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Mostrando postagens com o rótulo Olhando o Mundo

SOBRE OS 150 ANOS DA LEI DO VENTRE LIVRE – Essa hipocrisia que legitimou muitas formas obscuras de poder

Hoje, 28 de setembro de 2021, completam-se 150 anos da proclamação da Lei do Ventre Livre, um dos marcos intersubjetivos mais importantes, pelas consequências havidas, e, ao mesmo tempo, mais hipócritas, da história do Brasil.  Homenagens a esse marco jurídico, considerando sua hipocrisia e malefícios, não merecem ser feitas – embora, chocado, tenha-as visto por todo o lado, na mídia, nas falas oficiais, nas escolas.  Como se sabe, a referida Lei declarava livres a todos os nascituros de mulheres em condição de escravidão. Menos dito é que estabelecia que, mesmo livres, essas pessoas ficassem sob a tutela dos senhores proprietários da sua mãe até os 21 anos de idade.  Ou seja, sob a aparência liberal de libertar o indivíduo, legitimava sua “indireta” escravidão até a maioridade, beneficiando o escravocrata.  É esse marco jurídico que cria a figura da “cria de casa”, do afilhado, da aia, dos meninos e meninas que recebiam abrigo e alimentação, geralmente precários, em...

130 anos da promulgação da primeira Constituição republicana brasileira: Com a atual já "eram" 7!

Mas o que ela fez e o que ela não fez?  Bom, algumas notas a seu respeito.  Promulgada a 6 de fevereiro de 1891, 15 meses após a derrubada de d. Pedro II, foi praticamente imposta pelos militares, dando ao Congresso apenas 3 meses para discutir um texto que já veio montado. 130 Anos da 1a Constituição republicana. Cabe lembrar que os militares, que deram o golpe da República, estrupiaram a Constituinte. Dificultaram a eleição dos seus adversários monarquistas, parlamentaristas e opositores do federalismo.  O que ela mudou? Em síntese: 1) descentralizou o poder, dando muito mais força para as províncias (agora “estados”); 2) Extinguiu o Poder Moderador, exercido pelo imperador e sinônimo da centralização do poder e da autocracia; 3) Substituiu o sistema parlamentarista pelo presidencialismo.  Obra de 2 grupos de pressão: o Apostado Positivista e a Igreja Católica. Mudanças: separação Igreja/Estado, casamento religioso perdeu validade, o Estado deixou de pagar o salár...

Considerações sobre a lei do aborto na Argentina

Não devo ter muito direito de dizer o que segue, porque minha compreensão do problema não é, senão, transcendental ao fato, considerando a elementaridade de que homens podem ter o poder, mas, jamais, terão legitimidade para dar sua opinião sobre o assunto.  Não obstante, como sou um ser opiniático e reflexivo, não me recuso a não dizer o que penso.  Falo a respeito do aborto, motivado pela legalização do mesmo na Argentina. Penso que se trata de um evento maior, desses de imensa magnitude e que faz questionar as referências hegemônicas.  Sendo muito sintético e objetivo, vou direto ao ponto: a legalização do aborto, na Argentina, é uma vitória cultural e política. É uma vitória das mulheres sobre os abusos históricos incondescendentes que a política e a cultura fazem do corpo feminino.  Dizendo de oura maneira: a legalização do aborto é uma vitória do corpo feminino sobre a política e sobre a cultura. Uma vitória do corpo feminino.  Uma vitória que se faz poss...

Sobre Giscard d’Estaing

A Covid acabou de levar, também, Valéry Giscard d’Estaing, presidente da França entre 1974 e 1981. A primeira história que escrevi na vida, creio que em 1976, aos 8 anos, narrava os diálogos entre um galo, chamado Pierre Cocovan, e ele. Infelizmente perdi o manuscrito... mas guardo de memória as gargalhadas de meu tio Arcelino Esperante, que a adorou – contra as expectativas de meu avô José, que esperava que eu escrevesse um conto de capa e espada e de meu pai, que desejava que eu escrevesse uma poesia de denso lirismo.  Mas voltemos a Giscard d’Estaing. Era um sujeito curioso: liberal e reformista, conservador mas pertencente a um tempo onde a direita ainda conseguia produzir gente responsável, comprometida com a melhoria da qualidade de vida da pessoas e com a justiça social.  Além disso, foi um internacionalista, um dos agentes centrais da construção da União Europeia. Oriundo da alta burguesia e da École Nationale d’Administration, o ENA, instituto francês de excelência na...

Recordação de Eduardo Lourenço, mais um grande que partiu

Faleceu em Lisboa, hoje, aos 97 anos, o ensaísta Eduardo Lourenço.  Lourenço formou-se pela Universidade de Coimbra e publicou o  primeiro livro,   Heterodoxias , em 1949.   Estudou em seguida na Universidade de Bordeaux e atuou nas universidades de Hamburgo, Heidelberg e Montpellier. Em 1960 radicou-se na França, sendo professor da Universidade de Nice até 1988. Aposentado, atuou como adido cultural da embaixada portuguesa em Roma e, posteriormente, a partir de 2013, estabeleceu-se em Lisboa. É autor de um dos livros mais importantes da língua portuguesa,  O Labirinto da saudade, de  1978, mas deixou uma obra imensa, composta por, dentre muitos outros,  Fernando Pessoa Revisitado  (1973),   Tempo e Poesia  (1974),   Poesia e metafísica  (1983),   As Saias de Elvira  (2006) e   Do Colonialismo como nosso impensado  (2014).  Recebeu diversos prêmios, inclusive o  D. Dinis, em 1995, o Camões, em...

Mais um acervo cultural que foge do Brasil para sobreviver

Soube recentemente que o acervo de obras e projeto de Paulo Mendes da Rocha um dos mais importantes arquitetos brasileiros, será deslocado para arquivos portugueses – precisamente para a Casa da Arquitectura, uma instituição respeitável que faz pela memória de seu país – e do nosso – aquilo que já não podemos mais fazer: guardar a memória com dignidade e protege-la da barbárie destrutiva do governo Bolsonaro.  O acervo de Paulo Mendes da Rocha é composto por projetos, plantas, rabiscos, desenhos, maquetes e fotografias. Constitui um painel da arquitetura brasileira e se sua influência no mundo. Rocha recebeu prêmios importantes, o Pritzker e o prêmio da Bienal de Veneza, dentre outros. É  justo dizer que a política cultural de preservação de acervos e da memória, em geral, sempre foi precária no Brasil, mas é igualmente justo e necessário dizer que os tempos atuais, desde do Golpe de 2016 até a época de Bolsonaro, são sem precedentes.  A migração do acervo foi uma decisã...

Maradona não se omitiu quando Lula foi preso: “Estão tentando lhe roubar a presidência, meu amigo”

  Via  Joaquim de Carvalho , no DCM.  

Kamala Harris, com todas as habituais contradições que perfazem o jogo político

Fonte: Joey Weatherford USA TODAY Network Observando o tratamento dado pela mídia à indicação de Kamala Harris como candidata a vice-presidente dos EUA, na chapa democrata liderada por Joe Biden, deu para perceber uma grande diferença editorial, apesar da quase unanimidade das opiniões compreendendo que, do ponto de vista eleitoral, foi uma boa escolha. Não obstante, foi bastante diverso o tratamento editorial dado a essa notícia, mundo afora. As diferenças foram marcantes, entre os diversos veículos e certamente traduzem posições políticas de diferentes Estados em relação à política norte-americana na gestão Donald Trump. A mídia massiva canadense, que geralmente odeia Trump, elogiou enormemente a escolha de Harris. O The Globe and Mail, principal jornal do país em língua inglesa, editado em Ottawa mas que circula de costa a costa, chegou a dizer coisas como “Joe Biden para co-presidente” e que Harris, com seus 55 anos, é o futuro da América – diante de um Biden que, com 77 anos, ...

Bilionários unidos pedem sobretaxa de suas fortunas

Notícia interessante: Um grupo de 83 bilionários, dentre as pessoas mais ricas do mundo, encaminhou uma carta a diversos governos pedindo que suas fortunas fossem significativa e permanentemente sobretaxadas. Escrevem: “Pedimos que nossos governos aumentem impostos sobre pessoas como nós. Imediatamente. Substancialmente. Permanentemente”. A carta foi divulgada antes da reunião do G20 com os presidentes dos bancos centrais. Alguns outros de seus pontos são a exigência de que os políticos e governos enfrentem a desigualdade global; promovam o aumento de impostos sobre a riqueza; estabeleçam mecanismos para uma maior transparência tributária internacional. E tudo isso num caráter permanente, e não apenas num contexto imediato, provocado pela pandemia. Consideram que a sobretaxação das fortunas e dos lucros financeiros – lembrando que, no Brasil e em mais dois países do mundo eles não são sequer taxados – são essenciais para uma solução viável e a longo prazo para a vida social. Os bilioná...

Proselitismo empresarial

Daniel Castanho é um empresário, dono na empresa de consultoria PwC, uma gigante no ramo da auditoria e consultoria, e um dos criadores do movimento Não Demita, que agregou cerca de 4 mil empresas, dentre as quais Bradesco, Magalu, Vivo, Boticário. Castanho ficou famoso dando entrevistas sobre não demitir. Apesar do proselitismo, a PwC demitiu cerca de 600 funcionários do ramo brasileiro da empresa, no dia 9 de julho passado. Cabe observar que o “Não demita” tinha prazo de validade: 31 de maio. Certo, o prazo foi respeitado e até mesmo estendido. Porém, convenhamos, depois de tanto barulho produzido em benefício da imagem dessas empresas com o mote “Não demita”, era justo esperar que, efetivamente, não houvesse demissões. Imagina-se que as demais 4 mil empresas que pactuaram o “Não demita” estão por começar – ou ampliar -  demissões. Bons exemplos duram pouco.

Outra estátua que se vai (tarde)

Foto de Catlyn Ochs, publicada no The New York Times Outra estátua se vai, nesse importante processo de renarração da história, iniciada quando, no começo de junho, manifestantes  derrubaram a estátua de um mercador de escravos, Edward Colston, em Bristol, UK. Desta vez é a estátua de Theodore Roosevelt, ex-presidente dos Estados Unidos, instalada no hall de entrada do Museu de História Natural de Nova York. Na sequência dos questionamentos e protestos iniciados com o Black Lives Matter, várias estátuas representando os heróis da história hegemônica - uma história quase exclusivamente branca e masculina - já foram derrubados.  No caso do Museu de História Natural a decisão veio do próprio Museu, que percebeu que a estátua "descreve explicitamente negros e indígenas como seres inferiores e subjugados". A decisão recebeu apoio do prefeito de Nova York, Bill de Blasio, que declarou que "É a decisão certa e o momento certo para remover esta estátua problemática. Cabe dizer q...

Sobre as eleições no UK

Hoje acordei com meu whatsapp em polvorosa: umas mil mensagens em torno das eleições no UK e da fragorosa derrota trabalhista. Dúvidas, explicações, ponderações e críticas. Explico: faço parte de um grupo de zap de brasileiros democratas que moram na Inglaterra. De dois, aliás. Como morei lá por 6 meses, em 2017-18, fiz alguns amigos e conheci muita gente nesses meios, formados por imigrantes progressistas, sejam pesquisadores ou trabalhadores, conscientes e críticos do fascínio conservadorista no Brasil, de todas as áreas e de todos os campos. Pois bem. O assunto do dia foi esse: a maior derrota do trabalhismo inglês desde 1935 (em pleno crescimento do fascismo na Europa, com sintomas muito semelhantes aos que vemos, atualmente, na sociedade global). Note-se, que os contornos dessa tragédia trabalhista incluem a perda do distrito de Wrexham, onde os trabalhistas não perdiam há 84 anos. O que isso demonstra? Na superfície, que os britânicos querem mesmo o Brexit e está acabado....

Como fazer política em cinco minutos

Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook, foi ao Congresso americano no último dia 23 de outbro para apresentar seu projeto de criptomoeda, o “Libra”. Praticamente nenhum deputado foi ouvi-lo. A sala vazia... Ou quase. Lá estava a deputada democrata por Nova York, Alexandria Ocasio-Cortez – estrela política e midiática ascendente da política norte-americana (sugiro que vejam o documentário “Virando a mesa do poder”, a respeito dela e de outras campanhas de candidatas democratas nas últimas eleições norte-americanas, disponível na Netflix). Só que Ocasio-Cortez não estava lá para saber da moeda digital de Zuckerberg. Estava lá para aproveitar os 5 minutos que teria direito, como deputada, a questionar o visitante e crivá-lo de perguntas sobre seu envolvimento no caso da Cambridge Analytica. Seguiram-se 5 minutos de arguição intensa, que deixaram Zuckerberg desnorteado. 5 minutos de política intensa, febril, de alta densidade. “Para que possamos tomar decisões sobre o Libra”, co...

Um logo inclusivo e republicano?

Os organizadores dos Jogos Olímpicos de Paris 2014 revelaram, na 2ª-feira passada, 21 de outubro, o logo do evento. Aliás, dos eventos, pois pela primeira vez os JO e o Jogos Paraolímpicos terão um mesmo logo. Por todo lado se fala dele – menos, é claro, onde as pessoas têm coisas muito importantes a tratar, como no Chile, na Bolívia, no Líbano e na faixa de 10 km além da fronteira turca, entrando pela Síria. Não estou aqui para dizer o que acho do logo – mesmo porque eu não acho nada e nem me sinto responsável por emitir opinião sobre os JO, além do que também eu tenho certos assuntos importantes a tratar – mas acho muito interessante a efervescência, o debate, em torno desse logo. Leio que o ícone foi criado pela agência Royalties-Ecobranding e, teoricamente, representa uma medalha de ouro sobre a qual ondula uma chama branca – dois símbolos olímpicos maiores – que se confundem com um rosto humano: o de uma mulher, alegadamente Marianne, a revolucionária de 1789, alegoria da r...

Youthquake: a palavra do ano para o dicionário Oxford

Depois que fake news foi escolhida a "pakavra do ano" pelo dicionário Oxford, em 2017, virando um debate mundial, tanto na vida quotidiana como na academia, todos estavam aguardando para ver qual seria a palavra escolhida em 2018. Na Inglaterra havia até bolsa de apostas. Pois bem, o resultado saiu: Youthquake. Que significa protagonismo da juventude.  Ou, mais especificamente, como colocado no dicionário Oxford, « a significant cultural, political, or social change arising from the actions or influence of young people ». Na verdade, a origem do termo aponta para um movimento cultural londrino, relacionado à moda, dos anos 1960. Na Wikepedia encontrei mais sobre a palavra . Ah, para constar: nos Estados Unidos os dicionários Webster, também começaram a indicar a sua "word of the year", e lá a indicada foi « feminism ». Ao que parece, uma tendência em referir protagonismos.

Sobre Antônio Cândido

No dia 16 de maio último o país perdeu um de seus maiores intelectuais, Antônio Cândido, crítico literário e um dos grandes "intérpretes do Brasil". Reproduzo abaixo um texto, sobre ele, escrito por Roberto Schwartz, um de seus principais herdeiros intelectuais e publicado na Revista da USP em 1993. O texto perfaz um panorama sucinto e preciso da trajetória de Antônio Cândido. Antonio Candido  (de Mello e Souza) (n.1918). Figura central da crítica brasileira a partir dos anos 40. Iniciou a carreira como responsável pela seção de livros da revista  Clima,  a qual fundou com um grupo de amigos em 1941. O periódico refletia o novo espírito universitário crítico, instalado em São Paulo por influência da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, recém-criada em 1934. Nesta, uma equipe notável de professores trazidos da Europa assegurava à nova geração o contato com o padrão de pesquisa contemporânea: o autoditatismo começava a ser substituído pela formação sistem...

Sobre a vitória de Macron na França

A vitória de Emmanuel Macron nas eleições presidenciais da França só oferece um motivo de comemoração: ter derrotado Marina Le Pen. Trata-se do famoso “menos pior”.  No cenário político, Macron ocupa uma posição, digamos assim, de “extremo centro”. Participou do governo socialista, é certo, mas antes foi banqueiro dos Rotschild. Propõe um plano de investimentos sociais de 50 milhões de euros, é certo; mas também um corte de 60 milhões de euros no orçamento. Deseja reformar o Código do Trabalho para dar mais garantias ao trabalhador, mas ao mesmo tempo promete extinguir 120 mil empregos públicos e cortar 10 milhões de euros no orçamento do seguro-desemprego. Querem mais? Promete investir 15 milhões de euros na transição energética para um modelo sustentável, mas não deseja abandonar o modelo nuclear (a França tem 58 reatores nucleares em atividade). Como eu dizia: Macron é o extremo centro. O seu primeiro ministro, que deve ser anunciado dentro de alguns dias, d...

Eleições para a reitoria da UFPA começam muito mal

Há alguns dias todo o corpo docente da UFPA foi surpreendido por um questionário eletrônico não identificado contendo uma pesquisa de intenção de voto para a sucessão da atual reitoria. Gostaria de manifestar minha indignação com esse questionário e com a maneira como ele foi feito: utilizando o mailing da instituição (ao qual poucas pessoas têm acesso), sem nenhuma identificação de autoria e sem indicação de metodologia. Ou seja, como um subterfúgio espúrio de algum interesse eleitoral que procura se dissimular em vez de participar, de maneira democrática e honesta, do processo sucessório. Pior: provavelmente, mais do que uma pesquisa de intenção de voto, trata-se de um mecanismo para identificar quem pretende votar em quem, pois o sistema utilizado no questionário permite a identificação de cada pessoa que o responda. Uma vantagem eleitoral obtida de maneira desleal, que leva ao constrangimento de sujeitos político legítimos e a acordos pontuais, traindo o princípio democrático do d...