22 março 2012

Um dia e duas visões da cultura brasileira

Via Trezentos
Pela manhã 
Ontem, pela manhã, os que estavam conectados à rede assistiram a cenas antológicas e históricas durante a apresentação da Ministra Ana de Hollanda no Congresso Nacional.
Neste link é possível assistir ao conteúdo integral da apresentação da Ministra. 
A irmã de Chico Buarque demostrou, sem nenhuma cerimônia, porque o despreparo de sua administração é “dolorosamente evidente”, como afirmaram intelectuais esta semana, entre os quais Gabriel Cohn e Marilena Chauí. 
Não vou me estender, por hora, mas apenas reproduzir o que ela afirmou sobre a internet, a partir do registro feito pelo Caderno Link, do Estadão, a principal publicação sobre cultura digital da grande mídia brasileira. Segundo notícia postada por Tatiana de Mello Dias, Ana de Hollanda disse no Congresso que a internet pode “matar a cultura”. 
“Hoje em dia a pirataria é feita assim. É copiado através da internet, e isso se multiplica, está sendo distribuído e vendido pela internet. Daí a preocupação do MinC com essas questões, que estão facilitando a pirataria”, disse Ana. “O MinC tem que ter uma preocupação com a preservação e com a condição de se produzir culturalmente sem que isso seja copiado como se não tivesse trabalho investido. Isso vai matar a produção cultural brasileira se não tomarmos cuidado”, declarou. 
Algumas horas depois
À noite, no mesmo dia, Juca Ferreira, ex-ministro da Cultura do governo Lula, participou de um fórum de gestão cultural em São Paulo. Estive lá, para assisti-lo. 
O que Juca afirmou é o oposto daquilo que diz a atual ministra. O que diz Juca é o que foi dito durante os oito anos de governo Lula, quando a presidência da República apoiava a utilização de licenças flexíveis na rede, encaminhava a elaboração aprovação do Marco Civil da Internet e defendia mudanças regulatórias qualificadas nos direitos autorais, entre outras posturas explícitas em defesa da liberdade do conhecimento. 
Em entrevista publicada hoje no blog Farofafá, que está fazendo um trabalho fundamental para a cultura brasileira com uma série corajosa de reportagens sobre os rumos da política cultural no país, Juca contesta a visão de Ana, e reafirma sua posição em defesa do papel emancipador da rede mundial de pessoas e computadores. 
“A internet amplia, e muito, a possibilidade de acesso à informação e à cultura. Ela multiplica os interlocutores. O monopólio da comunicação de grandes meios hoje tem um contraponto, que é essa complexidade enorme de vozes. É como a rua, a infovia é como a rua. Anda gente de bem, gente que não é do bem, gente conservadora, gente progressista. Eu não mistifico a internet. Ali é um santuário, uma via pública. Ali é um lugar de difamação, de calúnia, mas é um lugar também que colocou uma possibilidade imensa de acesso à cultura. A maior autoridade espanhola em biblioteca disse agora lá: “Eu, com esta crise econômica, não criaria mais nenhuma biblioteca. Eu investiria em disponibilizar esses conteúdos pela internet para que as pessoas possam ter acesso com facilidade”. 
Foi a primeira vez que Juca falou claramente contra o retrocesso que está em curso no Ministério da Cultura. 
Depois de mais de ano calado, diante de todas as barbaridades e falsidades que foram ditas, resolveu expor o que pensa. Hoje filiado ao PT, um “velhinho de esquerda” como diz, teve a coragem de vocalizar a insatisfação que inúmeros setores da sociedade brasileira vêm afirmando desde o início da sucessão na cultura, e que o tempo só fez reafirmar e comprovar. 
Em um dia, vimos o que a cultura brasileira se tornou, o que foi, e o que poderia ser.

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