25 novembro 2010

Mazelas do ensino nos EUA


Reproduzo artigo de Thomas Friedman sobre mazelas do ensino nos EUA. Via Portal Uol.
Ensino nos EUA vem sendo superado há anos
Thomas L. Friedman
Quando cheguei a Washington em 1988, a Guerra Fria estava acabando e o assunto do momento era segurança nacional e o Departamento de Estado. Se eu fosse um foca hoje, eu ainda assim gostaria de cobrir o epicentro da segurança nacional –mas ele seria o Departamento da Educação. O presidente Barack Obama acertou quando disse que aquele que "nos superar hoje em educação irá nos superar na concorrência amanhã". A má notícia é que há anos estamos sendo superados na educação. A boa notícia é que os municípios, Estados e o governo federal estão contra-atacando. Mas não tenha ilusões. Nós estamos em um buraco.
Aqui estão alguns poucos dados que o secretário da Educação, Arne Duncan, ofereceu em um discurso em 4 de novembro: "Um quarto dos estudantes colegiais americanos abandona a escola ou não se forma no prazo normal. Quase 1 milhão de estudantes trocam as escolas pelas ruas a cada ano. (...) Uma das coletivas de imprensa mais incomuns e sérias de que participei no ano passado foi a divulgação de um relatório por um grupo de altos generais e almirantes da reserva. Esta foi a conclusão atordoante do relatório deles: 75% dos jovens americanos, entre 17 e 24 anos, são incapazes de se alistarem nas forças armadas atualmente porque não se formaram no colegial, possuem ficha criminal ou são fisicamente inaptos". Os jovens americanos atualmente estão empatados no 9º lugar em ingresso no ensino superior.
"Outros povos nos passaram e estamos pagando economicamente um preço imenso por causa disso", acrescentou Duncan em uma entrevista. "Mudança incremental não nos levará até onde precisamos ir. Nós temos que ser muito mais ambiciosos. Temos que ser mais contestadores. Não é possível continuar fazendo as mesmas coisas e esperar resultados diferentes."
Duncan, com apoio bipartidário, deu início a várias iniciativas para energizar uma reforma –particularmente sua competição Corrida ao Topo, dólares federais destinados aos Estados com as reformas mais inovadoras para se chegar aos padrões mais altos. Mas talvez seu maior esforço seja para elevar a profissão do professor. Por quê?
Tony Wagner, um especialista em educação de Harvard e autor de "The Global Achievement Gap", explicou dessa forma. Há três habilidades básicas que os estudantes precisam caso queiram prosperar em uma economia de conhecimento: a habilidade de realizar pensamento crítico e solucionar de problemas; a habilidade de se comunicar de forma eficaz; e a habilidade de colaborar.
Se você olhar para os países que lideram os testes que medem essas habilidades (como a Finlândia e a Dinamarca), uma coisa se destaca: eles insistem que seus professores venham do um terço superior de suas turmas de formandos universitários. Como Wagner colocou: "Eles transformaram o ensino de um trabalho de linha de montagem para um de trabalhador de conhecimento. Eles investiram em peso na forma como recrutam, treinam e apóiam os professores, para atrair e reter os melhores".
Duncan contesta a noção de que os sindicatos dos professores sempre resistirão a essas mudanças. Ele aponta para os novos contratos de "avanço" em Washington, D.C., New Haven e Hillsborough County, Flórida, onde os professores abraçaram padrões mais altos de desempenho em troca de um maior salário para aqueles que exibirem melhores resultados.
"Nós temos que recompensar a excelência", ele disse. "Nós tínhamos medo de falar em excelência na educação. Nós tratávamos todos como componentes intercambiáveis. Basta apenas jogar uma criança na sala de aula e um professor na sala de aula." Isso ignorava a diferença entre professores que estão mudando as vidas dos estudantes e aqueles que não. "Se você realiza um ótimo trabalho com os estudantes", ele disse, "nós nunca poderemos lhe pagar o suficiente".
Esse é o motivo para Duncan estar iniciando uma campanha nacional para recrutar novos talentos. "Nós temos que criar no sistema um ambiente e incentivos para que as pessoas queiram ingressar na profissão. Três países que nos superaram –Cingapura, Coreia do Sul e Finlândia– não deixam lecionar aqueles que não tenham vindo do terço superior de seus formandos. E na Coreia do Sul eles se referem aos seus professores como 'construtores da nação'."
A visão de Duncan é que desafiar os professores a atingirem níveis mais altos –usando dados de desempenho do estudante no cálculo do salário, aumentando a concorrência por meio da inovação e diplomas– não é algo antiprofessor. É levar a profissão muito mais a sério e elevá-la para onde deve estar. Há 3,2 milhões de professores ativos atualmente nos Estados Unidos. Na próxima década, metade deles se aposentará. Como recrutaremos, treinaremos, apoiaremos, avaliaremos e compensaremos seus sucessores "moldará o ensino público pelos próximos 30 anos", disse Duncan. Nós temos que fazer isso direito.
Wagner acha que devemos criar uma academia de West Point para os professores: "Nós precisamos de uma nova Academia Nacional de Educação, seguindo o modelo de nossas academias militares, para elevar o status da profissão e apoiar a pesquisa e desenvolvimento essenciais para a reinvenção do ensino, aprendizado e avaliação no século 21".
São todas boas ideias, mas se quisermos melhores professores, também precisaremos de melhores pais –pais que desliguem a TV e os videogames, cuidem para que a lição de casa seja feita, encorajem a leitura e elevem o aprendizado como a habilidade mais importante da vida. Quanto mais exigirmos dos professores, mais devemos exigir de pais e alunos. Esse é o Contrato para a América que realmente assegurará nossa segurança nacional.
Tradução: George El Khouri Andolfato

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