17 março 2011

'Parte do Japão pode ficar inabitável por 300anos'

Na avaliação de Edmund Lengfelder, do Instituto Otto Hug de Munique, que estuda os efeitos de Chernobyl há mais de 20 anos, o pior cenário da tragédia nuclear japonesa, a fusão do núcleo dos três reatores, já ocorreu ou está ocorrendo. Ele acha que a situação está descontrolada e deu grau sete para o acidente nuclear. Considera que a densidade demográfica no Japão, 20 vezes maior do que a da região de Chernobyl, tornará esse acidente mais grave do que aquele ocorrido há vinte e cinco anos; os reatores japoneses "têm muito mais material radioativo e o mantêm por mais tempo que o de Chernobyl". Ele vê perigo em "todos os países com usinas nucleares, inclusive o Brasil", acha curto o raio de distância de 30 quilômetros, para a retirada da população e diz que "a região ficará inabitável por até 300 anos".

Como o senhor avalia a situação em Fukushima?
EDMUND LENGFELDER: É dramática! Na minha opinião, já ocorreu ou está ocorrendo a fusão do núcleo dos três reatores, ou seja, a pior crise possivel. As informações têm sido contraditórias porque o governo quer evitar o pânico. O Japão não tem uma politica de informação muito mais transparente do que a União Soviética na época de Chernobyl, há quase 25 anos. Mas os japoneses têm muitos problemas paralelos, com o terremoto, a tsunami e a crise nuclear.
As autoridades japonesas estão ainda tentando esfriar o reator com água do mar. A medida pode ter efeito?
LENGFELDER: Não acho que vá funcionar, a situação está descontrolada.
A Agência Internacional de Energia Atômica deu à gravidade da situação em Fukushima grau quatro em uma escala até sete. O senhor concorda?
LENGFELDER: Eu diria que o grau de gravidade da situação no Japão é de sete. Em 1991, a agência anunciou que não havia nenhum problema de saúde em consequência da explosão em Chernobyl, mas já foi provado que a ocorrência de câncer de tireoide entre crianças que viviam na região era 30 vezes maior do que antes do desastre.
Se acontecer a fusão do núcleo, quais as consequências?
LENGFELDER: Isso depende de muitos fatores. Mas a densidade demográfica no Japão é 20 vezes maior do que a da região de Chernobyl (na Ucrânia, perto da fronteira com a Bielorrússia). Além disso, os reatores como os do Japão têm muito mais material radioativo e o mantêm por mais tempo que o de Chernobyl, que era usado principalmente na produção de plutônio para a indústria armamentista. Ao ser liberado, libera também muito mais partículas radioativas na atmosfera. Isso faz com que o perigo de Fukushima seja muito maior.
A queda de um avião ou um atentado terrorista em uma usina nuclear poderia causar o mesmo?
LENGFELDER: Sim. Com esse perigo precisam contar todos os países com usinas nucleares, inclusive o Brasil.
Uma das medidas tomadas pelo Japão foi a retirada da população de um raio de 30 quilômetros. Essa distância é segura?
LENGFELDER: Eu acho curta demais. No caso de Chernobyl, foi estabelecida uma zona proibida de 30 quilômetros ao redor do reator. Mas, cinco anos depois, foi descoberto que uma região da Bielorrússia, a 140 quilômetros, tinha recebido radioatividade.
Se houver o pior desastre nuclear possível, por quanto tempo a região ficará inabitável?
LENGFELDER: Apenas as medições poderão dizer. Em geral, calcula-se um tempo comparável a dez vezes a meia-vida do estrôncio e do césio, que é de 30 anos. Quer dizer, a região ficará inabitável por até 300 anos, previsão que é grave, sobretudo para um país com uma densidade demográfica como a do Japão. 


Reproduzido de O Globo.

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