07 março 2012

O novo livro de Michel De Certeau

Reproduzo uma boa resenha do novo livro de De Certeau. Bem, novo porque foi lançado agora no Brasil, pela primeira vez, mas se trata de uma obra de 1987.


História e psicanálise: entre a ciência e a ficção, de Michel de Certeau. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. Autêntica Editora, 256 pgs. R$ 54.
Por Aline Magalhães Pinto

Vive-se atualmente sob o signo da aceleração do tempo. Algumas coisas, entretanto, permanecem lentas, presas à espera de seu momento de aparição. Com a tradução da coletânea de ensaios de Michel de Certeau intitulada "Histoire et psychanalyse" (1987), em uma edição muito bem cuidada, temos uma rara oportunidade de utilizar com precisão a expressão “antes tarde do que nunca”.
As reflexões de Certeau se caracterizam pelo extremo zelo e atenção reflexiva com que o intelectual trata sua principal atividade: ser historiador. E ao mesmo tempo, toda a obra de Michel de Certeau é sensivelmente marcada pelo interesse em delinear as relações que palavra, escrita, discurso estabelecem com o mundo. Como Luce Giard deixa claro no artigo que introduz a coletânea, a maneira destemida com que Certeau atravessa diferentes áreas do saber (historiografia, psicanálise, etnografia, filosofia, estudos místicos e religiosos, literatura) não implica a tentativa de dissolver os estatutos disciplinares. Pelo contrário, a travessia é alimentada pela aguda consciência da historicidade inscrita nas demarcações que balizam a construção dos saberes que constituem a ampla região antropológica que denominamos como humanidades. Os deslocamentos de um campo para outro são calcados numa concepção do ofício de historiador que não dissocia a prática historiográfica da tentativa de compreensão das condições e efeitos que se relacionam ao exercício de tal ofício.
Um dos traços mais marcantes do trabalho reflexivo de Certeau é justamente introduzir e enfrentar as dificuldades postas pela questão do lugar de produção do discurso historiográfico. Entretanto é preciso notar que, a despeito da pertinência da análise que visa identificar e discutir os lugares de produção e poder a que um trabalho historiográfico se atrela, a simples reconstituição desses lugares é, em termos críticos, insuficiente tanto para dizer a respeito da qualidade de tal trabalho quanto para problematizar a história da historiografia. É precisamente neste sentido que os ensaios reunidos no volume que acaba de ser traduzido – nos quais o autor analisa autores importantes como Foucault, Lacan e Freud abordando verdadeiros enclaves para historiografia do século XX – prestam uma contribuição inestimável, permitindo aprofundar a compreensão da concepção de história de Michel de Certeau.
Já no primeiro ensaio, intitulado História, ciência e ficção, encontra-se a referência ao que, irremediavelmente, estará sempre ligado ao fazer historiográfico: a encenação verossímil de uma efetividade. Nesta encenação, o real representado faz ocultar, por detrás da figuração de passado, o sistema social e técnico que a produz. A relação configurada pelos procedimentos de análise do historiador gera uma tradição, algo que passou e, ao mesmo tempo, permanecerá. O gesto que circunscreve e funda o passado é um corte pelo qual um poder (político, social, científico) pode entender sua exterioridade.
Como discurso a ser produzido na fronteira entre o dado e o criado, a historiografia se estabelece para Certeau como uma mistura entre ciência e ficção, um entremeio que promove “um retorno do passado no discurso do presente”. Heterologia que se movimenta entre os dois polos sem jamais se reduzir ao modo de funcionamento de um ou de outro. Neste ponto sente-se falta de uma elaboração mais sólida, da parte de Certeau, sobre o que ele entenderia por ficção e por ciência. Há certa obscuridade e hesitação do autor na definição destes termos, complexos e “perigosos”, talvez por que em seu entender, para o domínio histórico, ciência e ficção não existam em suas formas “puras” mas tão somente nessa estranha mistura.
Esta historiografia que se desdobra entre ficção e ciência deve configurar o acontecimento como algo que, por um lado, enuncia o presente como um lugar de poder e normatividade e que por outro, anuncia uma estranheza que expressa, no limite da linguagem, a finitude humana. O entremeio entre ficção e ciência é uma questão que se abre sob a dupla forma de facticidade e ausência – questão para a qual não haverá uma resposta mas apenas a constante exigência de pensar: como cumprir a tarefa de conformar uma alteridade sem perdê-la? Este elemento o leva de encontro à psicanálise. A familiaridade entre psicanálise e história desperta uma estranha inquietação. Elas constituem maneiras diferentes de distribuir o espaço da memória. Para Certeau, neste espaço ocorrem duas operações distintas: esquecimento, entendido como uma ação contra o passado, e o traço mnésico, um retorno do esquecido, uma “ação” do passado obrigatoriamente dissimulada. História e psicanálise seriam formas distintas de pensar a relação entre passado e presente, entre o “agora” e o “esquecido”.
A inspiração de Michel de Certeau nasce da tensão entre um esforço de inteligibilidade e a irredutibilidade do passado, entre o apreensível e o ausente da história. A ausência será, portanto, o cerne do saber histórico, sua motivação e razão de ser. Nas reflexões de Certeau, na medida em que as questões da alteridade e das dialéticas temporais seriam inevitáveis para o historiador, o que se põe em causa é a constituição pela qual a historiografia pode se sustentar sobre lugares próprios, específicos, atribuídos ao passado ou ao futuro, justapostos ou religados segundo normas genealógicas.
Talvez essa discussão pareça um tanto quanto ultrapassada ou demasiadamente restrita à cultura historiográfica francesa. É possível ainda afirmar que, de um jeito ou de outro, a historiografia do século XXI transformou em prática corrente boa parte das discussões enfrentadas por Certeau. Contudo, é igualmente verdadeiro que sua contribuição na busca pelo melhor entendimento da construção dos sistemas de referência que balizam o texto historiográfico é de precioso valor para os estudos históricos.
*ALINE MAGALHÃES PINTO é doutoranda em História pela PUC-Rio 

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