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Mostrando postagens com o rótulo Diários confinados

Diários Confinados 3 – Sobre peste, quarentenas, estigmas e tabus

Hoje eu ia ler o « Decamerão » – leitura apropriada para nosso isolamento – mas acabei encontrando o « Stigmata », de Erving Goffman, e me distraí. Incomodado com um trecho, parti em busca de «  Purity and Danger  »,   de  Mary Douglas, e acabei encontrando o Levítico. Não li nada direito. Continuei confinado, de quarentena, pesando nas ordens que Deus deu ao sacerdote Aarão, irmão mais velho de Moisés: as ordens de separar o impuro do puro.  Nestes tempos nos quais as marcas das impurezas virais são tão dissimuladas, bem sabemos que nada, nem os estigmas estudados por Erving Goffman, nem os tabus estudados por Mary Douglas, têm o poder de separar o impuro do puro. E, por via das dúvidas, restamos todos impuros – de quarentena. Pelo menos restamos acreditando, ao menos isso, que basta lavar muito bem as mãos e usar uma máscara, quando se a tem, porque as ordens que Jeová deu a Aarão (Levítico, 13, na Vulgata), convenhamos, são ...

Diários Confinados 2 – O que o governo Bolsonaro devia fazer e não faz?

A taxa de mortalidade por Covid 19, na Alemanha, apresenta dados interessantes: 0,3%, contra 3,6% na França e 8?5% na Itália. Por que essa diferença? São três países europeus e vizinhos, economias desenvolvidas e estados com condições técnicas bem mais elevadas eu a grande maioria dos países do mundo. O que explica, então a diferença? O que explica a “exceção” alemã? Venho lendo os jornais e os documentos públicos sobre o coronavirus desses países –  quer dizer, não da Alemanha, porque não tenho alemão para isso – tentando entender a diferença. Atenção: não sou profissional da área da saúde, então o que anoto aqui são apenas dados de leitura e observações, e não considerações científicas. E o que percebo são algumas variáveis interessantes: 1°) a média de idade das pessoas contagiadas é mais jovem na Alemanha de que em outros países: 47 anos na Alemanha; 2°) a decisão política imediata do estado alemão de testar, massivamente, a população – hoje num ritmo de 160 mil tes...

Diários confinados 1: Simétricas aparências

  A imagem da organizada fila de supermercado (imagem 1), na cidade italiana de Prato, faz pensar no Golconda, o quadro de Magritte, pintado em 1953 (imagem 2). O respeito às regras de distanciamento pessoal, que passaram a ser necessárias em todo o mundo em função da epidemia, parecem encontrar uma representação profética no quadro de Magritte.  A chuva de homens retratada no quadro pode ser lida como uma alegoria da representação. Os homenzinhos pintados podem parecer iguais - afinal se vestem da mesma maneira e têm semelhanças físicas, mas eles não são iguais. Olhem para os rostos e perceberão. Representações enganam, mentem.  Tal como, aliás, a riqueza dos diamantes produzidos durante séculos na cidade de Golkonda, na Índia, que dá nome ao quadro. Essa pintura parece ser uma alegoria crítica do individualismo, do isolamento, mas Magritte não deixou explicações - afinal, era um surrealista... Livre de imposições interpretativas e confinado em casa ne...