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Os 10 pecados da política cultural do PSDB

Décimo pecado: Vaidade

O pecado não é venal, mas desnorteia pelo ridículo. A política cultural do PSDB sempre teve uma arrogância que, para muitos, parecia agressiva. Talvez isso fosse, apenas, a necessidade de firmar uma aparência social de pertencimento ou de proximidade a grandes idéias e a grandes intelectuais. Fazer a corte aos famosos, aos verdadeiros, aos grandes, se tornou uma prática. Não obstante, como é sabido, “cultura” não se pega por osmose, e os grandes intelectuais, os verdadeiros, como todos sabem, não costumam pecar pela vaidade. O pecado da vaidade equivale ao tom ideológico e sutil das políticas do PSDB, e precisa ser compreendido, contextualizado, para que não continue influenciando na próxima gestão. Ele está presente em projetos importantes e delicados, como as séries de CD lançadas pela Secult, dentre as quais A Música e o Pará e o álbum Belém da Saudade, ou a reforma de espaços como o Teatro Waldemar Henrique, mas não passou desapercebido o tom de auto-elogio e a arrogância do “nós” – que sabemos fazer, que pensamos assim, que nascemos aqui, que pertencemos a uma elite, política ou econômica, que há de ser melhor, mais capaz, mais culta... Esse tom, muitas vezes áspero, esteve presente em termos absolutamente bizarros e essencialistas, como “paraensismo”, “resgate do amor próprio” e outros. O discurso surgiu claramente do campo das políticas culturais, mas dominou a Funtelpa, outras secretarias, o governo e até mesmo a campanha do candidato derrotado ao governo do Estado.

Comentários

Yúdice Andrade disse…
Vaidade. Arrogância. Eis a essência do PSDB. Basta lembrar que, quando começou a reforma da Praça Frei Caetano Brandão, através do Projeto Monumenta, que é federal, o secretário deu uma declaração pública de que até a estátua da praça estava de cara feia para a obra.
Provava, assim, sua firme convicção de que, se não foi feita por ele, a coisa simplesmente não presta. A idéia em si já é doentia, mas piora quando se lembra quais os fins do Monumenta.
Mas o secretário era, apenas, o segundo em matéria de arrogância. E não havia apenas dois.
Anônimo disse…
A VAIDADE foi tanta que, sem explicação, foram abortados projetos importantíssimos. Lendo o blog do Edyr Augusto - http://edyraugusto.blog.terra.com.br/ - lembrei de alguns até com nostalgia, como a semana de comemoração do Dia Internacional da Dança (29 de abril), da qual participei.
Com o título GUIAS ESQUECIDOS, Edyr detalha os objetivos e formatos dos eventos, incluindo os critérios de participação. Só para lembrar alguns: "O grande evento -PREAMAR" (talvez substituído pelos "grandes" festivais de Ópera), I Mostra de Teatro Amador Sérgio Cardoso, Salão Paraense de Arte Contemporânea (SPAC) e Troféu Edgar Proença.
No post RESUMO DE ATUAÇÃO CULTURAL - http://edyraugusto.blog.terra.com.br/resumo_de_atuacao_cultural - Edyr faz um diagnóstico do estado atual da Secult e elabora propostas interessantes para tirar a cultura paraense da UTI em que se encontra.
Para encerrar, indico o post BIBELÔS BARULHENTOS, um desdobramento do artigo "Bibelôs".
Espero que a virtude da HUMILDADE impere no próximo governo.
Luciane.
hupomnemata disse…
Acho que deviamos fazer uma lista com as dez virtudes desejáveis para a política cultural do PT... Luciane, por que vc não encabeça essa campanha?
Anônimo disse…
Prof. Fábio. Desafio aceito. Será um grande compromisso desenvolver este tema, que vai ser escrito à quatro mãos. O bailarino e coreógrafo Rubem Meireles já se candidatou para esta tarefa. Vou publicar, até o final do mês, uma a uma das virtudes no meu blog.
Abs.
Anônimo disse…
CONVOCAÇÃO

Profº Fábio, você acaba de ser convocado para escrever sobre uma das virtudes. A campanha está crescendo...
Abs.
Luciane.

Ps: desconsidere esta crase do "a quatro mãos".
hupomnemata disse…
Topado, deixe comigo. Seria legal fazer a "muitas" mãos.
Anônimo disse…
Professor, então acho que estamos indo bem. Um dos temas será escrito a cem mãos, de acordo com o blogueiro Pedro Nelito, que ainda não escolheu a virtude.
Já foram escolhidos os temas Modéstia, Interiorização e Idealismo. Depois me diga qual será o seu.
Lu.
www.simplesmentelu.blogs.sapo.pt
Anônimo disse…
Caro mestre Fábio

Tenho de concordar com tudo o que foi dito. Apesar que até houveram alguns trabalhos individualmente bem feitos (como o trabalho de revitalização da rede Cultura, promovida no último mandato) esses geralmente estavam também contaminados com esses pecados citados (a cultura, mesmo revitalizada, continuou servindo a mesma "panelinha" de artistas e inidvíduos).

Espero sinceramente que a situação se reverta no governo petista. Louvável a iniciativa da escrita das 10 VIRTUDES que se espera dele. Gostaria de acompanhar da mesma forma como acompanhei dos 10 PECADOS.

No final das contas só ficou uma dúvida: será que não haviam mais pecados a serem citados ou o 10 é um número mistico e alguns pecados foram deixados de lado em prol do número?

He he he, seja qual for a resposta, isso não alivia os pecados nem compromete seu brilhante texto. Parabéns.
hupomnemata disse…
Oi Taion, 10 é apenas um número místico...
hupomnemata disse…
Luciane, já escolhi minha virtude (quero dizer, a virtude sobre a qual quero escrever he, he...) Vai ser o Bom Senso. Ok?
Anônimo disse…
Profº, adorei a escolha. Bom senso é combina com vc. O Taion bem que podia escolher uma virtude tb... Abs.
Anônimo disse…
Profº Fábio, já temos oito adesões. As já virtudes escolhidas foram as seguintes: Profissionalismo, Interiorização, Vaidade, Compromisso com a Cultura Popular, Modéstia e Investimento Humano. Já publiquei a primeira virtude, Profissionalismo (por Edyr Augusto).
Abs.

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