27 dezembro 2019

Palestras sobre os Amigos, n. 55: Marise e o dever-ser de se conhecer a si mesmo

Senhoras e Senhores,
A língua francesa se me presta para a filosofia e é por meio dela que algumas perguntas me vêm, sonolentas, quando nem mesmo estou esperando. Uma dessas perguntas me veio, certa vez, imediatamente após uma conversação, sempre instigante, sempre plena de potenciais filosóficos, com minha amiga Marise R. M. E foi a seguinte: Est-ce un devoir que d'être soi-même?
A qual traduziria assim: Temos o dever, de fato, de sermos quem somos?
Imperioso é não confundir essa questão com o Γνῶθι σεαυτόν, Gnothi seauton – Conhece-te a ti mesmo, também sabido como nosce te ipsum, em latim – tão cara ao mundo antigo, pois não se trata de conhecer quem verdadeiramente quem se é, se é que se é verdadeiramente alguma coisa, ou mesmo alguém, mas sim de se ter o dever de ser quem se é, após tê-lo descoberto.
Todas as vezes que converso com a querida Marise minha mente fervilha de ideias, mas sobretudo de perguntas, em geral desprovidas de coetâneas respostas.
Na verdade, imaginei a seguinte cena: Chega um cidadão ao templo de Delphi. Tal cidadão perfez o desgastante caminho das Fócidas até o referido santuário, aos pés do monte Parnasso. Fê-lo em busca de autoconhecimento, posto de Delphi é um templo sagrado ao qual se busca quando não se é – nem nada, nem alguém e nem nenhuma coisa. Ao qual se busca quando não se sabe de si. Antes de entrar no templo, o referido cidadão percebe a imensa frase sorrateiramente pintada num muro próximo: Γνῶθι σεαυτόν. Isso encimesma-o. É o que veio fazer ali. E o faz: adentra no templo e se posiciona em frente à Pítia, ou Pitonisa, a sacerdotisa, que responde às suas questões, em nome do deus Apolo, com berros e gemidos lancinantes.
Sendo suposto ter compreendido o que lhe disse a Pítia, o cidadão segue em direção ao Ômphalos, o betilo sagrado suposto ser o “umbigo do mundo” e faz umaprece a Apolo, agradecendo pela resposta dada através da Pítia. No retorno, passa novamente em frente à famosíssima frase pixada no muro, o Γνῶθι σεαυτόν.
Interponho-me. Penso que já é demais. Ao nível de experiências místicas já estamos indo demasiado longe. Supondo que o pobre cidadão tenha compreendido o que a maluca da Pitonisa lhe falou, imagino a responsabilidade interposta a ele ao dever agradecer ao deus Apolo – logo a quem! – pela resposta.
Agradecer é aceitar. Não se agradece de má fé a um deus, sobretudo quando é Apolo – e diante do umbigo do mundo.
(Umbigo, percebam, rogo: símbolo de identidade, de vínculo, de essência).
Ao entrar e ao sair do tempo, aquela frase rebarbativa e quase impossível de efetivar: conhece-te a ti mesmo.
Calculo ser demasiado para a conta de um pobre mortal.
E a conta de todo mortal é dever ser alguma coisa estando destinado a morrer...
E é dessa constatação, surgida em uma de minhas conversas com Marise, que compreendi que, depois da impossível missão de conhecer-se a si mesmo é que surge esse problema moral maior que é a questão que, eventualmente, o cidadão que descobriu quem verdadeiramente éem Delphi, poderá se por, acaso seja inconveniente a sua descoberta: E depois? E depois de se saber quem se é, é moralmente imposto ser coerente com quem se é? Est-ce un devoir que d'être soi-même?
Poderia recorrer ao Cármida, de Platão; a Heráclito de Éfeso e até ao Aristóteles de Περὶ φιλοσοφίας ou a Porfírio de Tyro, com seu Tratado sobre o Conhecer-se a si mesmo. Poderia, igualmente, refletir com Diógenes Laércio, que aforma de Thales foi quem pixou a famosa frase nos muros de Delphi ou seguir as investigações de Antisthenes a respeito do Kílon. Poderia, cansao, retornar a Platão e reler o Filebo, ruminando o diálogo entre Sócrates e Protarco e, daí, pular para o Primeiro Alcebíades,com suaspungentes provocações. E, afinal, nada disso solucionaria o dilema posto, porque o mundo helênico não se atém aoproblema do problema – apenas aoproblema.
A questão é que a Marise sempre me faz pensar no problema do problema.
No problema que surge de todo problema.
E o problema é que ser quem se é nos é apresentado, em nossa cultura, em nossa grande cultura ocidental, como um imperativo. Quando não o é. E isso se dá porque a hiprocrisia não é primeiro dos grandes vícios na mesma medida em que a sincerida não é a primeira das grandes virtudes.
O que observo é que nem todos, na infame vida social que partilhamos, conseguem ser quem são e que o ato de não ser não incorre em dever moral com o mundo. A consciência de si não constitui, aprioristicamente, uma identificação entre sujeito e o objeto do sujeito, mesmo que esse objeto seja o objeto de ser sujeito.
E, pensando nisso, me divirto imaginando a Marise em visita ao oráculo de Delphi. Esgotada da caminhada sinuosa pelas Fócidas, adentra no templo e coloca à Pítia a sua questão. A Pítia se contorce – como sempre – e emite ganidos palatais e, em seguida, constructos lábio-guturais. E depois arregala os olhos, contorce-se mais ainda, bota a mão sobre o fogo, sacode-se e passa, à Marise, a mensagem que Apolo há de ter para ela.
“Sim, minha filha”, lhe diz Marise, “e daí?, e depois?”
A pitonisa cala-se.
Marise sai do templo indignada. Ignora o umbigo do mundo. Lê a inscrição sagrada no muro com descrença e toma o caminho de volta para casa.
“Eu hein!”, reflete.
“Pensei que isso daqui fosse sério!”

24 dezembro 2019

Palestras sobre os Amigos, n. 52: Biá e a recusa de Ulysses

Há 20 anos atrás eu usava presentear meus amigos, no Natal, com "palestras", que escrevia a respeito deles. Era presente de coração, feito com uma das (raras) coisas que sei fazer razoavelmente: escrever. Agora, em 2019, decidi retomar o velho costume, acreditando que, nestes tempos em que tudo ameaça a boa-fé, a sinceridade e a amizade, precisamos declarar, cada vez mais, nossa devoção à amizade e nossa alegria de viver-juntos, de estar, de estar-no-mundo-com-os-outros. São textos de agradecimento, aos meus amigos, por serem que são e por estarem ali.
Segue, então, a série Palestras sobre os Amigos. Neste episódio, a Palestra número 52, sobre a Biá:
Biá e a recusa de Ulysses
Senhores a senhores,
A clássica figura de minha vizinha e amiga Maria Beatriz M. F., a Biá, constitui, em meu imaginário, a exegese perfeita da recusa de Ulysses, tema estrutural dos estudos clássicos.
Por tal “recusa de Ulysses” se entende a maneira como Ulysses recusou-se, determinado, a viver no seu próprio presente. Por sua exegese, compreende-se crítica a esse comportamento, que a alguns pareceria infantil e que, à Biá, certamente, pareceria mentecapta.
Partamos da recusa, para chegar à exegese.
O navegador Ulysses, em toda a Odysseia, nunca habita seu tempo presente. Ele vive sempre na saudade de Ítaca ou na esperança de para lá retornar. Trata-se da suspensão da temporalidade estrutural de todos os navegadores – sejam os navegadores de fato, sejam os que navegam na própria vida.
Ítaca conforma-se não como um lugar, mas sim como um antes-lugar ou um depois-lugar. Nela, tem-se duas contra-temporalidades, duas grandes ficções: o passado e o futuro. Ambas impedem-nos de habitar a verdadeira e única dimensão do tempo que nos é possível, o presente.
Bem sabemos que agrassar o passado ou esperar o futuro constituem ilusões vãs, próprias de historiadores sem consciência histórica, de escritores sem controle das próprias tramas e de museólogos que não leram romances russos.
Por isso mesmo que a autocrítica do passado e a ironia quanto ao futuro constituíram a base do projeto educacional do Mouseîon – do grego museion, templo das musas – situado no bairro real, o Basiléion, de Alexandria, no Egito helenista e ptolomaico que foi, durante mais de cinco séculos o melhor lugar do mundo para educar os jovens e torna-los “sábios” – bem entendido que “sábio” é palavra em desuetude que, em seu passado, serviu para designar os indivíduos que haviam perdido o medo.
O grande medo. Dividido em suas formas clássicas: o medo da morte, as fobias da vida e a timidez. No Mouseîon de Alexandria o ciclo básico dos estudos durava três anos: No primeiro, combatia-se a timidez. No segundo, exterminava-se com as próprias fobias e, no terceiro, enfrentava-se, com decisão, o medo de morrer. O discente que lograva perfazer esse ciclo, cheio de provações, era declarado apto a iniciar o caminho para tornar-se “sábio”.
Lição a aprender: a finalidade da vida humana não consiste em evitar ou dissipar a própria morte – ou seja, em continuar presente – mas, sim, em aceitar a vida como ela é, efetivamente participando de seu presente.
Isto havendo sido dito, conclamo que percebam que a querida Biá, foi, em alguma de suas pregressas existências, com toda a evidência, aluna no Museîon de Alexandria. E não apenas isso: que perfez todo o ciclo básico de estudos dessa renomada instituição, havendo sido conclamada a tornar-se sábia.
Digo-o porque a Biá lida com o passado e com o futuro e não se afeta por eles. Ela nunca habita profeticamente um dado passado com o qual lide e nem idealiza um futuro desmedusado. Passado e futuro, nas mãos da Biá, são como óculos de grau maior para ver o presente. A Biá não nem receia o futuro e nem se torna refém do passado – é contramestre deles, rompendo com a recusa de Ulysses e com seu o seu paradoxo.
Sabem, confesso que gostaria de chamar Ulysses a um canto e fazê-lo ouvir uns conselhos da Biá.
Suponho que a Odysseia teria sido, nesse caso, mais feliz. Tal como toda a aventura humana que dela parte.
Fábio H-C.

14 dezembro 2019

The Londonian Diaries 18: Caminhando por Islington, red quarters


Escrevi ontem sobre as eleições britânicas. Acrescento uma observação curiosa: o líder trabalhista Jeremy Corbyn foi reeleito, pelo distrito londrino de Islington, historicamente o núcleo geográfico do trabalhismo inglês, onde (é esta a observação curiosa) Boris Johnson morou durante algum tempo.

Isto dito, recupero uma pequena anotação das minhas "The Londonian Chronicles", as notas que tomei durante o tempo em que morei por essa cidade e em Cambridge.



The Londonian Diaries 18: 
Caminhando por Islignton, red quarters

Hoje visitei Islington, um dos 32 boroughs de Londres e um dos corações da cidade. O bairro tem, atualmente, uma população de cerca de 215 mil pessoas e uma histórica reputação esquerdista. É pequeno e estreito, mas abriga duas constituenciesou seja, distritos eleitorais do Parlamento Britânico: Islington Norte, cadeira ocupada pelo próprio líder trabahista Jeremy Corbin e Islington Sul, cadeira igualmente trabalhista.

Tem um papel histórico na luta socialista internacional. Foi em Islington, em 1381, que teve lugar a rebelião popular contra os impostos de Ricardo II. Foi também lá que que, em 1791, Thomas Paine escreveu "Os Direitos do Homem" - clássico mal e pouco lido mas que resta uma pedra basilar na noção de direitos civis. E foi também em Islington que Lenin e Trotsky viveram e se reuniram, diariamente, para construir a revolução na Rússia. Stalin também viveu em Islington, que, como se vê, se tornou a pátria de exílio dos revolucionários russos. 

Não por acaso é que foi numa igreja de Islington, na Southgate Road, que se realizou o V Congresso do Partido Social-Democrata da Rússia, o antecessor do Partido Comunista - esse congresso mítico, no qual a supremacia do bolcheviques, os socialistas radicais, foi construída sobre o anterior predomínio dos moderados socialistas mencheviques.


Em minha caminhada por Islington tenho um destino certo, a Marx Memorial Library, que é a biblioteca pública desse bairro. Quero conhecê-la e, também, ver um quadro famoso (o da imagem no começo desta crônica), um mural pintado por Francis Hastings, 16o conde de Huntingdon, o "conde vermelho".

Sim, não tem como não contar essa história. Francis Hastings nasceu em 1901 e morreu em 1990. Descendia do 1o Conde d'Eu, um dos nobres que invadiram a Inglaterra junto com Guilherme, le conquerant. Nobre de parte inteira, tornou-se, no entanto, socialista. E trabalhista.


 Para desgosto da família, ingressou no Labour e foi deputado e ministro da Agricultura e Pesca no governo de Clement Attlee. Mas, sobretudo, foi pintor. E aluno de Diogo Rivera, o grande pintor e lider socialista mexicano, marido de Frida Khalo. O "conde vermelho" escandalizou longamente a nobreza britânica. E deixou uma obra imensa, que tem nesse mural, que reproduzo na imagem acima, um de seus momentos maiores.


Mahatma Gandhi também viveu em Islington, enquanto estudava na Inns of Court School of Law, bem como Tony Balir, primeiro-ministro trabalhista e Salman Rudshie, o escritor. E, além disso, Islington abriga a sede histórica da Salvation Army, essa instituição caritativa que atua de forma globalizada, ajudando muita gente por todo o planeta e foi lá que, em 1784, a escritora e feminista (uma das primeiras feministas), Mary Wollstonecraft, estabeleceu a sua escola para moças liberais, na rua Newington Green.



Mas para além dessa tradição vermelha, o bairro tem outras glórias, mais contemporâneas. Para começar, é a sede do Arsenal - o time de foot - e de seu imenso estádio, um dos maiores do país, o Emirates. E abriga, também, o Almeida Theatre, uma pequena sala, com cerca de 300 lugares, mas com imensa reputação. O Almeida é conhecido por "exportar" suas peças para os grandes teatros do West End. Na verdade, esse teatro integra um conjunto cultural construído em 1837, a Islington Literary and Scientific Society, que incluia um laboratório científico, um museu e uma biblioteca com 500 lugares. Esse conjunto foi aequirido no final do século XIX pela Salvation Army, que o transformou em seu quartel general, denominando-o The Wellignton Castle Barracks em 1902. Assim funcionou até 1955, quando foi transformado numa fábrica. Anos mais tarde, abandonado e prestes a ser demolido, foi salvo por uma campanha popular e acabou sendo classificado na lista dos monumentos nacionais, o English Heritage, em 1972. O teatro surgiu em 1980, ganhando imediata reputação.

Deve-se referir, também, a City University of London, fundada em 1894 como Northampton Institute e que se tomou esse nome em 1966. Sua grande reputação, no entanto, vem da integração, nela, da The Inns of Court School of Law, tradicional escola de direitol, criada em 1852 e fundida à City em 2001. Sim, e famosa, ainda, por seu departamento de Jornalismo.


Sigo caminhando e, no meio do caminho do meu passeio por Islington encontro o Saint-John's Gate, construção remanescente de um monastério do século XVI, chamado Clerkenwell, do priorado de mesmo nome, sede da ordem monástica dos Cavaleiros de São João, os conhecidos Cavaleiros Hospitaleiros, fundada no século XIIde que meu avô José, fascinado por essas lutas medievais, me contara, no passado, algumas histórias.



Evidentemente que o que sobrou, nesse portão, é uma recrição vitoriana - essa desgraça estilística que achou por bem reescrever a história da Ingkaterra, enfeiando o país de norte a sul, no século XII. Mas, enfim, não tendo muito o que fazer, me contento com as referências.


Termino a jornada encontrando com a Marina no The Hen and Chickens, um pub que abriga, no seu segundo andar, o The Hen and Chikens Theatre, minúscula sala de espetáculos igualmente bem reputada e da qual me contam histórias que, bem, estou cansado para repetir aqui. Two Guiness, a kiss and nothing else.


o sea