30 janeiro 2011

Cartas de Lisboa 6: Dia de São Martinho


Dia de São Martinho
Felipe Horácio-Castro 

Minha primeira esposa tinha a magestade tranqüila dos carnívoros indiferentes. Não amava-me. Casou-se porque eu muito insisti que queria e que queria. Acho que por pena. Triste, não? De qualquer forma, o casamento foi breve, graças a Deus. Num acesso de cansaço e torpor apanhei duas camisas, meus três volumes das obras completas de Machado de Assis, meus quatro Dalcídios, já enrabiscados, coitados, e fugi de casa. Ela não entendeu nada e nem eu consegui explicar. Dirigi até Cintra e me escondi numa espelunca como se a polícia fosse aparecer para me pegar. Depois, como num filme de espionagem, vendi meu carro por uma bagatela e peguei o primeiro avião para Madri, onde vivi durante um ano sem dar notícias. Deixei tudo para trás. E só voltei porque minha madrinha, que é dessas mulheres cuja expressão dos olhos sugere, permanentemente, que compreende a essencial fraqueza masculina, me deu garantias de que a ex-esposa não quereria me ver nem pintado de ouro. 

Minha segunda esposa tinha, ao contrário, a agressividade ritual das águias friorentas. Dessas que corroem-se de ciúmes sem a mais mínima razão, como se o pleistoceno surgisse-lhes repentinamente das entranhas. A madrinha bem que avisou-me : Não vai der certo, não me cases tu com ela. Não a ouvi. E minha esposa sismou de tal maneira que eu estava apaixonando-me por uma sua prima que eu, de fato, acabei acreditando nessa história, num resultado catastrófico que deixo que imaginem porque me falta, ainda hoje, a última raiz de cabelo para o contar. 

Mas, deixem-me segredar-lhes : sou um terno. Sei mimar. Sou tão terno que pareço um cachorro doente, um desses cães com olhos de gente. Sou estupidamente submisso. Sou ridiculamente amoroso. Sou capaz de fazer mimetismos de amor, como comprar uma calça verde para combinar com o blaser verde que tem minha esposa e assim sair com ela para passear no domingo a tarde, cheio de vaidade em sugerir aos passantes que meu amor é tão sincero que se prolonga em coincidências desse tipo. 

E por que lhes falo dessas coisas? Porque, ora, é dia de São Martinho em Lisboa, data em que se entra, simbolicamente, na primavera. Um período do ano em que até mesmo os cães pulguentos expressam sua ternura ; em que até mesmo os triceranotamos do zoológico ronronram, com seus grandes narizes, os focinhos de suas amadas ; em que até mesmo o escritor Jacinto, meu vizinho, sai de casa para tomar um ar. 

Feliz da vida, sairei hoje para dançar. Dançarei pessimamente, como de hábito, mas dançarei o tango, a polca, a techno, a mazurka, a rumba. Dançarei até mesmo, se o tocarem, o tsherzo. Alcançarei, n’alguma rua perdida, a explicação obscura da paz e acenderei, quem sabe, uma vela a São Martinho, ainda que seja incréu dos santos na mesma medida em que eles, como têm dado provas cabais ao longo de toda vida, sejam também incréus de mim.

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