12 agosto 2009

Heranças à esquerda 9

O marxismo soviético: Da “economia de guerra”...

O marxismo clássico preconizava que a revolução só poderia florescer num país com o capitalismo já desenvolvido. Somente a acumulação de riquezas, com a sua contradição, representada pela exploração do trabalho, engendrariam as condições necessárias para uma “superação” histórica – a revolução. No entanto, a primeira revolução e a primeira experiência se deram na Rússia, um país tão miserável, bárbaro e periférico que punha à prova a dialética: que dizer de uma igualdade social assentada na pobreza? Que dizer de uma revolução socialista feita por um proletariado frágil?

A noção hegeliana de superação (Aufhenbung) tem um valor especial no arcabouço do materialismo histórico. Porém, como se sabe, a lógica não prognostica a história. Plekhanov, não para excitar os social-democratas, mas já o fazendo, insistia que a construção do socialismo estava além da capacidade de seu proletariado. Lênin, até mesmo ele, mas também Trotsky, viam na revolução russa uma única possibilidade de êxito: o de ela estimular uma seqüência de revoluções da Europa industrializada e, por resultado, um socorro providencial ao país.

Esse pensamento, acentuado pela guerra civil – na qual as “tropas brancas” foram apoiadas pelas forças militares de nada menos que catorze países – materializou a solução emergencial do “comunismo de guerra”, cujos princípios eram o racionamento, a requisição do excedente da produção camponesa e a abolição do interesse privado. Enquanto Marx imaginava a partilha da abundância, a experiência história demandava o controle da escassez. E o socorro internacional não veio. Pior: as potências ocidentais iniciaram um bloqueio econômico que agravou as condições de subsistência. Ao final da guerra civil, em 1921, o país cambaleava à beira do abismo. A fome e a exaustão mataram cerca de cinco milhões de russos nesse ano. São Petersburgo chegou a perder 60% de sua população.

Como disse no post anterior desta série, essa experiência de controle absoluto do estado, que se chamou de “Comunismo de Guerra” e que engendrou o dispositivo político-teórico do “substitucionismo” (sobre o qual ainda voltarei a falar), marcou profundamente o caráter do estado soviético. Porém....

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