Pular para o conteúdo principal

Parece que é preciso mudar a política de assentamentos rurais

Dados, coletados no final do ano passado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e apresentados durante a reunião ministerial que debateu as propostas do governo Dilma para a erradicação da miséria revelam que 38% do total de 924 mil famílias já instaladas em assentamentos da reforma agrária não conseguem obter com seu trabalho sequer um salário mínimo por mês. 

Esses números colocam em cheque o modelo de reforma agrária do governo. Ao menos, indicam a necessidade de particularizar o modelo conforme o espaço geográfico onde estão os assentamentos. É que a pesquisa também indica que a pobreza se concentra de maneira dramática nas regiões Norte e Nordeste: do total de 38% de famílias em condições de pobreza nos assentamentos, 95% se encontram nessas duas regiões.

A dúvida é: vale a pena investir em novos assentamentos, tal como reivindicam os movimentos de sem-terra e defendem especialistas do Desenvolvimento Agrário?

Obviamente é preciso encontrar modelos práticos de inclusão, mas a resposta está na compreensão econômica das peculiaridades locais. O financiamento, o crédito rural, por exemplo, para a agricultura familiar, na Amazônia, precisa sintonizar melhor com as práticas locais de agricultura familiar - e, ainda por cima, levar em conta as especificidades mezoregionais e micro.

Outro ponto a poesar é que é preciso investir num modelo que "ensine" a Amazônia para os novos amazônidas. 400 mil famílias foram trazidas para a região Norte entre 1995 e 2010. Isso representa 43% de todas as famílias assentadas do país. É obvio que o bioma amazônico tem pecualiaridades com as quais essas pessoas não estão habituadas. Ou seja, é preciso investir seriamente em educação nos assentamentos, mas não qualquer educação: uma educação feitas por agentes locais.

Reproduzo abaixo um gráfico do Estado de S. Paulo feito com base no relatório do Incra. O gráfico sintetiza a situação da pobreza nos assentamentos rurais brasileiros:


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Genocídio Yanomami: Bolsonaro não pode escapar

O mundo está estarrecido com com o genocídio Yanomami. As imagens chocantes atravessam o planeta e atestam o que todos já sabiam: houve genocídio. E não há como Jair Bolsonaro não ser imputado por esse crime.  Dados obtidos pela plataforma SUMAÚMA  mostram que, durante o governo Bolsonaro, o número de mortes de crianças com menos de 5 anos por causas evitáveis aumentou 29% no território Yanomami. Foram 570 crianças mortas, em 4 anos, por doenças que têm tratamento. E isso pode não ser tudo, porque o conjunto das terras indígenas em território brasileiro sofreu, ainda de acordo com o Suamúma, um verdadeiro apagão estatístico durante o governo de extrema direita.  O legado de Bolsonaro é um dos mais aviltantes da história do Brasil. Não é de hoje que as terras Yanomami, onde vivem quase 30 mil pessoas indígenas, são agredidas pela especulação do garimpo ilegal, da pecuária ou da cultura do arroz, mas nunca se viu um apoio tão grande do Estado brasileiro a essas atividades....

Comentário sobre o Ministério das Relações Exteriores do governo Lula

Já se sabe que o retorno de Lula à chefia do Estado brasileiro constitui um evento maior do cenário global. E não apenas porque significa a implosão da política externa criminosa, perigosa e constrangedora de Bolsonaro. Também porque significa o retorno de um player maior no mundo multilateral. O papel de Lula e de sua diplomacia são reconhecidos globalmente e, como se sabe, eles projetam o Brasil como um país central na geopolítica mundial, notadamente em torno da construção de um Estado-agente de negociação, capaz de mediar conflitos potenciais e de construir cenas de pragmatismo que interrompem escaladas geopolíticas perigosas.  Esse papel é bem reconhecido internacionalmente e é por isso que foi muito significativa a presença, na posse de Lula, de um número de representantes oficiais estrangeiros quatro vezes superior àquele havido na posse de seu antecessor.  Lembremos, por exemplo, da capa e da reportagem de 14 páginas publicados pela revista britânica The Economist , em...

Solicitei meu descredenciamento do Ppgcom

Tomei ontem, junto com a professora Alda Costa, uma decisão difícil, mas necessária: solicitar nosso descredenciamento do Programa de pós-graduação em comunicação da UFPA. Há coisas que não são negociáveis, em nome do bom senso, do respeito e da ética. Para usar a expressão de Kant, tenho meus "imperativos categóricos". Não negocio com o absurdo. Reproduzo abaixo, para quem quiser ler o documento em que exponho minhas razões: Utilizamo-nos deste para informar, ao colegiado do Ppgcom, que declinamos da nossa eleição para coordená-lo. Ato contínuo, solicitamos nosso imediato descredenciamento do programa.     Se aceitamos ocupar a coordenação do programa foi para criar uma alternativa ao autoritarismo do projeto que lá está. Oferecemos nosso nome para coordená-lo com o objetivo de reverter a situação de hostilidade em relação à Faculdade de Comunicação e para estabelecer patamares de cooperação, por meio de trabalhos integrados, em grupos e projetos de pesquisa, capazes de...