Pular para o conteúdo principal

Outra Amazônia 19: O habitus do projeto espoliador 2

Os vários “planos de desenvolvimento regional” que se sucederam foram, na verdade, estratégias para o estabelecimento dessas condições infra-estruturais. Não tinham, portanto, nenhum compromisso com a internalização do desenvolvimento ou da renda e nem, tampouco, com a melhoria das condições de vida da população local. Os exemplos desses “planos de desenvolvimento” são vários. Já em 1945 o I Plano Qüinqüenal da Amazônia (I PQA), administrado pela recém criada Superintendência do plano de valorização econômica da Amazônia (SPVEA) – e que, na verdade, só seriam implementada em 1953 – diagnosticava que a integração da Amazônia ao Brasil não poderia se dar como um movimento “de fora para dentro” – ou seja, na direção região-centro – e que, assim, cabia-lhe a iniciativa de um projeto conseqüente, que envolvesse sistemas de transporte, fluxo migratório e, necessariamente, estabelecimento de zonas de produção agrícola – inicialmente voltadas para o abastecimento interno e, posteriormente, para a exportação e geração de divisas.
Esse projeto fracassou, esbarrado na falta de quadros técnicos especializados na região, mas seus princípios foram incorporados no “Plano de Metas” do governo Juscelino Kubitscheck, por meio do qual foram construídas as rodovias Belém-Brasília e Cuiabá-Porto Velho, marcos simbólicos dessa estratégia de integração e, também, dessa ideologia, que, gradualmente, se instituiu como um consenso nacional, alinhando todas as facções políticas e todos os espíritos em torno do mesmo projeto. O regime militar implementado em 1964 apenas reafirmou essa percepção, tornando a “integração” da Amazônia ao Brasil a prioridade nacional.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Genocídio Yanomami: Bolsonaro não pode escapar

O mundo está estarrecido com com o genocídio Yanomami. As imagens chocantes atravessam o planeta e atestam o que todos já sabiam: houve genocídio. E não há como Jair Bolsonaro não ser imputado por esse crime.  Dados obtidos pela plataforma SUMAÚMA  mostram que, durante o governo Bolsonaro, o número de mortes de crianças com menos de 5 anos por causas evitáveis aumentou 29% no território Yanomami. Foram 570 crianças mortas, em 4 anos, por doenças que têm tratamento. E isso pode não ser tudo, porque o conjunto das terras indígenas em território brasileiro sofreu, ainda de acordo com o Suamúma, um verdadeiro apagão estatístico durante o governo de extrema direita.  O legado de Bolsonaro é um dos mais aviltantes da história do Brasil. Não é de hoje que as terras Yanomami, onde vivem quase 30 mil pessoas indígenas, são agredidas pela especulação do garimpo ilegal, da pecuária ou da cultura do arroz, mas nunca se viu um apoio tão grande do Estado brasileiro a essas atividades....

Comentário sobre o Ministério das Relações Exteriores do governo Lula

Já se sabe que o retorno de Lula à chefia do Estado brasileiro constitui um evento maior do cenário global. E não apenas porque significa a implosão da política externa criminosa, perigosa e constrangedora de Bolsonaro. Também porque significa o retorno de um player maior no mundo multilateral. O papel de Lula e de sua diplomacia são reconhecidos globalmente e, como se sabe, eles projetam o Brasil como um país central na geopolítica mundial, notadamente em torno da construção de um Estado-agente de negociação, capaz de mediar conflitos potenciais e de construir cenas de pragmatismo que interrompem escaladas geopolíticas perigosas.  Esse papel é bem reconhecido internacionalmente e é por isso que foi muito significativa a presença, na posse de Lula, de um número de representantes oficiais estrangeiros quatro vezes superior àquele havido na posse de seu antecessor.  Lembremos, por exemplo, da capa e da reportagem de 14 páginas publicados pela revista britânica The Economist , em...

Solicitei meu descredenciamento do Ppgcom

Tomei ontem, junto com a professora Alda Costa, uma decisão difícil, mas necessária: solicitar nosso descredenciamento do Programa de pós-graduação em comunicação da UFPA. Há coisas que não são negociáveis, em nome do bom senso, do respeito e da ética. Para usar a expressão de Kant, tenho meus "imperativos categóricos". Não negocio com o absurdo. Reproduzo abaixo, para quem quiser ler o documento em que exponho minhas razões: Utilizamo-nos deste para informar, ao colegiado do Ppgcom, que declinamos da nossa eleição para coordená-lo. Ato contínuo, solicitamos nosso imediato descredenciamento do programa.     Se aceitamos ocupar a coordenação do programa foi para criar uma alternativa ao autoritarismo do projeto que lá está. Oferecemos nosso nome para coordená-lo com o objetivo de reverter a situação de hostilidade em relação à Faculdade de Comunicação e para estabelecer patamares de cooperação, por meio de trabalhos integrados, em grupos e projetos de pesquisa, capazes de...