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35 anos do curso de Comunicação Social da UFPA

Artigo da prof Rosaly Brito publicado na edição de maio do jornal Beira Rio, que acabou de sair, conta o começo do curso de comunicação da UFPA, há 35 anos:

35 anos do curso de Comunicação Social
Rosaly Brito 
O ano era 1976. Na esteira do que ficou conhecido como o boom das Escolas de Comunicação no País, surgia, na Universidade Federal do Pará, o primeiro curso de Comunicação Social do Estado e o segundo da Amazônia Legal, com habilitações em Jornalismo e Publicidade e Propaganda. Durante duas décadas, foi o único centro formador de comunicadores no Pará. Só cinco anos depois, o curso veio a ser reconhecido pelo MEC, motivo de muitas lutas por parte dos alunos ante a insensatez do Regime Militar implantar um curso sem reconhecimento oficial e com condições muito precárias de funcionamento. 
O contexto do Brasil quando o curso foi criado, porém, explicava quase tudo. Somente oito anos separavam seu nascimento do AI-5, que suprimiu as liberdades políticas no País e instaurou o Regime de Exceção, instituindo a censura prévia à imprensa. O Regime disseminou a ideia de que o Brasil vivia ameaçado por uma subversão permanente, que justificava o arbítrio permanente. Seis meses antes do ato que criou o curso de Comunicação no Pará, em agosto de 1975, o presidente Ernesto Geisel afirmara em discurso que "os órgãos de segurança acompanham atentamente a infiltração comunista em órgãos de comunicação". Logo depois, o jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, foi morto nas dependências do DOI-CODI. Outro porta-voz do Regime, o deputado federal Minoro Myamoto (Arena-PR), chegou a afirmar que "os jornalistas não passam de fomentadores de boatos com o objetivo de criar um clima de tensão", atribuindo às redações dos principais jornais do País a criação da "crise política". 
Foi justo neste clima de completo obscurantismo que os cursos de Comunicação se multiplicaram, o que só à primeira vista parece paradoxal. Tratava-se de procurar adequar a formação dos futuros profissionais, ainda que de forma precária, às exigências de um mercado em franca expansão, o dos meios de comunicação de massa, sob a tutela da ideologia educacional do Regime. É sempre bom lembrar que, a despeito da fúria da censura contra a imprensa e as artes, foi o mesmo Regime Militar que patrocinou não só o surgimento da TV Globo, como também o de um sistema nacional de telecomunicações, investindo maciçamente na criação de um sistema de comunicação e de entretenimento de massas o qual desviasse a atenção da sociedade do que estava acontecendo de fato no País. 
É útil rememorar tudo isso, pois esses fatos marcaram profundamente não só a história do curso de Comunicação, mas também a de toda a universidade, e seus desdobramentos ainda hoje ecoam. Este olhar em retrospecto, quando o curso de Comunicação do Pará completa 35 anos, permite valorizar a ousadia de ele ter resistido aos problemas que marcaram sua origem e buscado sua afirmação como centro formador e produtor de um pensamento crítico sobre a comunicação na Amazônia. Muito se caminhou de lá até aqui. Além do investimento maciço feito para qualificar a formação na graduação, no ano passado, outro passo importante foi dado com a implantação do Mestrado em Comunicação, Cultura e Amazônia, o primeiro programa stricto sensu do Estado e o segundo na região. Isso significa dizer que, além de publicitários e jornalistas, começam a ser formados pesquisadores em Comunicação na Amazônia. 
Ao longo da existência do curso, o mundo assistiu a um reordenamento sem precedentes no âmbito da Comunicação, a ponto de estarmos imersos, hoje, em uma ordem midiática que envolve, de maneira cada vez mais complexa, a vida social e política em escala global. Mais que nunca, e também pela posição estratégica ocupada hoje pela Amazônia na geopolítica global, é preciso produzir conhecimento sobre as questões comunicativas, as quais se entrelaçam com as de ordem cultural, social, política e econômica regionais. Pensar as questões da comunicação que nos dizem respeito diretamente a partir do nosso lugar de fala. Não fosse por mais nada, isso já seria motivo de sobra para celebrar essa frutífera história de três décadas e meia. 
Rosaly Brito é professora da Faculdade de Comunicação desde 1985 e integrante da terceira turma do curso.

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