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Mostrando postagens com o rótulo Cartas de Lisboa

Cristão e cético. Cartas de Lisboa.

Nas Carta de Lisboa desta semana: Cristão e cético Um católico estupefacto, como eu, tende a perceber os Papas como poderosas assombrações que surgem de livros do passado, tal qual oThesouro da Juventude e o Manual do Cathecismo Cristão para Meninos. Continua lá .

Cartas de Lisboa 6: Dia de São Martinho

D ia de São Martinho Felipe Horácio-Castro   Minha primeira esposa tinha a magestade tranqüila dos carnívoros indiferentes. Não amava-me. Casou-se porque eu muito insisti que queria e que queria. Acho que por pena. Triste, não? De qualquer forma, o casamento foi breve, graças a Deus. Num acesso de cansaço e torpor apanhei duas camisas, meus três volumes das obras completas de Machado de Assis, meus quatro Dalcídios, já enrabiscados, coitados, e fugi de casa. Ela não entendeu nada e nem eu consegui explicar. Dirigi até Cintra e me escondi numa espelunca como se a polícia fosse aparecer para me pegar. Depois, como num filme de espionagem, vendi meu carro por uma bagatela e peguei o primeiro avião para Madri, onde vivi durante um ano sem dar notícias. Deixei tudo para trás. E só voltei porque minha madrinha, que é dessas mulheres cuja expressão dos olhos sugere, permanentemente, que compreende a essencial fraqueza masculina, me deu garantias de que a ex-esposa não quereria me ver...

Amanhã no blog: Cartas de Lisboa

Amanhã retorna ao blog nosso correspondente em Lisboa, Felipe Horácio-Castro. Sugiro leitura prévia nos seguintes posts: Cartas de Lisboa 1: Mamadu trata do seu mal Cartas de Lisboa 2: De provérbio em provérbio Cartas de Lisboa 3: A cidade onde nada acontece Cartas de Lisboa 4: Um sábado alegre Cartas de Lisboa 5: Ossos do ofício

Cartas de Lisboa 5: Ossos do ofício

Ossos do ofício Felipe Horácio-Castro Desculpem pela ausência. Forçada, à causa do trabalho, porque o trabalho me tirou de Lisboa por alguns dias. Sabem, como está escrito aí ao lado nessa minha apresentação de mim, ganho a vida como restaurador. Sei que há qualquer coisa de estranho em ser restaurador. A começar que tal coisa não parece ser profissão, mas diletantismo de artista frustrado que, não podendo pintar, restaura o que os outros pintaram. Bem, não é nada disso. Nunca quis ser artista e, em conseqüência, jamais frustei-me por não sê-lo. Além do mais, não sou restaurador de pinturas, mas de metais, sim, coisa mais estranha ainda, não é? Ok. Acontece que no velho mundo andaram fazendo muitas coisas em metal, de relicários a coroas de Cristo, de cabos de bengala a gradis de palácios episcopais. A Igreja, essa então, como um ímã, se atraiu sempre por metais. E como a Igreja pobre não é, muito há sempre o que fazer, de maneira que é possível ganhar a vida restaurando metais. A prof...

Cartas de Lisboa 4: Um sábado alegre

Um sábado alegre Felipe Horácio-Castro O par de damas lisboetas que sobre meu partamento se abriga, duas senhoras aposentadas que inventam coisas terríveis de comer, presenteando-nos delas, quase levam o prédio inteiro a um incêndio ontem de manhã. Até agora não sei o que aconteceu. Elas não disseram nada e estão fazendo cara de pardais assustados, como se nada tivessem a haver com o fogaréu que saiu por três janelas do seu apartamento. O Jacinto, o vizinho escritor (já falei dele, lembram ?), que entra em pânico com a maior facilidade, quase teve um troço e, em meio ao escândalo descontrolado que fez, acabou dizendo às velhinhas que os quitutes que fazem são umas porcarias – coisa que o prédio inteiro, por educação, há anos se resguarda de comentar. - Loucas, piromaníacas, malucas, irresponsáveis, berrava o Jacinto. E as duas velhinhas, de mãos dadas, os olhos em órbitas, os de uma vesgos nos de outra, sem nada falar. Com meus botões, desconfiei de que o problema começara no fogão...

Cartas de Lisboa 3: A cidade onde nada acontece

A cidade onde nada acontece Felipe Horácio-Castro Lisboa, a cidade onde nada acontece. Caminho de madrugada pela rua da Mandragoa. Numa casa de fados acotovelam-se turistas, prostitutas, freaks e chulos. A escala de Mercali não seria suficiente para classificar o volume que punham ao som. Uma portuguesa grandalhona, em contorções admiráveis e com uma rosa na orelha cantava um fado maluco, desses que ora se inventam «para renovar o gênero». E batia palmas, muitas, mais do que musicalmente necessário. Aliás, mais batia palmas que cantava. Os seres humanos ali presentes, porque não se conheciam todos, tocavam-se pelos cotovelos. Era a maneira que tinham de dar um sentido às suas vidas : tocarem-se desastradamente com os cotovelos. Não, nada acontece em Lisboa, desisto de averiguar e continuo meu lento passeio pela madrugada, porque sou insone e é esta a maneira pela qual a natureza me condena à reflexão. - Faz cuidado aos assaltos, diz-me Jacinto, o escritor meu vizinho, Que Lisboa es...

Cartas de Lisboa 2: De provérbio em provérbio

Por Felipe Horácio-Castro O Minho é a terra dos provérbios e, na escola, que na escola se aprende o essencial da cultura popular, todos sempre tinham pérolas do Minho a contar. Era o caso do Eusebiozinho: “Quem cabritos vende e cabras não tem, certamente fode alguém”. Com esse provérbio tornou-se o rei da escola, durante a recreação e alhures. Todos ficávamos pensativos, reflexivos, procurando acomodar o provérbio em questão aos fatos da vida e, essencialmente, encontrar alguém que fosse do conhecimento de todos que bem coubesse nele. “Ah, o padre-mestre Zacarias!” , sugeriu o Andrèzinho. “E ele por quê?” , perguntei. “Ora, porque o Zacarias anda sempre com uma garrafa de vinho no sovaco. De onde as tira?” “Da adega” , alguém respondeu. “Exato” , continuou o Andrèzinho, “E quem tem as chaves da adega?” “A leiga Conceição!” , todos constatamos em silêncio de reverência. A leiga Conceição era a beata que supervisionava os serviços da cozinha, uma das muitas voluntárias que atuavam em n...

Cartas de Lisboa 1: Mamadu trata do seu mal

Por Felipe Horácio-Castro Gonçalo é meu amigo desde a adolescência, sendo que ainda continua nela, o infeliz. Acredita ser infeliz no amor e no jogo, simultaneamente, mas a verdade é que o é por não dar atenção a nada. Dias sim, dias não, está com a cabeça na lua. Nos dias não procura-me. Procurou-me na semana passada, me chamando de Felipinho, como na escola se fazia. “Felipinho, que pensas tu desses videntes africanos que andam a infestar Lisboa?”. Refleti por alguns segundos. De fato, há desses videntes por todos os lados. Mas não me incomodam. “Não me incomodam”, respondi. “Mas acreditas que eles têm mesmo esses poderes?” “Poderes de fazer o que?” “De conhecer o futuro, ora! E de liberar o corpo dos possuídos, essas coisas, tu sabes”. Percebi logo que Gonçalo andava comido da cabeça. Percebi, sem mais palavras suas, o que estava pensando. Não seria eu quem lhe iria ferir as expectativas. “Acho que sim”. Eu achava que não. Aliás, achava que esses videntes eram todos uns picaretas. D...