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Heranças à Esquerda 8

O marxismo soviético

A experiência soviética do socialismo real é uma herança pungente, temperada com incredulidade e vergonha, mas também com certa vaidade. Cada um destes qualificativos tem sua razão de ser. Incredulidade para quando nos perguntamos: por que deu errado? Vergonha quando constatamos: deu mesmo errado! E vaidade nas horas em que podemos dizer que certas coisas deram certo.

É preciso ter objetividade dialética quando ficamos incrédulos. Deu errado porque o estado se tornou hipertrofiado, um monstro burocrático fundido a um partido político exclusivista, único. Do outro lado desse monstro de matiz policial, sempre opressor e freqüentemente cruel, estava uma sociedade civil desorganizada e frágil. O resultado disso foi o esvaziamento do espírito alegre e dinâmico dos sovietes. Onde Marx e Engels viam um proletariado organizado, o socialismo real da URSS se tornou a ditadura de uns poucos.

Para se defender, sendo evidente o distanciamento em relação ao modelo marxista, a URSS difundiu fórmulas – como, por exemplo, a noção de “socialismo incompleto” - para caracterizar o regime. Mencheviques e social-democratas cunharam a fórmula “capitalismo de Estado” para explicar o estranho regime stalinista, mas o termo não vingou. Outros termos vigiram: coletivismo burocrático, despostismo industrial, Estado proto-socialista etc.

Essas nomenclaturas interpretavam as peculiaridades do estado policial que foi o stalinismo. E aqui é preciso, em nome de toda a verdade, recuperar os fatos históricos que levaram a URSS se tornar o que se tornou e explicar tudo aquilo que não está no senso comum, que não está na inteligência dos inteligentes e que não está no debate da esquerda mas que é uma herança à esquerda; nossa e essencial.

E esse fato é que o marxismo implementado na Rússia revolucionária precisou, por razões econômicas e políticas, se reinventar. Essas razões se agregam sobre o fato básico de que a revolução internacional não aconteceu. E ninguém veio em auxílio daquele país periférico, como se esperava. E que a Rússia, e logo em seguida a URSS teve que inventar um novo modelo, jamais teorizado, jamais imaginado, para conseguir fazer frente à guerra civil e à guerra européia em simultâneo. E que esse modelo foi algo chamado “substitucionismo”, uma tese espúria, pela qual o proletariado foi substituído pelo partido.

E que esse modelo – espúrio – se tornou a base de um regime vingativo, neurótico e criminoso que foi o stalinismo. Um regime que se apropriou do marxismo para se legitimar e que, em nome dele, deformando-o, vilipendiando-o, se tornou uma das mais atrozes ditaduras do século XX.

E isto, senhores, senhoras, admitamos, ainda que não seja justo – porque acreditamos que o socialismo deve vir junto com a democracia e com a liberdade - é uma herança nossa.

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