08 maio 2011

O declive social-democrata

Reproduzo artigo publicado hoje nem O Globo. Acho que há certa simplificação do tema do "fabuloso balcão de recompensas do governo" e do processo político das esquerdas social-democratas da Europa, mas é uma análise interessante e ajuda a entender o processo de implosão do PSDB e do DEM.

O declive social-democrata

Gaudêncio Torquato
A pergunta é intrigante: como se explica o fato de um partido que administra 8 Estados, detentores de 50% do Produto Interno Bruto do país, com uma população de 64,5 milhões de habitantes e um eleitorado correspondente a 47,5% dos eleitores, padecer a maior crise de sua história?
O partido é o que empunha a bandeira da social democracia e adota um tucano como símbolo, o PSDB. A fogueira consome a lenha do partido acumulada ao longo de 23 anos de história. Bombeiros correm para apagar o fogo alegando se tratar de um foco de incêndio isolado e devidamente controlado.
Essa é a resposta do presidente da sigla, deputado Sérgio Guerra (PE), para quem a tensão entre alas tucanas em São Paulo não indica crise, “nem qualquer quebra de ética”, apenas divergências entre correligionários, ao se referir a saída de vereadores do PSDB que entraram no PSD, criado pelo prefeito Gilberto Kassab.
A verdade, porém, é que os tucanos nunca se haviam bicado de forma tão violenta quanto nesses tempos de “guerra de guerrilha” entre alas divergentes. A querela assume importância extraordinária por se desenvolver no seio do PSDB paulista, o maior do país, tendo, portanto, reflexos sobre os pleitos de 2012 (municipal) e 2014 (estadual e federal).
Os grupos liderados por José Serra e Geraldo Alckmin há muito se bicam. Serra, ao chegar ao governo em 2006, depois de entregar a Prefeitura ao vice, Kassab, teria desmontado estrutura do antecessor Alckmin. E este, disputando a prefeitura contra Kassab, em 2008, não teria recebido apoio serrista.
As duas aves fazem vôos paralelos. Ao retomar, agora, o comando da administração paulista, diz-se que Geraldo dá o troco com juros e correção monetária. Apesar de acenos públicos de integração de propósitos, a cisão entre eles é evidente. Nem intervenções pontuais do tucano-mor, ex-presidente Fernando Henrique, conseguem repor a harmonia na sigla que tem dificuldades em administrar os 44 milhões de votos obtidos no último pleito.
O partido da social democracia parece perdido. Mesmo dominando os dois maiores colégios eleitorais – São Paulo e Minas Gerais e tendo ainda Paraná e Goiás, dois enclaves fortes –, o PSDB atravessa um ciclo de intensa obscuridade seja por falta de comando, seja por obsolescência de discurso, desmotivação das bases e desunião de grupos.
A falta de comando tem que ver com a hegemonia paulista. Para compensar o peso de São Paulo, o partido passou a escolher dirigentes do Nordeste, como Tasso Jereissati e Sérgio Guerra. Imaginava-se que a região, que detém perto de 30% do eleitorado nacional, poderia ser contrapeso ao Sudeste, onde os tucanos têm alcançado boas vitórias desde a criação do partido.
O PSDB, porém, não conseguiu equalizar as densidades eleitorais e a “paulistanização” tucana virou marca. Ademais, pesa sobre a sigla a insinuação de ter muito cacique e pouco índio. E, ainda, que é distante das bases. 
Já as mais fortes classes médias, as mais poderosas entidades e contingentes laborais que vivem em São Paulo se ressentem da falta de um discurso consentâneo com suas expectativas.
Que fonte categorizada do partido pode exprimir algo e merecer respeito? Fernando Henrique, sem dúvida. Mas bate o bumbo sozinho. Tentou mostrar o fio da meada ao partido e recebeu escasso apoio. Afinal, qual é a mensagem do partido? Ou está ele engolfado pela onda que afoga os partidos sociais- democratas em todo o mundo?
Vale lembrar que, ao ser concebida, a social democracia brandia como escopo o estabelecimento do estado de bem estar social, (baseado na universalização dos direitos sociais e laborais e financiado com políticas fiscais progressistas), e no aumento da capacidade aquisitiva da população.
Esta meta tinha como alavanca o aumento dos rendimentos do trabalho e a intervenção do Estado nas frentes de gastos e regulação de atividades-chave para a expansão econômica. Mas, a partir dos anos 70/80, os partidos social democratas passaram a incorporar princípios neoliberais e estes impregnaram a ideologia dominante da União Européia. Portanto, a doutrina social democrata ganhou novos contornos na esteira da globalização.
As siglas mudaram, transformando suas bases eleitorais (categorias trabalhadoras) em classes médias, mais conservadoras e com maior acesso ao capital financeiro. Tony Blair, na Inglaterra, Schroeder e Ângela Merkel, na Alemanha, Zapatero, na Espanha, e outros deram efetiva contribuição para moldar a social democracia com a solda neoliberal.
O Brasil ingressou nessa rota. O ideário dos partidos de esquerda, a partir do PT, arquivou os velhos jargões da “sociedade de exploração capitalista, Estado-burguês, classe dominante, submissão a interesses do capital financeiro”.
Hoje, as teias sociais estão sendo bem costuradas, programas de distribuição de renda passaram a frequentar as mesas de todos os núcleos, a ideia de extinguir a miséria continua acesa, mas a receita do “velho socialismo” aparece de forma esporádica e, mesmo assim, sujeita à apupos. Se o PSDB se ressente da ausência de discurso é porque seu tradicional menu foi repartido por outros comensais.
Tocar corneta sobre os buracos da obra governamental – como tem sido prática de partidos de oposição - não tem a mesma significação que a construção de um projeto estruturante para a realidade brasileira. A crise que consome o PSDB pega parceiros como o DEM.
É sabido que os exércitos oposicionistas sofrem a síndrome da atração fatal provocada pelas “tetas do Estado”. Moeda forte, economia em expansão, escudo de proteção às beiradas sociais, Caixa do Tesouro locupletada – funcionam como um buraco negro que atrai as massas que giram redor.
Poucos resistem ao fabuloso balcão de recompensas do governo. Daí a devastação das frentes de oposição. Por fim, a fragmentação dos partidos e a desunião de atores e parceiros fazem parte de uma política cada vez mais sem graça e plena de desgraças.
Gaudêncio Torquatojornalista, é professor titular da USP e consultor político e de comunicação Twitter @gaudtorquato

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