. Em parte porque foram revelados os milionários esquemas de corrupção dos governos liberais.
Foi acreditando poder obter a maioria das cadeiras para formar seu governo majoritário que a atual 1a ministra dissolveu a Assembleia. Mas, voilà, as coisas não foram tão fáceis. Várias pequenas mancadas do Parti Quebecois elevaram a popularidade do canastrão liberal (todos os liberais, na minha opinião são canastrões: o liberalismo é, essencialmente, uma canastrice, e a postura política do candidato, aqui, o comprova) a uma condição dominante.
O PQ caiu, em um mês, de 36% para 27% das intenções de voto. Os liberais passaram de 34% para 39%. E, por fim, houve o crescimento da Coalition Avenir Québec, bloco de centro-direita que traz receitas de austeridade econômica para possibilitar a criação de empregos, que passou de 17% para 25% nas intenções de voto. O Québec solidaire permanece com uma margem de 7%.

A votação segue até as 20h de hoje. A cidade está andando no ritmo lento que caracteriza as eleições daqui. Os temas centrais dos debates são a geração de empregos e a questão identitária – especificamente a posição dos candidatos em relação à “Carta de Valores” proposta pelo PQ – mas também se fala muito sobre as “super-enfermeiras” (depois eu conto) e sobre o transporte público.