14 agosto 2009

Heranças à Esquerda 10

O Marxismo soviético: ...à Nova Política Econômica

...Porém, por volta de 1921, aplacada a guerra civil e consolidado o poder bolchevique, o “Comunismo de Guerra” cedeu lugar a uma experiência antípoda, que também deixaria marcas (heranças, digamos, bem à esquerda) até ressurgir, sob um novo formato, décadas mais tarde, a Nova Política Econômica (NEP).

A NEP foi uma proposta construída por Trotsky no ano de 1920 mas repudiada nesse mesmo ano. No começo de 21 foi retomada por Lênin que a fez ser aprovada no X Congresso do Partido. Seu princípio básico era o seguinte: os camponeses voltavam a ser donos de sua produção; sua obrigação era dar uma determinada parte da produção ao estado, conservando o restante para que pudessem utilizá-lo como capital, a fim de trocá-lo por bens industrializados. Pensada inicialmente para a produção rural, a política foi estendida, logo, para várias indústrias. Outra mudança posterior foi a autorização, dada aos camponeses, de contratarem força de trabalho.

A base do sistema era o retorno do mercado, por meio do qual se pretendia gerar um efeito de estímulo e deixar o estado tranqüilo para que pudesse se dedicar à construção da base industrial ausente no país, ou seja, dedicar-se à construção de um sistema de grandes usinas de carvão, ferro e eletricidade, além de controlar o sistema bancário e financeiro.

Seu efeito imediato foi um aumento vigoroso da produção agrícola. Importante ressaltar que isso só foi possível porque a revolução aboliu os grandes latifúndios e dividiu imensas porções de terra. Porém, o crescimento da produção gerou um entrave curioso: como a produção agrícola crescia muito mais que a produção de bens manufaturados, o país vivenciou uma queda dos preços de certos produtos básicos, como o trigo e a elevação contínua no preço dos bens de consumo. Trotsky chamou essa disparidade de valores de “crise das tesouras”, em referência ao paradoxo verificável na curva de preços dos dois setores.

O efeito foi que os camponeses adotaram uma prática generalizada de poupança, guardavam seus lucros e o surplus da sua produção esperando que os preços baixassem, o que provocou uma carestia imensa nas cidades e uma inflação crescente.

Vários membros do partido comunista consideraram essa situação como uma “exploração dos consumidores urbanos” – e não estavam errados – e esse ambiente, sobretudo após a morte de Lênin, em 1924, ajudou a construir o estado policial stalinista.

Em 1928 a NEP começou a ser substituída pela coletivização forçada dos campos e por um programa de industrialização intensiva. Em 1930 ela foi oficialmente abolida por Stalin. Entravam em cena o modelo da economia planificada e os planos qüinqüenais. Em 1932, à custa da substituição da NEP pela coletivização, começava a grande fome, na Ucrânia, que custaria a morte de 4,5 milhões de pessoas.

Um comentário:

Anonymous disse...

No filme "Stálin", há uma cena dramática, no final daquilo que era a primeira fita VHS, das duas que em estava dividido o filme.
Nádia, filha de Stálin, está viajando de não sei onde para Moscou, de trem, quando em uma estação na zona rural os camponeses estão sendo forçados a migrar. Um senhora chega próximo ao trem e grita para ela: "Vc está indo para MOscou, conte ao tovarish Stálin sobre o que eles estão fazendo conosco, ele não sabe de nada". Quando é alcançada por um soldado que a puxa pelo braço para longe do trem.
Outra cena dramática é o desterro de Tortsky. Mas isso é um outro assunto...