29 agosto 2011

O futuro dos jornais na economia digital

Reproduzo meu artigo sobre "O futuro dos jornais na economia digital", que o Diário do Pará publicou ontem, na edição de comemoração de seu 29o aniversário. Para constar, a versão que publico aqui no blog é um pouco mais extensa que a publicada no jornal. Precisei cortar uns 2 mil toques dela, a fim de atender ao espaço solicitado pelo Diário.

O futuro dos jornais na economia digital

Fábio Fonseca de Castro
Professor da Faculdade de Comunicação da UFPA

O impacto da internet e das tecnologias da informação e da comunicação sobre a imprensa tem dimensões culturais, políticas e econômicas, todas elas incisivas. Parece evidente que um novo modelo de jornalismo está sendo construído a partir desse impacto. Tentarei destacar uma das suas dimensões – a questão do modelo de negócios da empresa jornalística – para discutir o que seria o jornalismo do futuro, o jornalismo numa sociedade marcada pela convergência digital.

Partamos de um fato material das sociedades atuais: nos países mais desenvolvidos várias empresas jornalísticas estão fechando as portas. Há quem diga que a internet condenou os jornais à morte. Bom, não é simples assim. Em primeiro lugar, esse processo é mais importante nos países ricos, onde há uma maior acessibilidade à internet. No caso do Brasil, tal como outros países em desenvolvimento, o processo ainda deve tardar. Não apenas porque o acesso à internet é precário e caro como também pelo fato de que o crescimento da economia desses países, bem como suas políticas sociais, têm incluído grandes contingentes populacionais nas suas classes médias, o que acaba por aumentar o público leitor. Mais escolaridade e mais dinheiro no bolso significa mais leitores de jornal.

Em segundo lugar, é preciso separar empresa jornalística de jornalismo. Não são a mesma coisa. Ambos são afetados pela cultura digital, mas, se as empresas jornalísticas, ao menos tal como as conhecemos, podem se dizer ameaçadas pela economia da cultura digital, a atividade do jornalismo – embora não sem suas velhas e novas mazelas – resta de fundamental importância para a vida social, à medida em que é por meio do jornalismo que a sociedade pode acompanhar e participar dos debates de seu tempo. Embora a internet provoque transformações profundas no jornalismo, há, nessa atividade, uma tendência de reinvenção latente, algo perceptível quando pensamos no uso que jornalistas estão fazendo de dispositivos como blogs, redes sociais, construtores de gráficos e planilhas, monitores de audiência etc. Já em relação às empresas jornalísticas a situação é outra. Por natureza, elas são empresas conservadoras e, algumas, excessivamente auto-suficientes para aceitar as mutações em curso.

A grande empresa jornalística funciona com base numa equação econômica centrada no fator da escassez. Na escassez da informação, ou melhor, na escassez do acesso aos meios de informação: tem poder quem tem o poder de dizer, de publicar. Como os custos da publicação e da distribuição são elevados, poucas são as grandes empresas de comunicação e, consequentemente, seu poder é imenso.

A internet e as novas tecnologias questionam esse poder pelo fato de que estão baseadas, justamente, na equação contrária: sua lógica é a da abundancia, e não a da escassez: abundancia de acesso à notícia, de instrumentos de informação, de visões e percepções sobre o fato e de possibilidades de publicação e distribuição.

Enquanto as grandes empresas jornalísticas encontram dificuldades para transferir sua tradicional equação de escassez para o cenário atual, a internet possibilita, ao contrário, o surgimento de um numero muito grande de pequenas empresas jornalísticas ou mesmo de ativismos jornalísticos que pautam sua ação econômica numa agenda de abundancia.

Os jornais têm cinco fontes de renda convencionais: a publicidade privada, a publicidade pública, os anúncios individuais (classificados), a venda por assinatura e a venda avulsa. Com a internet todos eles deixam de estar submetidos ao regime anterior da escassez: a renda dos jornais baixa, produzindo reduções salariais, cortes de produção e redimensionamento administrativo. Ou seja, avoluma-se a crise e o jornal tem de optar entre fechar as portas ou reinventar-se.

Qual a solução para as empresas? Há três modelos de negócios sendo experimentados: a publicidade online, os micropagamentos e o financiamento cidadão.

A publicidade online já possui uma gama variada de formatos, dos banners convencionais aos pop ups, passando por gadgets promocionais em redes sociais e por estratégias de marketing viral. O problema é que, sendo a internet baseada na abundancia, o preço do espaço publicitário digital tende a reduzir.

Os micropagamentos funcionariam assim: você abre uma conta e paga alguns centavos pelo que ler, uma forma de pay per read. Tem muita gente empolgada com isso. Pessoalmente acho que não vai dar certo. Por que? Porque a oferta por conteúdo gratuito é muito maior e tende a crescer bem mais, à medida em que as pessoas passam a usar melhor as tecnologias disponíveis. Quem cobra para ser lido acaba sem ser lido.

No financiamento cidadão há uma diversidade de experimentos. Os mais comuns são ONGs e fundações financiando o jornalismo especializado em setores de interesse social, como saúde, educação, ecologia e habitação. Outra forma, menos comum mas que tem crescido bastante nos últimos tempos, é o jornalismo financiado por doações.

Nos EUA os exemplos são vários: O jornalista independente Chris Allbritton, por exemplo, cobriu a guerra do Iraque financiado exclusivamente pelas doações de seus leitores. Suas reportagens eram publicadas no seu blog e repercutiam muito, graças à independência do seu trabalho. Já o blog Talking Points Memo, de grande credibilidade, faz uma campanha de doações de dois em dois anos, logo que termina o processo eleitoral do país. Esse blog mescla o modelo das doações com o da publicidade. Enquanto esta sustenta a manutenção da máquina, as doações permitem investimentos e coberturas mais ousadas.

A passagem de um modelo de escassez para um modelo de abundância faz com que a empresa jornalística atravesse ao menos três mutações: de tamanho, conteúdo e formato. O impacto das novas tecnologias sobre a comunicação é tão grande que, provavelmente, o jornalismo vai precisar ser reinventado. A cultura digital não condena o jornalismo ao fim. Muito pelo contrário. O jornalismo é fundamental para a sociedade e para a democracia, por imperfeito que seja, por omisso que seja. Ela também não condena, necessariamente, a empresa jornalística, conquanto essa empresa saiba adaptar-se à economia da cultura digital, convertendo-se em empresa de informação. O que ela condena ao fim é o modelo de negócios do jornal impresso.

5 comentários:

Andre Marmota disse...

Oi Fabio! Não conhecia seu blog, vim parar aqui graças ao link postado pelo @pedrox. Muito bacana o seu texto, lembra algumas idéias do Chris Anderson, sobre a relação entre escassez, oferta e o "gratuito". A propósito, um quarto modelo, dando continuidade ao raciocínio, estão nos serviços freemium. Acredita que seja possível pensar em algo assim para o jornalismo? Grande abraço, André

Fabio Fonseca de Castro disse...

Olá André,
Sim, esse padrão de serviços é um quarto modelo, de fato. Acho que é válido, é mais uma experimentação interessante. Há pouco, por telefone, um amigo tb me lembrou que há experiências com bonificação (por ex: oferta de descontos sobre produtos anunciados) que estão sendo testadas com certo sucesso. Enfim, a internet permite uma maior criatividade econômica, não é?
Obrigado pela visita e volta sempre.

Anônimo disse...

Bacana, Fábio. Muito oportunas suas reflexões sobre essas mudanças. Li há pouco estudo sobre o peso que o jornal El País passou a dar a sua versão on line e sobre o uso da arte para tornar o jornalismo digital mais atraente. É ótimo ler as notícias e ainda ouvir, assistir, ver fotos... Mas o nó econômico que sustenta tudo isso realmente ainda não foi desatado. Abraço,

João Vital

Fabio Fonseca de Castro disse...

Oi João,
Li tb sobre essas mudanças no El País. É uma tendência, ao que parece. Mas a dimensão econômica ainda tem muito a cobrar a tudo isso. De toda forma, uma batalha longa...
Abraço.

Ana Lucia Prado disse...

Oi Fábio,
Muito bom teu artigo, que vai mesmo em parte ao encontro sobre o que eu pesquiso no doutorado. Sobretudo, esse trecho me chamou bastante atenção: "Os jornais têm cinco fontes de renda convencionais: a publicidade privada, a publicidade pública, os anúncios individuais (classificados), a venda por assinatura e a venda avulsa. Com a internet todos eles deixam de estar submetidos ao regime anterior da escassez: a renda dos jornais baixa, produzindo reduções salariais, cortes de produção e redimensionamento administrativo. Ou seja, avoluma-se a crise e o jornal tem de optar entre fechar as portas ou reinventar-se."
Minhas primeira impressões caminham na direção da reinvenção e quem sabe em algum tempo não mais falaremos em suportes, mas apenas jornalismo. Minha propensão é crer que os grandes jornais já descobriram como ampliar essas fontes de recursos justamente ao agregar mais conteúdos e modelos que casam publicidades na internet + impresso. Negócios casados e flexibilidade de tabelas de preços para grandes anunciantes. Isso tb não impediu que esses mesmos grupos tenham realinhado funções e reajustado quadro de pessoal. Este momento pode ser apenas uma forma transitória de manter os negócios ou uma tendência a se manter - a empresa jornalística - e pq não dizer tb por tabela o jornalismo.
Vou usar teu texto na tese e citarei como fonte o que está no teu blog.
Um abraço.
Ana