27 janeiro 2011

A carta de Charles Trocate, do MST, sobre a divisão do Pará

O texto que reproduzo a seguir, escrito pelo companheiro Charles Trocate, um dos coordenadores do MST no Pará, é brilhante. Uma mas mais lúcidas reflexões sobre a divisão do estado do Pará. O texto foi publicado no blog do Hiroshi Bogéa e é, originalmente, uma carta enviada por Trocate ao blogueiro Ribamar Ribeiro Junior:

Companheiro desse tempo!
Charles Trocate
Quando começo te escrever essa carta estou pensando, nesse tempo de estreiteza e leviandade filosófica, a política é um pacto sem sabor, não que assim sempre foi, mais a julgar pela sua oferenda, os homens imaginários perderam a disputa, e o que havia de mais admirável desceu a torre da mesmice e julgados não podemos fazer mais nada?
Penso a distância e isso por conseqüência me faz menos cego, e se me perguntam se quero destronar alguém, engulo a seco a resposta, não tenho nenhum compromisso com o medíocre, das maledicências do poder, só os apoderados podem responder, não tenho poder algum, e isso não me faz menos fraco, mais hoje estou em exílio impelido de buscas que me fazem bem. Não perdi nenhuma batalha porque não está em disputa o que realmente imagino serem as lutas do nosso tempo, da tua e da minha geração. Chega ser enfadonha as afirmações histéricas, da pseudo-burguesia, que de aço e de capim se fartam hoje.
Não tenho paciência para as - rasas - explicações que tomou de assalto o senso e a inteligência das pessoas, e admito que esteja a quem a nossa batalha, mais não posso aceitar que a inteligência da nossa região, seja só isso, um estado de coisas ignorantes, estamos voláteis as mais perniciosas elucubrações, e a direita faz a sua festa, está hegemônica até na quitanda, já passou ilustre por vários salões do baile, indicando uma direção política e intelectual de tacanha uniformidade sempre pronto a defender o obvio e só, e assim do auto da sua –elegância escravocrata- eles anunciam seu programa, um -Estado de Carajás-, transloucada aventura? Não, eles estão falando a verdade e como remédio, porque não entendem de dialética, serve para curar as dores da taxa de lucro dos seus negócios, apenas isso.
Oscar Wilde, num debate sobre a arte, defendeu a importância da arte medíocre, aquela que diverte aos que nada se opõem na construção da humanidade. Porque ele fez isso? Agora só me importa o exemplo. Mais não acredito ser essa vocação, dos que ainda pensam na região, se o incomum é isso, o que faremos contra os mastigadores de plantão, ir a mesma ceia é impossível, deitar na mesma cama nem pensar, construir uma casa cujo alpendre hospedará os pobres são de uma estreiteza sem precedentes, mais não dá para ficarmos dispersos e mudos, assombrados com a engenharia dos tolos, em todo caso essa hegemonia de pilhadores, como diz meu amigo Tito, é um gigante de pé de barro, é só derramar água em sua banca de equilíbrio, e ele vem abaixo, fácil, né?
Durante algum tempo refutei a idéia da criação do Estado de Carajás e hoje estou mais convencido e armado de muitos questionamentos e proposições. Devemos fazer militância contra essa invenção bestial, as razões são muitas, e penso que possível propor uma alternativa ao debate, principalmente porque esse tema divide rebaixando a natureza da questão. Há que considerarmos, os apaixonados que nada sabem dizer em relação, e os que se fazem com o jargão, e há mesmo os chantagistas e oportunistas de discurso vago e sem preâmbulos. Todas essas lástimas estão encasteladas nos seus interesses e não cederão, por quê? Porque o estado de Carajás pode ser uma verdade em outro tempo histórico, que não esse. Mais eles se contentam com uma fábula, dizem lutar a mais de trinta anos por essa providência (?!)
Mais eu diria, esse mito, essa fabula de conotação rasteira e sem altivez não passará. Se um mágico agrada ao publico pela qualidade da sua mágica, os mágicos do Estado de Carajás nada podem oferecer ao publico, algo de mais valor, do que uma mágica de segunda categoria, embora o público ainda, de muito exigente nada tenha. Nunca vi absolutamente algo de sério nesse debate, algo que realmente levasse a sociedade a se manifestar, em todo caso, não vejo absolutamente nada de civilizatório e amplo, que animasse um surgimento de uma força política e moral, uma força dirigente sem vícios e que dotasse o debate de princípios estratégicos (se enganam os que pensam que são), assim prevalece o mesmo, decide as elites e o povo é avisado depois. O programa da criação do “Estado de Carajás” é como organizar uma fazenda, ou uma siderúrgica, porque que não avisam ao povo, que os fazendeiros que querem o estado de Carajás são contra a reforma agrária? Porque não avisam, que os donos de siderúrgicas desmataram até a última árvore para colocar no seu forno, alimentando a sua ganância e criando uma fissura no ecossistema da região irreparável? Porque não dizem que querem ser leais amigos da CVRD, quando ela arrebenta a região com um projeto mineral monopolizador e deveria ser contestada? Porque não dizem que adoram a selvageria desse modelo de barbárie do capital, instalado na nossa região pelos mega-investimentos, e que eles idolatram mesmo sabendo as manhas do santo?
Indiferente ao que eles dizem por que não há nada de sério, tudo feito de uma absoluta empiria, e cada vez mais pirotécnico e que se confrontasse com a realidade, estimulando ela falar algo, se ao menos se possibilitassem uma pesquisa profissional, sem anomalias e sem informações duvidosas, se assim se posicionarem, sugiro que façam apenas uma pergunta aos cidadãos apelidados de – opinião publica-, perguntem se eles estão precisando de mais deputados, governador, prefeito, vereador, juiz desembarcador e o raio que o parta, vão ouvi uma única resposta, - querem dignidade- que esse modelo democrático burguês os priva, pois de tão representativo, representa apenas os interesses alheios as suas necessidades.
Claro, meu caro Ribamar, essa é apenas uma carta entre amigos, sobre esse tema hoje indissociável das nossas posições, e há outras questões a considerar, que agora estou pesquisando para se municiar para debates mais ousados e seguramente mais decisivos, (pois estamos debatendo projetos) o que não me esquivo, apenas quis dizer-te da minha indignação frente aos riscos que corremos dessa empáfia se colocar mais agudizada, o que não descarto. Como sabe estou distante e me faço de muitos momentos e lembranças, também não deixei de viver, de alargar os horizontes, vou desenvolto por esses lugares, aprendendo o possível e celebrando na distancia os amigos e o que importa, podendo um dia desses retornar para onde nunca deveria ter saído à região que teima, se enlutar por essa lógica abrupta aos nossos olhos.
Por ultimo não sou - anexionista - e nem estamos tratando de algo dividido, embora os marcos da integração discordo, o estado já existe na região sobre os seus mais exclusivos interesses, e ele é isso mesmo que estamos vendo, gerente dos interesses tão identificáveis e o resto é balela (não há política pura nesse jogo sem juiz) e nem sou – divisionista - desbundado, o sentido do Pará é mais amplo do que os aloprados dotados de uma visão apequenada imaginam, não sabem nada de história, a nossa encruzilhada é outra, tem mesmo uma outra origem. Só penso e tenho muitas razões para isso, eu e todos aqueles, que estudam, analisam se mobilizam e lutam de que a pauta da criação do Estado de Carajás é tão atrasada quanto ao modelo de concentração de riqueza na grande região Carajás, esse binômio, - progresso e desenvolvimento- não se realiza sobre as marcas desse atual e inóspito capitalismo tardio, reivindicado a quatro patas e a forno de carvão, capitaneados por uma vulgar extrema direita, sinceramente, analisando a conjuntura histórica, esse tempo ainda não é o seu lugar. A Plataforma urgente, ainda que mínima é outra e não virá desses predecessores do risível, fico feliz, pelo menos isso desafia a tosca vontade em voga, aprendi que na fronteira nada está decidido, tudo está em disputa, é ai que estou, pode acreditar, impávido. Sei, nasci numa região que a política não pensa, é embrutecida desde sempre, aliás, é extinguível o seu valor, desde que ela pergunte, questione e se auto-gestione.
Tenho acompanhado a sua batalha diária reivindicando mesmo um lugar para o debate, a sua disposição e camaradagem, que fere os hipócritas e animam os que estão distante. Obrigado!
Abraços por dias melhores
Charles Trocate
Dezembro, ultimo dia do ano de 2.009

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