11 agosto 2012

Richard Sennett: "Temos que valorizar a diferença"

Sociólogo americano diz que cidades devem ser repensadas para estimular cooperação entre diversos grupos sociais


Richard Sennett dedicou boa parte de suas quatro décadas de carreira a investigar as relações entre as pessoas, estudando desde o trabalho que desempenham até as cidades onde vivem. Nos últimos anos, tem se preocupado em especial com o que considera uma forma contemporânea de “tribalismo”: a tendência crescente de indivíduos a se fechar em grupos homogêneos que repelem tudo que é diferente. Para o sociólogo americano, esse fenômeno deve ser combatido com uma forma renovada de “política da cooperação”.

Sennett desenvolve essa ideia em sua obra mais recente, “Juntos: os rituais, os prazeres e a política da cooperação”, publicado este ano nos Estados Unidos e recém-lançado no Brasil pela editora Record, em tradução de Clóvis Marques. No livro, o professor da London School of Economics e da New York University alerta que um dos resultados da “angústia em relação à diferença” nas sociedades contemporâneas é “o enfraquecimento do impulso de cooperar com aqueles que se mantêm teimosamente Outros”.


Mesclando pesquisas em antropologia, história, sociologia e política, Sennett discute em “Juntos” as formas como a cooperação pode ser moldada, debilitada ou fortalecida nas sociedades contemporâneas, que são definidas justamente pela diferença: “dependem da circulação de trabalhadores através de fronteiras, contêm diferentes etnias, raças e religiões, geram estilos divergentes de vida sexual e familiar”, escreve.

Em entrevista ao GLOBO por telefone, de Londres, Sennett, de 69 anos, fala sobre o novo livro e sobre outros temas recorrentes em sua obra, como a degradação dos ambientes de trabalho no mundo atual (discutida em “A corrosão do caráter”, por exemplo). Ele aborda ainda os outros dois livros de sua nova trilogia sobre a vida cotidiana: “O artífice” (lançado no Brasil em 2009), sobre como o trabalho manual pode ajudar a pensar as relações sociais, e o próximo, ainda inconcluso, sobre o futuro das cidades.

Em “Juntos”, você argumenta que a sociedade contemporânea estimula uma espécie de “tribalismo”, um comportamento marcado pelo desejo de neutralizar as diferenças, “sejam de natureza política, racial, religiosa, étnica ou sexual”. Quais são as consequências desse fenômeno?

A consequência é que temos sociedades cada vez mais complexas, mas com cada vez menos habilidade para lidar com a diferença, que é a marca de sociedades distintamente modernas, definidas pela imigração, por conflitos de classe e desequilíbrios econômicos, por exemplo. O pensamento “nós-contra-eles” sempre existiu, mas o que há de novo é uma espécie de indiferença pelo que é diferente. Não há mais o medo de violência entre “tribos”, o que acontece é mais sutil, é um recuo em relação ao outro, como se o outro simplesmente não existisse. A manifestação econômica disso é que, por um lado, as elites podem tratar as massas como se fossem invisíveis, e, por outro, os diversos grupos que compõem as massas se tornam menos capazes de interagir uns com os outros.

Existe uma política da cooperação que possa se opor a esse “tribalismo”?

Eu contraponho as noções de “cooperação” e “solidariedade”. Isso é importante para mim, como alguém de esquerda, porque o imaginário de como lidar com os males do capitalismo moderno sempre girou em torno de um ideal de “unidade”. Acredito que essa é uma receita disfuncional para lidar com a opressão e a negligência. Em vez de buscar uma unidade utópica, precisamos valorizar relações sociais que não anulem as diferenças.

Como?

Me interesso por formas de organização em que as pessoas possam permanecer juntas, sem que isso dependa exclusivamente do sucesso imediato de uma meta comum. Isso é particularmente importante para minorias e grupos oprimidos. Precisamos redefinir o que entendemos por uma política da cooperação. Em parte, isso tem a a ver com mudar o foco da ação política, privilegiando menos os partidos e mais as instituições da sociedade civil que podem se tornar referências sociais e comunitárias e lutar por direitos comuns. Um dos efeitos do “tribalismo” contemporâneo é que ele tende a enfraquecer a sociedade civil. Isso fica claro quando observamos as grandes cidades, por exemplo.

Você já disse que a cidade deve ser vista não como uma unidade, mas como uma “convergência de diferenças”. Como o urbanismo e a arquitetura podem estimular a cooperação?

Um dos temas do meu próximo livro é a necessidade de reforçar o planejamento urbano nas margens das comunidades, e não só nos centros, porque é nas margens que a cooperação entre diferentes se faz mais necessária. Basicamente, o que acontece nas cidades europeias e americanas, e agora também na China, é o desenvolvimento de comunidades autônomas, que podem ser definidas por fatores econômicos, raciais, religiosos etc. Elas são estruturadas em torno de seu centro e separadas de outras comunidades por “paredes” de trânsito ou por áreas não desenvolvidas. Assim, as margens das comunidades viram “zonas mortas” e toda a vida parece estar no centro. Acredito que precisamos investir no desenvolvimento dessas “zonas mortas” no espaço entre as comunidades para estimular a interação e a curiosidade das pessoas em relação à diferença.


A desigualdade econômica tem motivado uma série de protestos populares nos últimos tempos. Como você avalia esses movimentos? Eles oferecem algo novo em temos de cooperação?

O que me interessa no movimento “Occupy” é que ele não foi tanto uma questão de ideologia, e sim de grupos de pessoas que nunca tinham passado muito tempo juntas e de repente se viram dividindo o mesmo espaço. Aqui em Londres, tínhamos os estudantes de sempre misturados a desempregados, pensionistas e gente que aparecia para protestar por motivos variados. Eram pessoas que estavam acostumadas a ler umas sobre as outras, mas que nunca tinham dialogado. Em um protesto político normal, as pessoas passam duas ou três horas juntas e se dispersam, mas no “Occupy” elas estavam no mesmo lugar dia após dia. Como ninguém consegue protestar o tempo todo, o que acontecia era muito bate papo, uma convivência que normalmente não é considerada “ação politica”. O mais significativo dos protestos não eram os slogans, e sim as descobertas que as pessoas faziam umas sobre as outras. Foi um momento especial. Não sei se ele pode ser revivido, mas nele vislumbramos uma sociedade em que esse tipo de atitude poderia ser mais rotineira.

Em “Juntos”, assim como ao longo de toda sua obra, você discute a influência de novas práticas capitalistas nos ambientes de trabalho. Como isso pode afetar a capacidade de cooperação numa comunidade?

Na essência, um ambiente de trabalho deveria ser um lugar onde as pessoas aos poucos desenvolvem habilidades específicas e se tornam mais competentes. Mas isso exige um tipo de ambiente de trabalho que está desaparecendo. Hoje, as organizações já não empregam trabalhadores, elas compram trabalho. Se uma organização precisa de determinada habilidade e não a encontra por um bom preço no Brasil, por exemplo, ela pode comprar essa habilidade nas Filipinas. Desenvolver habilidades exige tempo para cultivar relações com outras pessoas, tempo para aprender com os próprios erros. Mas o neoliberalismo trata esse processo de cultivo das habilidades como improdutivo e ineficiente. Então, o que temos são ambientes de trabalho com péssimas relações, que não dão aos trabalhadores condições para se desenvolver.

No seu livro anterior, “O artífice”, e de novo em “Juntos”, você argumenta que se pode aprender sobre as relações sociais por meio do trabalho manual. Como?

Há três conexões principais. A primeira é a identificação e solução de problemas, uma necessidade básica tanto no trabalho manual quanto no trabalho “social”, algo que tem uma base na experiência física de investigar como um objeto funciona. Segundo, o trabalho manual ensina a lidar com a resistência sem lutar contra ela, e sim tentando entendê-la. Isso pode ser relacionado a conflitos que não devemos resolver simplesmente usando a força máxima. O terceiro aspecto é a distinção entre empatia e simpatia. A simpatia tenta superar divergências por meio da identificação com o outro, enquanto a empatia presta atenção ao outro em seus próprios termos. Penso que a empatia favorece a cooperação. E experimentos com trabalho manual privilegiam a empatia, porque operam por uma lógica de objetificação e não de identificação.

Você já escreveu muito sobre a função dos intelectuais públicos. Como eles podem colaborar para esse debate?

Venho pensando nisso a minha vida toda. Resisto à noção de que o intelectual público é uma espécie de farol moral do povo. Na verdade, detesto essa ideia. Tento escrever meus livros de forma que eles engajem o leitor em um diálogo. Tento contornar a noção das ciências sociais como uma atividade prescritiva, por isso não escrevo argumentos com provas, nem me coloco na posição de expert. Procuro uma forma de escrever com a qual o leitor possa concordar ou discordar, mas que o provoque. Quero deixar um espaço livre na mente do leitor para o diálogo.

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