Pular para o conteúdo principal

Heranças à Esquerda 33

Esquerdas Brasileiras 4: O PCB 4 – Fontes teóricas e primórdios
A história do PCB iniciou em 1922. Um grupo de nove militantes reuniu-se na cidade de Niterói, entre 25 e 27 de março, e fundou o partido. Porém, como nada começa por acaso, é preciso referir que a fundação do partido foi um momento de culminância, ou de conseqüência, de uma série de processos que vinham de muito tempo. Um deles era a própria situação de descontentamento de muitos setores da sociedade brasileira em relação ao caráter censitário da república instalada em 1889. O regime substituía o sistema de voto da monarquia por um sistema praticamente análogo. Se antes o critério era a renda, com a república o critério passou a ser a maioridade (21 anos) e a alfabetização em português – essas duas condições associadas a uma série de outros “fatores”: não ser mulher, imigrante, mendigo, soldado, marinheiro, cabo ou sargento.
Outro processo então em curso na sociedade brasileira era o movimento anarquista, hoje um tanto romantizado e que merece ser melhor explicado. Em primeiro lugar, porque os anarquistas, em geral, pregavam a “ação direta”, o que resultava em propostas de abstenção eleitoral e de não militância partidária.
Em segundo lugar, porque, ao contrário de suas matrizes italianas e espanholas, o anarquismo brasileiro era verdadeiramente eclético. Pesavam sobre ele influências que pareceriam insólitas a um europeu da época, mas que se explicam pela evolução intelectual da sociedade brasileira, como o positivismo e a maçonaria. No Rio de Janeiro, em certo momento, o anarquismo chegou a comungar dos ideais de Maurício de Lacerda, político carioca, chefe de gabinete de Hermes da Fonseca que líder comunista. Além disso pesou, sobre o anarquismo, a ideologia nacionalista e muito dos ideais abolicionistas do final do século XIX e isso além daquelas tendências esdrúxulas da política brasileira da República Velha, como o hermismo e o dantismo.
Em síntese, uma mixórdia.
Tudo com impacto convergente sobre o comunismo brasileiro. E se referimos esse começo híbrido é justamente para relembrar que o pensamento de esquerda inicial do PCB foi extremamente rico, justamente porque não era um simples derivativo da III Internacional ou, mais propriamente, do stalinismo.
Nesse sentido cabe lembrar a obra de Octavio Brandão, hoje muito esquecida e que merece ser relida como um verdadeiro clássico da sociologia brasileira. Representando essa percepção híbrida da sociedade nacional, Brandão interpretou o capitalismo brasileiro como a culminância de uma disputa entre um agrarismo arcaico, apoiado pelos interesses coloniais ingleses, e um industrialismo, apoiado pelos norte-americanos. Considerou ainda que poderia ser no interstício dessa disputa que merecia ser pensada e planejada a posição política de um proletariado também ele híbrido, agrário mas também fabril, algo radicalmente diferente do pensamento do PCEUS.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conjunturas I

Um amigo me pergunta se acho que Lula deve ser candidato a presidente, mesmo com a prisão. Respondo que sim, porque não tem sentido ser diferente. Lula não ser candidato seria de uma deslealdade imperdoável do PT para com ele. A pergunta, na verdade, respondo ao meu amigo, é sobre quem deve ser o vice de Lula, porque quase tão certo como Lula ser o candidato do PT, é a possibilidade de que a justiça eleitoral casse a sua candidatura, sendo lógico, nesse caso, que seu vice assuma a cabeça de chapa. E, como sabemos como o bloco golpista joga, eles provavelmente farão isso o mais tarde possível, procurando inviabilizar que o PT chegue ao segundo turno. Nesse cenário, a tendência é que o PT venha com uma chapa “puro-sangue”. Provavelmente com Haddad para vice. Eventualmente com Jacques Wagner ou Patrus Ananias e, um pouco menos provavelmente, com Celso Amorim. Meu amigo, que não é do PT, viu claros sinais de que Lula, naqueles momentos heróicos antes da prisão, te...

Solicitei meu descredenciamento do Ppgcom

Tomei ontem, junto com a professora Alda Costa, uma decisão difícil, mas necessária: solicitar nosso descredenciamento do Programa de pós-graduação em comunicação da UFPA. Há coisas que não são negociáveis, em nome do bom senso, do respeito e da ética. Para usar a expressão de Kant, tenho meus "imperativos categóricos". Não negocio com o absurdo. Reproduzo abaixo, para quem quiser ler o documento em que exponho minhas razões: Utilizamo-nos deste para informar, ao colegiado do Ppgcom, que declinamos da nossa eleição para coordená-lo. Ato contínuo, solicitamos nosso imediato descredenciamento do programa.     Se aceitamos ocupar a coordenação do programa foi para criar uma alternativa ao autoritarismo do projeto que lá está. Oferecemos nosso nome para coordená-lo com o objetivo de reverter a situação de hostilidade em relação à Faculdade de Comunicação e para estabelecer patamares de cooperação, por meio de trabalhos integrados, em grupos e projetos de pesquisa, capazes de...

A publicidade governamental do Governo Jatene, a Griffo, o jornalismo paraense...

Há alguns dias a jornalista Ana Célia Pinheiro, do blog A Perereca da Vizinha  anunciava que começaria uma guerra contra a comunicação do Governo Jatene :  Vamos agora jogar num rítmo novo, com algumas “surpresinhas” – ou vocês não gostam de surpresinhas, “coleguinhas”? “Coleguinhas” é um coloquialismo usado pelos jornalistas de Belém para se referirem, com cinismo, ao cinismo de seus colegas, dos quais não se costuma esperar senão o fogo amigo. Os posts começaram, em seguida, construindo  um perfil de Orly Bezerra , proprietário da Griffo, a agência de publicidade responsável pelo marketing do PSDB no Pará. Hoje, Ana Célia Pinheiro publicou  um post com o levantamento dos repasses de dinheiro público do Governo Jatene para a Griffo : R$ 70 milhões - e penduricalhos, como empregos a parentes. O post também questiona a idoneidade do processo licitatório que levou a Griffo a mais uma situação de dominação das contas da comunicação governamental, no Pará...