Pular para o conteúdo principal

O vazio da Rio+20 precisa ser preenchido pela sociedade civil


O resultado do texto da Rio+20 é um vazio declaratório que terá que ser preenchido pela sociedade civil e pelas empresas. A avaliação é da equatoriana Yolanda Kakabdse, presidente mundial de uma das mais conhecidas ONGs ambientalistas do mundo, o WWF. Yolanda coordenou a participação da sociedade civil em 1992, para a Rio92. Foi presidente e membro do conselho de entidades ambientalistas importantes e ex-ministra de meio ambiente do Equador. Vê as diferenças entre aquela conferência e esta, e o que não aconteceu.
Ela diz que os negociadores poderiam ter ido mais fundo no texto final da Rio+20 e que 24 horas antes de o documento ser fechado, havia verbos de ação. "Agora é um texto declaratório." A seguir, trechos da entrevista ao jornal Valor Econômico.
Valor: Qual a sua avaliação dos resultados da Rio+20?
Yolanda Kakabdse: Os resultados me parecem pobres. Não porque todos os conceitos importantes não estejam no documento final. Estão todos lá, mas não há nenhum chamado à ação. São chamados à reflexão que dão um tom totalmente declaratório ao texto. Eu não creio que há uma relação custo-benefício, de um investimento de US$ 100 milhões, provavelmente, em dois anos de reuniões preparatórias, refletida neste documento-final. Participei da conferência de 92, fui parte da secretaria das Nações Unidas que organizou a conferência. Agora era o momento dos governos tomarem decisões muito concretas de o quê fazer e como fazer e não ficar apenas nas declarações.
Valor: Fala-se que o documento abre processos para o futuro e...
Yolanda: Sim, o documento diz "iremos fazer isso", mas não diz "vamos fazer isso". O resultado é um vazio, e este vazio tem que ser preenchido. Se os governos não foram capazes de preenchê-lo e cumprir com a sua missão, então terá que ser preenchido com ações da sociedade civil e do setor produtivo. E o que estamos vendo, e talvez seja o mais bonito desta conferência é que, sim, há coisas acontecendo. Há movimentos importantes na sociedade civil e no setor produtivo, a bola está rolando. Empresas sustentáveis, o uso da biodiversidade sem destruir a floresta, novas tecnologias para a água e energia são iniciativas que as empresas e a sociedade civil já estão fazendo. E com este vazio que os governos deixaram, irão fazer mais.
Valor: E os marcos regulatórios?
Yolanda: Claro, tem que se trabalhar muito aí. Por exemplo, na transparência da informação do custo ambiental da produção, é uma função dos governos.
Valor: Como se segue agora? Qual o futuro depois da Rio+20?
Yolanda: Vamos continuar trabalhando, estimulando parcerias entre a sociedade civil e o setor produtivo. Vimos, por exemplo, iniciativas interessantes como a do Banco Mundial, em que há mais de 80 países prontos a levar adiante o conceito "beyond GDP", ou seja, "além do PIB", de tornar transparentes os custos ambientais e informar sobre os processos de produção. E isso é uma decisão ótima, e não está na declaração dos governos. Esta é a parte lamentável do processo.
Valor: Qual o ponto mais importante deste debate, em sua opinião?
Yolanda: Acho que também é importante o assunto da segurança, da mudança climática e da destruição dos ecossistemas. Não é só um tema de pobreza e deterioração e impactos. É um assunto de vida ou morte. A segurança humana está ameaçada, sobretudo nas comunidades mais vulneráveis, entre as crianças e os mais velhos, os pobres. Já estão sendo afetados e serão mais ainda pela falta de ações concretas a nível intergovernamental e também dentro dos governos, de medidas que garantam o desenvolvimento sustentável.
Valor: A senhora acredita que os negociadores poderiam ter ido mais longe do que foram?
Yolanda: Mas claro. Há três dias, no tópico de oceanos, diziam que iram fazer coisas e o retiraram. Era a única ação proposta e sumiu em 24 horas. E nos deixaram aí, também, com uma declaração. Ali havia um verbo de ação, agora não.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conjunturas I

Um amigo me pergunta se acho que Lula deve ser candidato a presidente, mesmo com a prisão. Respondo que sim, porque não tem sentido ser diferente. Lula não ser candidato seria de uma deslealdade imperdoável do PT para com ele. A pergunta, na verdade, respondo ao meu amigo, é sobre quem deve ser o vice de Lula, porque quase tão certo como Lula ser o candidato do PT, é a possibilidade de que a justiça eleitoral casse a sua candidatura, sendo lógico, nesse caso, que seu vice assuma a cabeça de chapa. E, como sabemos como o bloco golpista joga, eles provavelmente farão isso o mais tarde possível, procurando inviabilizar que o PT chegue ao segundo turno. Nesse cenário, a tendência é que o PT venha com uma chapa “puro-sangue”. Provavelmente com Haddad para vice. Eventualmente com Jacques Wagner ou Patrus Ananias e, um pouco menos provavelmente, com Celso Amorim. Meu amigo, que não é do PT, viu claros sinais de que Lula, naqueles momentos heróicos antes da prisão, te...

Solicitei meu descredenciamento do Ppgcom

Tomei ontem, junto com a professora Alda Costa, uma decisão difícil, mas necessária: solicitar nosso descredenciamento do Programa de pós-graduação em comunicação da UFPA. Há coisas que não são negociáveis, em nome do bom senso, do respeito e da ética. Para usar a expressão de Kant, tenho meus "imperativos categóricos". Não negocio com o absurdo. Reproduzo abaixo, para quem quiser ler o documento em que exponho minhas razões: Utilizamo-nos deste para informar, ao colegiado do Ppgcom, que declinamos da nossa eleição para coordená-lo. Ato contínuo, solicitamos nosso imediato descredenciamento do programa.     Se aceitamos ocupar a coordenação do programa foi para criar uma alternativa ao autoritarismo do projeto que lá está. Oferecemos nosso nome para coordená-lo com o objetivo de reverter a situação de hostilidade em relação à Faculdade de Comunicação e para estabelecer patamares de cooperação, por meio de trabalhos integrados, em grupos e projetos de pesquisa, capazes de...

A publicidade governamental do Governo Jatene, a Griffo, o jornalismo paraense...

Há alguns dias a jornalista Ana Célia Pinheiro, do blog A Perereca da Vizinha  anunciava que começaria uma guerra contra a comunicação do Governo Jatene :  Vamos agora jogar num rítmo novo, com algumas “surpresinhas” – ou vocês não gostam de surpresinhas, “coleguinhas”? “Coleguinhas” é um coloquialismo usado pelos jornalistas de Belém para se referirem, com cinismo, ao cinismo de seus colegas, dos quais não se costuma esperar senão o fogo amigo. Os posts começaram, em seguida, construindo  um perfil de Orly Bezerra , proprietário da Griffo, a agência de publicidade responsável pelo marketing do PSDB no Pará. Hoje, Ana Célia Pinheiro publicou  um post com o levantamento dos repasses de dinheiro público do Governo Jatene para a Griffo : R$ 70 milhões - e penduricalhos, como empregos a parentes. O post também questiona a idoneidade do processo licitatório que levou a Griffo a mais uma situação de dominação das contas da comunicação governamental, no Pará...