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O que a Campus Party tem a ensinar aos pedagogos e aos burocratas da educação

Ontem aconteceu a palestra de Sugata Mitra na Campus Party. Mitra é professor e pesquisador no Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde investiga relações entre tecnologia e educação. 

Nada mais apropriado, porque a Campus Party chega, em sua 5ª edição no Brasil, com uma grande novidade: o Educaparty, evento que teve sua primeira edição em Valência, na Espanha, e que tem o objetivo de aproximar a educação dos avanços das recentes inovações em tecnologias digitais. 

É óbvio que a educação do futuro terá um componente tecnológico centrado na convergência midiática e digital. É óbvio mas não tanto assim, infelizmente, para muita gente. 

Quem pensa em educação precisa, neste momento, dar uma espécie da pulo do gato na direção dessa convergênia. 

É hora de ser um pouco louco, meio visionário e usar a criatividade para antecipar esse futuro. Com isso, a educação pode ganhar velocidade, antecipar e maximizar resultados que, no fluxo normal, levariam ainda muitos anos. 

Há 15 anos Mitra desenvolve experimentos que colocam computadores nas mãos de crianças que não têm acesso à escola. Sua conclusão é a de que os computadores e a internet podem promover um novo método de ensino, principalmente em países pobres como a Índia, onde nasceu. 

Dessa experiência, Mitra desenvolveu um lema que assusta a muitos burocratas e ofende a muitos pedagogos, mas que me parece absolutamente límpido e verdadeiro: "Onde não há professores nem escola, deem a eles um bom computador e uma conexão banda larga"

Fico imaginando uma ação mais radical que essa (Mitra permite): dêem um computador, com banda larga, para as crianças que já estão na escola, também; acrescentem tem de conexão obrigatória, ampliando a carga horária; dêem computadores e banda larga para os professores; criem laboratórios de produção de conteúdos e desenvolvam sistemas agregativos de conteúdos. 

Em síntese, tornem a educação contemporânea da tecnologia. Tornem a educação interessante. 

O mundo não para de mudar, e os pedagogos têm que compreender isso. 

Por exemplo: não faz sentido cobrar aos alunos memorização individual (e todas as provas e exames são baseados nisso) se hoje há dispositivos como o pen-drive. Mais que isso, aliás: hoje, a memória possui uma dimensão coletivista e colaborativa, decorrente da sociedade em rede, que antes não existia. A educação precisa compreender e acompanhar essas mudanças. 

Pedagogos, abram sua cabeça. Let’s talk about. 

Querem um exemplo de como vocês estão distante da realidade? 

Releiam a Resolução 2, de 30 de janeiro de 2012 - ou seja, da semana passada - do Conselho Nacional de Educação (CNE), produzida por essa categoria híbrida que resulta da união de pedagogos com burocratas. 

O texto é gongórico. Não será compreendido por ninguém, muitos menos por um aluno. Suponho que não foi feito para ser entendido, e sim para justificar horas de trabalho, mas, convenhamos, como se pode esperar melhoria real na educação se uma resolução sobre a educação escreve coisas como: 

"O projeto político-pedagógico na sua concepção e implementação deve considerar os estudantes e professores como sujeitos históricos e de direitos, participantes ativos e protagonistas na sua diversidade e singularidade". 

Putz. Que texto feio! Inutilíssimo.

E antes fosse somente o texto. O conteúdo do documento cria imagens estranhíssimas, como por exemplo a que diz que o ensino médio brasileiro terá quatro áreas de conhecimento e nove matérias obrigatórias subdivididas em 12 disciplinas. 

Não entendi. 

Pior: em vez de diz disciplina, matéria, curso, simplesmente, o documento prefere chamá-la por seu nome completo: "componentes curriculares com especificidades e saberes próprios construídos e sistematizados".

A Campus Party e, nela, a Educaparty, têm muito a ensinar. Sejamos tecnológicos: mudemos a educação.

Comentários

Marco Gusmão disse…
Veja esses dados publicados no Diário do Pará de hoje:

Na região Norte são 579,6 mil jovens que não estão estudando. A falta de atendimento escolar no Brasil é mais acentuada entre crianças de 4 a 5 anos (1.156.846 estão fora da educação infantil) e jovens de 15 a 17 anos (1.728.015).

Nestas faixas etárias, a pior taxa de atendimento no Pará é no grupo de crianças de 4 a 5 anos. Segundo o estudo, mais de 85 mil crianças estão fora da escola.

O índice de atendimento nesta faixa é de 72,3%, considerado baixo pelos educadores. Os melhores índices no Pará estão na faixa de 6 a 14 anos, com 94,5% desta população tendo acesso à educação.

As taxas de acesso à Pré-Escola em todo o país permanecem em patamares muito mais baixos que os estabelecidos pelas metas do “Todos Pela Educação”.

O Norte do país, em particular, tem a menor taxa de atendimento nesse nível de ensino, com 69,0% das crianças de 4 e 5 anos com acesso aos sistemas de ensino e mais de 201 mil fora da escola.

O atendimento a crianças e jovens de 6 a 14 anos, já se encontra em patamares mais elevados: 96,7% daqueles nesta faixa etária.
Samuel Mota disse…
Fábio,
a revolução pedagógica precisa ser feita urgente, até mesmo porque estamos no século XXI. Mas acho que os neo-pedagogos burocratas ainda não perceberam que esta nova geração é concebida sob a visuaidade e só o processo tecnológico pode proporcionar o avanço do saber, da educação e do aprendizado. Hoje as crianças e jovens apreendem visualizando. Por isso é importante um computador e uma banda larga para todos.
hupomnemata disse…
Marco,
Vi os dados sim. São bem interessantes e indicam alguns caminhos a tomar. Obrigado por atualizá-los aqui no blog.
hupomnemata disse…
Samuel,
Prazer vê-lo aqui, grande amigo,
É isso aí, concordo totalmente. Computador, banda larga e estímulo/técnica para buscar por si mesmo conteúdo bom. Fazer a revolução está nesse tripé, hoje em dia.

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