É conhecido o pensamento de Paul Ricoeur de que não é possível historiar o presente. Enquanto atores de uma história em curso, não teríamos o distanciamento e a imparcialidade necessários para compreendê-la em suas formas gerais ou perceber nela seus motivos e fundamentos, eventualmente mascarados pelas ideologias, ilusões e perspectivas dominantes em vigor. Estando imersos nesse presente – num tempo que ainda não se constituiu em história – seria, portanto, impossível falar sobre a história. Porém, se não é possível historiar o presente, será possível, certamente, observá-lo e, talvez, intuí-lo. Por intuí- lo pode-se dizer vivenciá-lo, constituí-lo enquanto experiência sensível. Narrá-lo. É nesse sentido que a sociologia compreensiva e fenomenológica que vislumbro converte-se, ainda, numa prática etnográfica: narrar o que nos submerge, resgatando a compreensão – e a intuição – de um todo ainda complexo.
O mundo está estarrecido com com o genocídio Yanomami. As imagens chocantes atravessam o planeta e atestam o que todos já sabiam: houve genocídio. E não há como Jair Bolsonaro não ser imputado por esse crime. Dados obtidos pela plataforma SUMAÚMA mostram que, durante o governo Bolsonaro, o número de mortes de crianças com menos de 5 anos por causas evitáveis aumentou 29% no território Yanomami. Foram 570 crianças mortas, em 4 anos, por doenças que têm tratamento. E isso pode não ser tudo, porque o conjunto das terras indígenas em território brasileiro sofreu, ainda de acordo com o Suamúma, um verdadeiro apagão estatístico durante o governo de extrema direita. O legado de Bolsonaro é um dos mais aviltantes da história do Brasil. Não é de hoje que as terras Yanomami, onde vivem quase 30 mil pessoas indígenas, são agredidas pela especulação do garimpo ilegal, da pecuária ou da cultura do arroz, mas nunca se viu um apoio tão grande do Estado brasileiro a essas atividades....
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