24 julho 2009

Heranças à Esquerda 4

O Cristianismo revolucionário.

Entender o que chamei, no post anterior, de potencial revolucionário da Igreja significa entender a diferença entre as crenças presentes no mundo onde o cristianismo nasceu e cresceu e a mensagem inovadora trazida por ele. Entender essa diferença significa entender em que medida a doutrina cristã pregava uma revolução social.

As sociedade pré-cristãs, aí incluídas a intersubjetividade presente na Grécia, no Mediterrâneo, na Palestina, no Crescente Fértil, na Ásia Menor e no Egito, tinham algo em comum no que se refere a suas práticas religiosas: a percepção de que a alma não era algo inerente a todo ser, e sim algo em estado bruto ou fugidio, que poderia, no entanto, ser aperfeiçoado, construído, merecido. A esses homens era absolutamente chocante a idéia de que todos os homens teriam alma, de que todos os homens eramn iguais perante Deus, pregação básica e, por tudo isso revolucionária, que o cristianismo trouxe.

Perceba-se que quando digo revolucionário não estou dizendo inovador. A percepção cristã apenas renovava tradições bem antigas, presentes em todo esse espaço geográfico que referi. Como também, aliás, na própria Bíblia, onde salmistas vigorosos pregaram contra o orgulho dos ricos, a vaidade da veleidade e muito odiaram os poderosos e os que muito tinham.

A essência da mensagem cristão é esse comunismo bárbaro, pré-utópico, centrado num mítico e ao mesmo tempo místico nivelamento absoluto de tudo e de todos, gente, mundo, desejo. Um nivelamento de classes e uma uniformização das possibilidades, sempre renovada e garantida pela pregação quase selvagística do ódio aos ricos – que não serão admitidos na ceia do Senhor.

Alain de Benoist, em “Les idées à l’endroit”, 1979, diz que as sociedade antigas compreendiam o cristianismo como uma religião de escravos, ou como uma espécie de contra-cultura. Por isso ela atraia os despossuídos, os insatisfeitos, os renegados. Os primeiros cristãos eram os sem-família, os sem-terra, os profissionais mais injustiçados e dos setores menos elevados da escala de produção. Apisoadores, cardadores, artesãos, escravos. Gente rude e com pouca informação. Hostes de desvalidos, esquálidos, mendigos.

Eu próprio repudio o cristianismo como herança à esquerda. Creio que o mal que fez foi, sempre, muito maior que o bem, e penso que esse cristianismo antigo é apenas uma evidência, não um fato migrável aos nossos dias. No entanto, ele precisa ser conhecido e reconhecido em sua dimensão histórica, e isso vem a ser uma herança.

Nenhum comentário: