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Sex’nd’pop

Que relação entre o pop e o sexo ? A quanto posso lembrar, Elvis Presley se tornou um mito porque fazia um pequeno e sugestivo movimento dos quadris, enquanto interpretava suas primeiras baladas, ainda nos anos 1950.
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Ora, outros movimentos, igualmente sugestivos, fizeram a fama de Madonna. De Presley a Madonna há uma distância breve, que inclui o pop negro americano, as boys bands inglesas e o hip-hop gay. Elvis (Pélvis, para alguns) iniciou essa relação com uma cançãozinha piegas: “Treat me like a fool”. O segundo passo foi dado pelos músicos negros americanos, notadamente Chuck Berry e Little Richard – “Tutti-frutti”. O terceiro, e decisivo, por Mike Jagger, que refundou a figura da androgenia e demarcou a todas as posturais musicas – e sexuais – da “swinging London” dos anos 1960. Não longe desses códigos, é preciso citar Hendrix e Joplin, que construíram suas imagens sociais centradas no mito da relação entre seus dons musicais e suas habilidades sexuais. Não obstante seu talento independer, naturalmente, de suas nudez. Bom, a entrada de Janis no grande cenário musical é coincidente com a pílula e com a liberação sexual. Que o diga a mais ou menos famosa srta. Cynthia, uma groupie, como se dizia, que conseguiu a proeza de dormir com muitos de seus ídolos – pelo prazer da variedade icônica, pelo prazer da coleção. Figurinha batida da história do pop-rock.
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E nesse contexto surgem os gemidos orgasmáticos – hoje muito constrangedores – de Donna Summer, em “Love to love you baby”. Pronto, está consubstanciado o marketing sexista que demarca o tecido musical do último quarto do século XX. E há que lembrar Samantha Fox, com seu grande sucesso, uma musiquinha que atendia pelo título, menos sugestivo que direto, de “Touch me”. Ora, só para continuar no campo das cantoras mulheres, chegamos a um ponto em que Christine Aguilera e Britney Spears afixam cretinamente sua voluptuosidade. No campo da música pop negra, é preciso reconhecer a abundância de clichês, tanto sociais como musicais: a sociedade escravocrata, o blues, a violência e a exclusão. A imagem da diva pop prostituída é recorrente quando se pensa nessa música. A ela associada, há a figura da mulher negra “forte”, como Jennifer McLune e Tina Turner e a figura do gangster negro, sexista e pronógrafo. Já no campo do pop gay – e não que se trate de uma música exclusivamente gay – é recorrente a imagem do andrógino. Veja-se, por exemplo, o lay-out de David Bowie, Boy George ou Duran Duran. Porém, o mais curioso da tendência pop-gay, no campo da música, foi a transmutação gerada pela aids: estabeleceu-se uma espécie de pacto mediático centrado em imagens ainda super erotizadas, mas curiosamente híbridas, curiosamente misteriorsas, como é o caso das pseude-lésbicas do T.A.T.U. e, sobretudo, das alegorias criadas por George Michel, em seus clipes, para a própria homossexualidade. O pop embaralha os papéis sexuais. É preciso procurar referenciais. O professor Peter Wicke, diretor do Centro de pesquisa sobre música pop da Universidade Humboldt, de Berlin, observa que o cantor pop contemporâneo reproduz a imagem de uma marionete gentil, enquanto que a a cantora pop, em geral, é tida como militante e corajosa.
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Ora, esses dois estigmas reproduzem, imediatamente, a cultura de gênero nas classes médias dos centros urbanos contemporâneos : homens que perderam alguns de seus referenciais históricos de « masculinidade » e mulheres que, em resultado das conquistas do feminismo, se mostram mais donas de si. No caso dos homens, há que ser observado que alguns cantores pop, neste começo de século, se comportam como se tivessem sido castrados. E suas guitarras podem ser vistas como patéticos substitutos fálicos. Pode-se dizer que sexo e pop estão historicamente associados. A cultura ocidental está repleta de imagens-memória de nádegas, gestos obscenos e torsos nus. Do ato de Jim Morrison de abrir a braguilha em frente a câmera, durante um show na BBC ao recente beijo na boca entre Madonno e Britney Spears, sexo, música, comércio e mídia constituem uma coisa só.

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