Pular para o conteúdo principal

Opinião do blog: O capitalismo à brasileira: pequeno e medíocre, que rejeita a expansão industrial e a geração de empregos em troca de vantagens estaduais.


O Governo Federal se movimenta para conter a guerra fiscal dos portos brasileiros. Atualmente, dez estados da federação concedem estímulos à importação de bens industriais por meio da redução na arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Quando esses bens se espalham pelo país, os estados de onde partem – ou seja, onde se localizam os portos pelos quais entraram no país – ganham na arrecadação de ICMS. Essa operação impõe à indústria nacional uma competição predatória.

A intenção do Governo Federal é reduzir o valor do ICMS cobrado nas operações interestaduais. A maior parte do imposto passaria a ser cobrada no destino. Com isso, deixa de ser vantajoso a importação de bens industrializados. É uma medida honesta.

Porém, ao que parece, forças mais altas estão se levantando. Ao que parece.

É que os estados mais industrializados, que, a princípio, deveriam aplaudir essa mudança, pois suas indústrias seriam fortalecidas, estão cobrando, ao Governo, uma, digamos assim, compensação. Barganham a troca do indexador das dívidas estaduais com a União e a redistribuição do Fundo de Participação dos Estados (FPE).

Isso não é justo. Apenas aumentaria o hiato regional brasileiro e a exclusão federativa.

Por que fazem isso? Porque a guerra fiscal envolve mais que o incentivo à importação. Também envolve a concessão de benefícios para atração de investimentos. Esses benefícios são ilegais. Mas todos os estados praticam. Um abuso que nunca foi, realmente, combatido pela justiça brasileira.

A mudança na alíquota do ICMS interestadual deve contribuir, também, para democratizar a expansão industrial no país. Sem o constrangimento da guerra fiscal, as vantagens competitivas, para as indústrias, passam a ser calculadas em termos de infra-estrutura, disponibilidade e qualificação de mão-de-obra e acesso a matérias primas. O que, aliás, é normal. Com isso, amplia-se a possibilidade do crescimento industrial de regiões menos centrais.

Ocorre que, na visão dos estados industrializados, se uma fábrica se instalar na Amazônia, por exemplo, e seus produtos forem destinados a São Paulo, por exemplo, a maior parte do ICMS será cobrada pela Fazenda paulista. A lógica inicial se inverte.

Ocorre que até aí está-se no campo da plena normalidade. Trata-se, afinal, do funcionamento mais ponderado do capitalismo: uma lógica de expansão concorrencial.

O que não está certo é essa guerra que os estados ricos estão fazendo, na surdina, e que, em função da aridez do tema, a opinião pública brasileira mal consegue acompanhar.

É o capitalismo à brasileira: baseado em pactos de compensação.

A barganha proposta pelos estados ricos é danosa para a federação e pala o Governo Federal. Há muitos anos esses estados pedem a mudança do indexador das dívidas com a União, um valor estabelecido no fim dos anos 90, quando o Governo negociou o refinanciamento das dívidas estaduais e municipais.

Nesse momento, acordou-se que as dívidas seriam corrigidas a partir da variação do Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI), calculado pela Fundação Getúlio Vargas. Nesse indicador, os preços por atacado constituem o principal componente: um peso de 60%. Naquele momento, isso era vantajoso para os estados e municípios, mas, nos últimos anos, as cotações internacionais das matérias-primas (incluídas no cálculo do atacado) fizeram o IGP-DI subir mais que outros índices de inflação.

Isso não tem nenhuma relação com a mudança que o Governo quer fazer na alíquota do ICMS interestadual. Nenhuma relação. Mas está sendo objeto de barganha: é o capitalismo à brasileira, um pensamento pequeno e medíocre, que rejeita a expansão industrial e a geração de empregos em troca de vantagens estaduais desoneratórias.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Genocídio Yanomami: Bolsonaro não pode escapar

O mundo está estarrecido com com o genocídio Yanomami. As imagens chocantes atravessam o planeta e atestam o que todos já sabiam: houve genocídio. E não há como Jair Bolsonaro não ser imputado por esse crime.  Dados obtidos pela plataforma SUMAÚMA  mostram que, durante o governo Bolsonaro, o número de mortes de crianças com menos de 5 anos por causas evitáveis aumentou 29% no território Yanomami. Foram 570 crianças mortas, em 4 anos, por doenças que têm tratamento. E isso pode não ser tudo, porque o conjunto das terras indígenas em território brasileiro sofreu, ainda de acordo com o Suamúma, um verdadeiro apagão estatístico durante o governo de extrema direita.  O legado de Bolsonaro é um dos mais aviltantes da história do Brasil. Não é de hoje que as terras Yanomami, onde vivem quase 30 mil pessoas indígenas, são agredidas pela especulação do garimpo ilegal, da pecuária ou da cultura do arroz, mas nunca se viu um apoio tão grande do Estado brasileiro a essas atividades....

Solicitei meu descredenciamento do Ppgcom

Tomei ontem, junto com a professora Alda Costa, uma decisão difícil, mas necessária: solicitar nosso descredenciamento do Programa de pós-graduação em comunicação da UFPA. Há coisas que não são negociáveis, em nome do bom senso, do respeito e da ética. Para usar a expressão de Kant, tenho meus "imperativos categóricos". Não negocio com o absurdo. Reproduzo abaixo, para quem quiser ler o documento em que exponho minhas razões: Utilizamo-nos deste para informar, ao colegiado do Ppgcom, que declinamos da nossa eleição para coordená-lo. Ato contínuo, solicitamos nosso imediato descredenciamento do programa.     Se aceitamos ocupar a coordenação do programa foi para criar uma alternativa ao autoritarismo do projeto que lá está. Oferecemos nosso nome para coordená-lo com o objetivo de reverter a situação de hostilidade em relação à Faculdade de Comunicação e para estabelecer patamares de cooperação, por meio de trabalhos integrados, em grupos e projetos de pesquisa, capazes de...

Comentário sobre o Ministério das Relações Exteriores do governo Lula

Já se sabe que o retorno de Lula à chefia do Estado brasileiro constitui um evento maior do cenário global. E não apenas porque significa a implosão da política externa criminosa, perigosa e constrangedora de Bolsonaro. Também porque significa o retorno de um player maior no mundo multilateral. O papel de Lula e de sua diplomacia são reconhecidos globalmente e, como se sabe, eles projetam o Brasil como um país central na geopolítica mundial, notadamente em torno da construção de um Estado-agente de negociação, capaz de mediar conflitos potenciais e de construir cenas de pragmatismo que interrompem escaladas geopolíticas perigosas.  Esse papel é bem reconhecido internacionalmente e é por isso que foi muito significativa a presença, na posse de Lula, de um número de representantes oficiais estrangeiros quatro vezes superior àquele havido na posse de seu antecessor.  Lembremos, por exemplo, da capa e da reportagem de 14 páginas publicados pela revista britânica The Economist , em...