14 março 2013

Considerações sobre o novo Papa


Vocês lembram das palavras de Deus a Francisco de Assis, na sua visão de San Damiano? Foram as seguintes: "Vai, Francisco, e repara a Minha Casa, que, como vês, está caindo em ruínas".
A escolha do nome Francisco, pelo novo Papa, é altamente simbólica. Ela se compromete com o que todo mundo, católicos e não católicos, clamam, em uníssono: uma reconstrução da Igreja. Uma renovação profunda da instituição. A questão, porém, considerando os elementos que se tem, é a seguinte: a ascensão do Papa Francisco constitui, realmente, uma renovação? Teria ela o poder de reformar, efetivamente, a instituição católica?
Ainda no campo “promessas”, o conjunto simbólico é instigante. Bergoglio é o 1o Papa do sul, o 1o jesuíta, o 1o Francisco, o 1o que prepara a própria comida, o 1o que vai de ônibus para o trabalho. Além disso, suas relações com o judaísmo são melhores do que as de qualquer outro cardeal latino-americano. No atentado de 1994 contra uma sinagoga de Buenos Aires ele foi um dos primeiros a chegar, para dar apoio ao povo de Israel.
É preciso, também, assinalar o fato marcante de que se trata de um Papa jesuíta, o primeiro. Isso poderá ter uma significação profunda, conforme o caminho que Bergoglio dê à sua função. Na história, sempre houve poucos bispos jesuítas, e somente dois cardeais. Por que isso? Porque, quando são ordenados, os jesuítas fazem um juramento de não se tornarem bispos e de não se colocarem na hierarquia da Igreja Católica. Por que? Para terem mais independência. Ignácio de Lyola, o fundador da Companhia de Jesus, dizia que isso lhes ajudava a conter suas ambições.
Além disso, é fato concreto que, historicamente, os Jesuítas sempre estiveram em oposição surda à Igreja Católica. Na altura de sua expulsão das Américas portuguesa e espanhola, em 1767, o Superior Jesuíta era identificado como um grande opositor do Papa e só se vestia de negro, sendo por isso chamado de Papa Negro, ou Anti-Papa. Atualmente, há 18 mil jesuítas no mundo. Todos devem ter assistido, perplexos, à escolha de Bergoglio como Papa. A julgar se ele será capaz de impor à Igreja essa visão de mundo jesuítica que, tantas vezes, é original.
Tudo isso é simpático. But... percebamos que ele mantém uma posição bastante conservadora - de acordo com o muito que se tem publicado a seu respeito - e que, nesse sentido, não sugere nenhuma grande reforma, dentre as que a Igreja Católica necessita. Ademais, seus vínculos com os conservadores argentinos caminham para além das simpatias expressas - sempre de acordo com o que se informa dele, bem entendido. Paira sobre ele, inclusive, a suspeita de ter colaborado com a ditadura na captura de dois religiosos jesuítas que faziam oposição ao regime. Sabe-se que ele bate de frente com a presidente Cristina Kirchner e que é bastante fechado à Teologia da Libertação.
Além disso, não é “jovem”, o que indica, dentro das práticas políticas correntes no Vaticano, que se trata de mais um “mandato tampão”, um mandato de 5 ou 10 anos que serve para acomodar, para contornar, as disputas entre uma facção que deseja de fato mudanças e outra que pretende preservar o status quo. Esse tempo, numa instituição com 2 mil anos, não é nada.
A escolha de Ratzinger teve o mesmo propósito. Bergoglio tem 76 anos. Ratinzger tinha 78 ao ser eleito. Quando se elege um Papa com essa idade se pretende, em geral, dar tempo às pedras, para que elas se acomodem. São os “Papas de transição”. É claro que o eleito pode surpreender. Roncalli, João XXIII, por exemplo, surpreendeu. Ele também fora eleito com a expectativa de manter as coisas como estavam, adianto os conflitos em tensão por alguns anos, mas, como se sabe, convocou o Concílio do Vaticano II, que provocou uma renovação profunda na Igreja.
Ratzinger renunciou dizendo que estava sem forças para enfrentar as questões da Igreja. Ora, por que um Papa com praticamente a mesma idade, com menos experiência, conseguiria enfrentá-las? 
Os sucessivos escândalos de pedofilia, a corrupção reinante no Vaticano, o vazamento de informações privadas, as disputas políticas entre os grandes cardeais jogam a Igreja Católica num redemoinho borgiano.
Borgiano no sentido de Bórgia, e não de Borges, o grande argentino – bem entendido.
Ainda se espera por mudanças. E sejamos claros, a Igreja Católica precisa de renovação. Ela está sangrando. Isso é um assunto que interessa não somente aos católicos, mas a todos que se importam com questões éticas e morais que, evidentemente, não são alcançadas pela atual cúpula da Igreja, como a aceitação do casamento homossexual, o incentivo ao uso de preservativos, a tolerância com a contracepção, a ordenação de mulheres e o fim do celibato.
Imagino a quantas dezenas de milhões de pessoas a Igreja Católica poderia falar e o quanto bem poderia fazer ao mundo se se modernizasse efetivamente.
A encruzilhada do jesuíta Francisco é desafiadora, resta saber que cruz ele carrega.
Fábio Fonseca de Castro

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