01 junho 2010

Cartas de Lisboa 4: Um sábado alegre

Um sábado alegre
Felipe Horácio-Castro
O par de damas lisboetas que sobre meu partamento se abriga, duas senhoras aposentadas que inventam coisas terríveis de comer, presenteando-nos delas, quase levam o prédio inteiro a um incêndio ontem de manhã. Até agora não sei o que aconteceu. Elas não disseram nada e estão fazendo cara de pardais assustados, como se nada tivessem a haver com o fogaréu que saiu por três janelas do seu apartamento. O Jacinto, o vizinho escritor (já falei dele, lembram ?), que entra em pânico com a maior facilidade, quase teve um troço e, em meio ao escândalo descontrolado que fez, acabou dizendo às velhinhas que os quitutes que fazem são umas porcarias – coisa que o prédio inteiro, por educação, há anos se resguarda de comentar.
- Loucas, piromaníacas, malucas, irresponsáveis, berrava o Jacinto.
E as duas velhinhas, de mãos dadas, os olhos em órbitas, os de uma vesgos nos de outra, sem nada falar. Com meus botões, desconfiei de que o problema começara no fogão, onde talvez cozinhassem mais uma das suas coisas. Elas se sabiam culpadas, sem dúvida, mas não tinham coragem de admitir. Os estragos foram poucos : um armário, as cortinas da cozinha e uma samambaia. Ouviram com resignação o pito do chefe dos bombeiros, ao qual respondiam em coro, Sim senhor, senhor bombeiro, Sim senhor, senhor bombeiro, Sim senhor, senhor bombeiro.
No fim da tarde fui visitá-las, ver se passavam bem, etc. Estavam falando baixo, como se o levantar das vozes fosse capaz de levantar novamente o fogo… ou a ira do Jacinto.
Foi do bolo de batatas que ele não gostou…, pensava uma.
Mas vamos nos desculpar, isso vamos.
Imaginei que sua "desculpa" consistiria naqueles sequilhos duros que elas adoravam e nem sei com que dentes que os comiam. Resolvi também visitar o Jacinto.
- Está mal, o senhor Jacinto, disse-me, uma das mãos às faces e os pequeninos olhos pretos afobados (talvez reflexivos, não sei), a sua mulher-a-dias. Tomou até comprimidos, completou.
Desci e fui comprar pão à esquina, pensando se não encontrava pelo caminho uma história qualquer para contar a vocês.

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