01 março 2016

Eleições para a reitoria da UFPA continuam muito mal

O Conselho Universitário (Consun) da UFPA foi repentinamente convocado, ontem, para uma reunião extraordinária que tem por objetivo discutir o processo eleitoral da sucessão do Prof. Carlos Maneschy na Reitoria. Todos sabemos que a razão disso é a renúncia do Reitor para disputar um cargo público – motivo legítimo, sem dúvida alguma, mas que lança a UFPA num momento de turbulência em ano que já está exaustivo em função dos semestres acumulados pela greve.
Acho muito interessante quando a universidade fornece quadros para a política. Há experiências boas e más nesse sentido, mas de qualquer forma isso é muito importante e saudável. Penso, igualmente, que o Prof. Maneschy tem condições muito boas para realizar uma disputa de alto nível e, sendo eleito, ser um excelente prefeito ou parlamentar – não estou ainda bem informado a respeito de qual cargo pretende disputar.
Não obstante, em minha compreensão, não é correto submeter a agenda da UFPA à agenda de um projeto específico.
A decisão de renunciar leva à antecipação de um processo sucessório que deveria, respeitar uma agenda de reflexão e diálogo construída coletivamente.
A UFPA é importante demais para escolher um reitor no afogadilho do tempo, e está viva demais para prescindir do debate, do diálogo e da construção coletiva.
Evidentemente que fazer as coisas dessa maneira beneficia a alguns, em detrimento de outros. E beneficia a alguns projetos, em detrimento de outros. Rompe com os preceitos da transparências e da igualdade de condições. E isso é perigoso, porque a tendência é que um processo eleitoral atropelado leve a escolhas superficiais, norteadas por um comportamento de escolha, de voto, do tipo “onde vou errar menos”. A um comportamento baseado na superficialidade e nas aparências.
Esse tipo de “truque” não deveria estar presente numa universidade pública. Num momento em que a política se torna desacreditada por muitos, estratégias eleitorais desse tipo apenas fragilizam os fundamentos do que deve ser a boa política e comprometem, inclusive moralmente, a nossa instituição.
Desculpem se ofendo a alguém, mas não estou de acordo com essa situação. E, sinceramente, acho um absurdo atropelar toda uma comunidade formada por pessoas competentes, inteligentes e honestas em função de um projeto de poder.
De um projeto de continuação.
Não digo de continuísmo, pois evidentemente há valor e mérito na gestão do Prof. Maneschy e sua equipe, inclusive, e sobretudo, na gestão do Prof. Tourinho, por quem tenho grande admiração e que nos foi apresentado como seu sucessor.
Mas um projeto de continuação. De continuação, de sucessão, de construção de um núcleo de poder que agora se apresenta como projeto eleitoral.
Um projeto de continuação que transforma a Reitoria de uma universidade pública num Reitorado.
Nem a pressa, nem o individualismo, nem o oportunismo, como todos sabemos, são bons conselheiros na academia.
Mesmo tatilmente, pensando do ponto de vista estritamente político, isso rompe qualquer base e embaralha qualquer diálogo: desgasta a governabilidade. Prova disso é o estado atual de disputa que parece tomar conta do próprio núcleo de poder da reitoria. Todos sabemos que há desacordos e rupturas. E essa situação ameaça, por antecipação, a próxima gestão, porque desacredita-a.
Em síntese, o que penso: 1) É preciso garantir a equidade na disputa; 2) Precisamos garantir o pleno debate e a construção de uma campanha democrática; e 3) A eleição não deve ser antecipada em hipótese alguma.

Espero que a comunidade da UFPA tenha maturidade para seguir no caminho do bom senso e da política construtiva. E espero que o Consun saiba ouvir e respeitar a comunidade.

19 comentários:

Anônimo disse...

É realmente preocupante essa situação. Como a universidade mudou desde que estudei por lá! Melhorou? Em muitas coisas, basta ver os prédios e o números de cursos e alunos. Piorou? Sim, em algumas, infelizmente. No meu tempo se fizessem uma coisa dessas os alunos ocupavam a reitoria na mesma hora. Na minha modesta opinião é inconcebível submeter o calendário normal da instituição a uma eleição externa.. A situação é escandalosa.

Jussara disse...

Tenho impressão de que tem um consenso na UFPA, um pacto, um acordo, ou algo desse tipo. Um acordão. Do tipo não mexam comigo que eu não mexo com vocês. Só isso explica a acomodação que a pessoa que escreveu antes de mim mencionou. Sim, porque a situação é de acomodação. Como você disse, Prof. Fábio, uma política baseada na ideia de continuação. Do ponto de vista da teoria política isso equivale a um jogo de composição e acomodação, no qual os agentes políticos abrem mão de uma parte dos seus direitos para evitarem o conflito. Já se foi o tempo em que o conflito era algo importante, salutar e válido para a política.

Allan disse...

É a primeira vez que vejo alguém dar golpe para sair... Interesses pessoais dominando e a universidade está um caos!

Anônimo disse...

Bom, vou dar minha opinião. Desculpem pelo anonimato, mas como sou servidora técnico-administrativa com não muito tempo de casa, acho mais prudente. Acho que o Maneschy fez uma boa gestão, com pontos falhos, é claro, o que é natural. Também acho que ele seja um bom candidato ao que quer que seja. Tem ex-reitor que está na política e aparece mais do que no tempo em que era reitor e tem ex-reitor que está na política que era todo emplumando quando ocupava a reitoria e que desaparece completamente quando vira secretário, deputado e coisa assim. O problema é que sair assim da Reitoira, criando essa caos gigantesco e querendo fazer na marra o seu sucessor depõe contra ele. Vai pegar mal. É como se manchasse todo o seu trabalho. Também acho que pega mal pro candidato dele, porque parece meio "topa tudo e qualquer coisa". Bom, espero que essa situação se resolva da melhor forma possível...

Carlos Rodrigues disse...

A reunião do CONSUN vai ser na próxima sexta, dia 04 de março, às 9h. Vamos lá galera. Vamos cerca o prédio da Reitoria e fazer pressão. Os alunos da UFPA estão se mobilizando. Esse negócio não pode passar. É um desrespeito com a UFPA. Fazer sucessor na marra não cola. E nem fazer da universidade trampolim eleitoral.

Anônimo disse...

Fábio, Esse movimento é irresponsável. Ele fere a autonomia da universidade pública e lança a UFPA num terreno perigoso da falta de governança. A eleição de um novo reitor, nessas circunstâncias, se vier a ocorrer, não terá nenhuma legitimidade. Penso que um fato desse tipo ocorre na esteira do ciclo de permissividade que a direita golpista está lançando o país. Os frutos dessa irresponsabilidade serão incontroláveis. Quando o golpismo dita as regras, impõe candidatos e vence não é apenas a universidade pública que morre institucionalmente: morre também o que ela representa, a própria democracia.

Bethânia MdeS disse...

O movimento é irresponsável e golpista. É preciso também destacar que o centro dessa articulação está numa dobradinha eleições municipais e eleições da UFPA, ambas construídas pelo PMDB com apoio de uma parte do PT. Essa parte do PT que apoia incondicionalmente o PMDB e que lhe é subserviente. A parte do PT que, como já sabemos, vai trabalhar contra a candidatura de Regina Barata à prefeitura. É triste ver a UFPA sendo usada como trampolim para candidaturas e como objeto de barganha! Confesso que estou indignada com essa situação, mas o poder da máquina vai passar como um trator sobre o Consun. Pobre UFPA.

Fabio Fonseca de Castro disse...

Carxs,
Recebi vários comentários com considerações sobre os candidatos à sucessão do Prof Maneschy, com declarações de apoio e também com críticas. Informo que decidi não publica-los aqui, pelo fato de que não é esse o tema do post. Penso que o assunto da antecipação das eleições para a reitoria, da maneira como esta sendo feita, é um tema que precede todo debate eleitoral. É uma questão maior, a considerar antes de todas as outras. Por isso mesmo, desviar o debate para a questão de quem é o melhor candidato terá o poder de retirar o foco do assunto mais urgente. Espero que compreendam minha decisão, que a condição de moderador do blog me permite. Evidentemente, no futuro, poderemos falar sobre as candidaturas e certamente falaremos, ok?

Anônimo disse...

Mandou bem o Carlinhos Rodrigues, a hora é de fazer barulho. Vamos cercar a Reitoria na hora desse Consun, sexta-feira. Vamos enfrentar o golpe. Vamos repudiar esse continuísmo que estão impondo. Quero a UFPA com autonomia e com democracia!

Fabio Fonseca de Castro disse...

Reproduzo aqui um comentário postado na minha página no Facebook pelo dr. José Varela, a respeito do mesmo assunto. Penso que sua contribuição, sempre muito lúcida, edifica o debate:

Em qualquer hipótese não é edificante. Tive boa impressão do reitor nos poucos contatos que tive oportunidade de manter com ele. Acho que ficaria melhor à sua imagem pública cumprir integralmente o mandato na reitoria antes de se lançar à carreira política. José Marajó Varela.

Fabio Fonseca de Castro disse...

Reproduzo também a contribuição da Prof. Luzia Miranda Álvares, igualmente sempre valiosa e lúcida, no Facebook, sobre o assunto.

Muito oportuna e sintética essa análise do Prof. Fabio Fonseca de Castro. Essa perspectiva política de substituições por outra objetividade política tem seu desgaste e espero que os projetos acadêmicos que são projetos de vida de muitos não se percam nesse turbilhão de negociações onde o que está em jogo é também a governabilidade. Tenho tido muito bons retornos na academia (por isso ainda não deixei minha sala de pesquisa hehehe) e espero continuar a acreditar em seus membros (em todos os sentidos). Luzia Miranda Álvares.

Anônimo disse...

Fábio, tu podes até mediar o debate sobre as opções de cada um para reitor ou reitora - e acho louvável a tua posição de não partidarizar o debate em torno desta questão que, sim, é maior e antecede as demais, mas vejas bem: precisamos saber o que cada candidato pensa sobre esse assunto, não achas? Obviamente que o E. Tourinho segue a orientação do Maneschy, mas e os outros? O que acham de tudo isso?

Anônimo disse...

O que se diz agora a tarde pela UFPA é que a Reitoria já tem um projeto pronto de eleições JÁ para enfiar goela abaixo do Consun.

Marcia Lima Cruz disse...

O Consun precisa ter serenidade, como diz o Prof Fábio, para não entrar nesse jogo. É crucial não se deixar levar pela agenda do reitor, do seu candidato ou do PMDB, como sugere alguém aí em cima.

Anônimo disse...

Pergunta aos universitários: pode convocar reunião do Consun pra discutir "processo eleitoral" sem que tenha havido, antes a renúncia do senhor reitor?

Anônimo disse...

Acabaram de divulgar que a reunião do Consun foi adiada. Na certa contaram os votos e viram que a proposta de antecipação das eleições iria perder feio.

Maurício disse...

A decisão de cancelar a convocação do Consun demonstra um recuo claro da Reitoria (do Reitorado, como tu dizes). A pressão foi grande: grupo Liberal, radialistas, redes sociais e Adufpa pressionaram e venceram. Mas o que isso significa? Um recuo estratégico? Uma recomposição? Os próximos dias sugerem movimentos intensos nos bastidores.

Anônimo disse...

Por que o movimento estudantil e demais representações legitimas não recorrem ao dispositivo regimental da Assembleia Universitária ,instância decisória suprema , acima dos Conselhos ? Esse é o momento estratégico para recorrer a essa instancia democrática . Fazer pressão de bastidores sem a ampla participação da comunidade universitária , também não me parece nada democrático .
Que se convoque a Assembléia Geral ! Já !!!

Bento Amaral disse...

PMDB tentando transformar a UFPA em motor de seus interesses. Abaixo o golpe na universidade! O reitor tem que cumprir o mandato até final.