16 março 2011

Dramas de volubilidade do DEM 2


Publicado hoje no jornal Valor:
Ana Paula Grabois e Cristian Klein
Recurso político dos mais valiosos, o tempo de propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV tornou-se um dos maiores nós na criação de uma nova legenda pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM).
O prefeito tenta convencer correligionários a saírem do DEM para a nova sigla – provisoriamente batizada de Partido da Democracia Brasileira (PDB). Mas, antevendo o reduzido tempo disponível no rádio e na TV, políticos de olho nas eleições municipais de 2012 dão sinais de que podem refugar.
As chances eleitorais no pequeno partido dependeriam diretamente da capacidade de fazer aliança com uma legenda média ou grande. Simulação feita pelo Valor mostra que a coligação entre o PDB e o PSB – considerada o primeiro passo para uma posterior fusão das duas siglas – daria ao partido de Kassab, no mínimo, cerca de meio segundo a mais a que o DEM teria direito. Seria praticamente trocar seis por meia dúzia.
Por esse cálculo, o PDB teria 21,4 segundos relativos à divisão igualitária de um terço do horário eleitoral (10 minutos). O PSB, que elegeu 34 deputados federais no ano passado, teria ainda mais 1min19s, relativos à divisão proporcional dos dois terços restantes (20 minutos) entre os partidos com representação na Câmara – totalizando 1min40s6. Juntos, PDB e PSB ficariam com 2min02s. O DEM teria 2min01s6 (sem a criação de um 28º partido, o Democratas disporá de, no mínimo, 2min02s4, e o PSB, de 1min41s4).
Esse cálculo, contudo, leva em conta um cenário improvável, em que todos os demais partidos lançassem nomes próprios. Na última eleição municipal em São Paulo, 11 legendas ou coligações apresentaram candidatos. Caso o número se mantenha em 2012, o tempo mínimo para um partido sem representação na Câmara – como o novato PDB – subiria para 54,5 segundos, o que aumenta o cacife do partido do prefeito. Nesta situação, a diferença entre PDB/PSB e DEM chegaria a 34 segundos.
Mesmo assim, a escassez de tempo de propaganda e a incerteza da aliança com o PSB estão afastando políticos do DEM antes favoráveis ao projeto da nova sigla. Somente no Estado de São Paulo, estima-se que 70% dos 75 prefeitos do DEM desistiram e vão permanecer na legenda.
Outro ponto considerado pelos desistentes do DEM paulista é o viés governista do PDB. A nova sigla sai da esfera do PSDB e se aproxima do governo federal e do PT, o que atrapalha os planos de prefeitos ou pré-candidatos já aliados ao governo tucano de Geraldo Alckmin no Estado.
Até a bancada de São Paulo do DEM na Câmara abandonou o prefeito. Kassab ajudou a emplacar cinco dos seis deputados federais do Estado eleitos pelo DEM e agora só conta com o apoio de Guilherme Campos.
Kassab começou a se movimentar depois das eleições de 2010. Primeiro, tentou convencer o DEM a fundir-se com o PMDB. Sem sucesso, travou conversas com o PMDB para apenas migrar do DEM com seu grupo. A negociação não foi para frente porque o prefeito desejava o comando do PMDB de São Paulo, abrindo embate com o vice-presidente, Michel Temer.
Depois, apareceu o PSB. Inicialmente, a ideia era fazer uma fusão após a fundação do PDB, de modo a fugir da regra de fidelidade partidária. Com receio da interpretação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre o tema, agora a intenção é fundar o partido para fechar coligações em 2012.

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