04 maio 2010

Heranças à Esquerda 33

Esquerdas Brasileiras 4: O PCB 4 – Fontes teóricas e primórdios
A história do PCB iniciou em 1922. Um grupo de nove militantes reuniu-se na cidade de Niterói, entre 25 e 27 de março, e fundou o partido. Porém, como nada começa por acaso, é preciso referir que a fundação do partido foi um momento de culminância, ou de conseqüência, de uma série de processos que vinham de muito tempo. Um deles era a própria situação de descontentamento de muitos setores da sociedade brasileira em relação ao caráter censitário da república instalada em 1889. O regime substituía o sistema de voto da monarquia por um sistema praticamente análogo. Se antes o critério era a renda, com a república o critério passou a ser a maioridade (21 anos) e a alfabetização em português – essas duas condições associadas a uma série de outros “fatores”: não ser mulher, imigrante, mendigo, soldado, marinheiro, cabo ou sargento.
Outro processo então em curso na sociedade brasileira era o movimento anarquista, hoje um tanto romantizado e que merece ser melhor explicado. Em primeiro lugar, porque os anarquistas, em geral, pregavam a “ação direta”, o que resultava em propostas de abstenção eleitoral e de não militância partidária.
Em segundo lugar, porque, ao contrário de suas matrizes italianas e espanholas, o anarquismo brasileiro era verdadeiramente eclético. Pesavam sobre ele influências que pareceriam insólitas a um europeu da época, mas que se explicam pela evolução intelectual da sociedade brasileira, como o positivismo e a maçonaria. No Rio de Janeiro, em certo momento, o anarquismo chegou a comungar dos ideais de Maurício de Lacerda, político carioca, chefe de gabinete de Hermes da Fonseca que líder comunista. Além disso pesou, sobre o anarquismo, a ideologia nacionalista e muito dos ideais abolicionistas do final do século XIX e isso além daquelas tendências esdrúxulas da política brasileira da República Velha, como o hermismo e o dantismo.
Em síntese, uma mixórdia.
Tudo com impacto convergente sobre o comunismo brasileiro. E se referimos esse começo híbrido é justamente para relembrar que o pensamento de esquerda inicial do PCB foi extremamente rico, justamente porque não era um simples derivativo da III Internacional ou, mais propriamente, do stalinismo.
Nesse sentido cabe lembrar a obra de Octavio Brandão, hoje muito esquecida e que merece ser relida como um verdadeiro clássico da sociologia brasileira. Representando essa percepção híbrida da sociedade nacional, Brandão interpretou o capitalismo brasileiro como a culminância de uma disputa entre um agrarismo arcaico, apoiado pelos interesses coloniais ingleses, e um industrialismo, apoiado pelos norte-americanos. Considerou ainda que poderia ser no interstício dessa disputa que merecia ser pensada e planejada a posição política de um proletariado também ele híbrido, agrário mas também fabril, algo radicalmente diferente do pensamento do PCEUS.

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