14 dezembro 2019

The Londonian Diaries 18: Caminhando por Islington, red quarters


Escrevi ontem sobre as eleições britânicas. Acrescento uma observação curiosa: o líder trabalhista Jeremy Corbyn foi reeleito, pelo distrito londrino de Islington, historicamente o núcleo geográfico do trabalhismo inglês, onde (é esta a observação curiosa) Boris Johnson morou durante algum tempo.

Isto dito, recupero uma pequena anotação das minhas "The Londonian Chronicles", as notas que tomei durante o tempo em que morei por essa cidade e em Cambridge.



The Londonian Diaries 18: 
Caminhando por Islignton, red quarters

Hoje visitei Islington, um dos 32 boroughs de Londres e um dos corações da cidade. O bairro tem, atualmente, uma população de cerca de 215 mil pessoas e uma histórica reputação esquerdista. É pequeno e estreito, mas abriga duas constituenciesou seja, distritos eleitorais do Parlamento Britânico: Islington Norte, cadeira ocupada pelo próprio líder trabahista Jeremy Corbin e Islington Sul, cadeira igualmente trabalhista.

Tem um papel histórico na luta socialista internacional. Foi em Islington, em 1381, que teve lugar a rebelião popular contra os impostos de Ricardo II. Foi também lá que que, em 1791, Thomas Paine escreveu "Os Direitos do Homem" - clássico mal e pouco lido mas que resta uma pedra basilar na noção de direitos civis. E foi também em Islington que Lenin e Trotsky viveram e se reuniram, diariamente, para construir a revolução na Rússia. Stalin também viveu em Islington, que, como se vê, se tornou a pátria de exílio dos revolucionários russos. 

Não por acaso é que foi numa igreja de Islington, na Southgate Road, que se realizou o V Congresso do Partido Social-Democrata da Rússia, o antecessor do Partido Comunista - esse congresso mítico, no qual a supremacia do bolcheviques, os socialistas radicais, foi construída sobre o anterior predomínio dos moderados socialistas mencheviques.


Em minha caminhada por Islington tenho um destino certo, a Marx Memorial Library, que é a biblioteca pública desse bairro. Quero conhecê-la e, também, ver um quadro famoso (o da imagem no começo desta crônica), um mural pintado por Francis Hastings, 16o conde de Huntingdon, o "conde vermelho".

Sim, não tem como não contar essa história. Francis Hastings nasceu em 1901 e morreu em 1990. Descendia do 1o Conde d'Eu, um dos nobres que invadiram a Inglaterra junto com Guilherme, le conquerant. Nobre de parte inteira, tornou-se, no entanto, socialista. E trabalhista.


 Para desgosto da família, ingressou no Labour e foi deputado e ministro da Agricultura e Pesca no governo de Clement Attlee. Mas, sobretudo, foi pintor. E aluno de Diogo Rivera, o grande pintor e lider socialista mexicano, marido de Frida Khalo. O "conde vermelho" escandalizou longamente a nobreza britânica. E deixou uma obra imensa, que tem nesse mural, que reproduzo na imagem acima, um de seus momentos maiores.


Mahatma Gandhi também viveu em Islington, enquanto estudava na Inns of Court School of Law, bem como Tony Balir, primeiro-ministro trabalhista e Salman Rudshie, o escritor. E, além disso, Islington abriga a sede histórica da Salvation Army, essa instituição caritativa que atua de forma globalizada, ajudando muita gente por todo o planeta e foi lá que, em 1784, a escritora e feminista (uma das primeiras feministas), Mary Wollstonecraft, estabeleceu a sua escola para moças liberais, na rua Newington Green.



Mas para além dessa tradição vermelha, o bairro tem outras glórias, mais contemporâneas. Para começar, é a sede do Arsenal - o time de foot - e de seu imenso estádio, um dos maiores do país, o Emirates. E abriga, também, o Almeida Theatre, uma pequena sala, com cerca de 300 lugares, mas com imensa reputação. O Almeida é conhecido por "exportar" suas peças para os grandes teatros do West End. Na verdade, esse teatro integra um conjunto cultural construído em 1837, a Islington Literary and Scientific Society, que incluia um laboratório científico, um museu e uma biblioteca com 500 lugares. Esse conjunto foi aequirido no final do século XIX pela Salvation Army, que o transformou em seu quartel general, denominando-o The Wellignton Castle Barracks em 1902. Assim funcionou até 1955, quando foi transformado numa fábrica. Anos mais tarde, abandonado e prestes a ser demolido, foi salvo por uma campanha popular e acabou sendo classificado na lista dos monumentos nacionais, o English Heritage, em 1972. O teatro surgiu em 1980, ganhando imediata reputação.

Deve-se referir, também, a City University of London, fundada em 1894 como Northampton Institute e que se tomou esse nome em 1966. Sua grande reputação, no entanto, vem da integração, nela, da The Inns of Court School of Law, tradicional escola de direitol, criada em 1852 e fundida à City em 2001. Sim, e famosa, ainda, por seu departamento de Jornalismo.


Sigo caminhando e, no meio do caminho do meu passeio por Islington encontro o Saint-John's Gate, construção remanescente de um monastério do século XVI, chamado Clerkenwell, do priorado de mesmo nome, sede da ordem monástica dos Cavaleiros de São João, os conhecidos Cavaleiros Hospitaleiros, fundada no século XIIde que meu avô José, fascinado por essas lutas medievais, me contara, no passado, algumas histórias.



Evidentemente que o que sobrou, nesse portão, é uma recrição vitoriana - essa desgraça estilística que achou por bem reescrever a história da Ingkaterra, enfeiando o país de norte a sul, no século XII. Mas, enfim, não tendo muito o que fazer, me contento com as referências.


Termino a jornada encontrando com a Marina no The Hen and Chickens, um pub que abriga, no seu segundo andar, o The Hen and Chikens Theatre, minúscula sala de espetáculos igualmente bem reputada e da qual me contam histórias que, bem, estou cansado para repetir aqui. Two Guiness, a kiss and nothing else.


o sea

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