10 março 2013

Work in progress

Bom, se tenho escrito pouco por aqui é porque tenho trabalho muito. Completei os dois primeiros meses de trabalho aqui em Montreal. O primeiro mês foi de chegada e organização da vida prática, não trabalhei, então ele não conta. Quanto aos dois meses posteriores, um balanço se impõem, embora não para, necessariamente, publicizá-lo. Quem o impõem são os meus botões, essas criaturas ansiosas que acompanham minha vida profissional como se fossem grilos falantes.

Como sou muito organizado, a ponto de tomar notas diárias sobre minha produção e me ater, com zelo, ao cronograma que fiz e que, embora com com liberalidade, sei exatamente o quanto fiz nesses 2 meses: li 11 livros, 27 artigos científicos, preenchi 4 cadernos com anotações, umas 300 fichas de leitura, elaborei 5 planos de aula, com referências e power-point, estruturei o equeleto de 6 artigos e trabalhei em 3 deles, um dos quais diretamente em francês. Desses artigos, 2 estão prontos em 65% e o terceiro em uns 25%. Além disso estudei bastante inglês e um pouco de alemão.

Nesses dois meses meu trabalho se concentrou nas tarefas de leitura; acompanhei apenas um seminário na universidade, o do meu "directeur de recherce", que se reúne semanalmente. Trabalhei, principalmente, em bibliotecas: a Grande Biblioteca, talvez a melhor de todo o país e a biblioteca de Ciências Sociais e Humanas da Université de Montréal, que é bastante completa.

E então, sobre o que trabalhei? Centralmente, na discussão metodológica sobre a pesquisa em interação social. Estudei o interacionismo simbólico, a etnometodologia e a análise de conversação. Refleti sobre a proximidade entre as perspectivas de Simmel e de Mauss, especificamente sobre o possível diálogo entre a teoria do don e a teoria da relação social e sobre como essa conjunção de perspectivas, mesmo estando em planos epistemológicos completamente diferentes uma da outra, conformam um referencial para o interacionismo de Goffman e para os etnométodos de Garfinkel.

Por fim, li muito da produção de Cooren, meu orientador - os colegas brasileiros têm problema que eu fale orientador, acham que, como já sou doutor, não cabe dizer orientador, então sugerem que eu use "directeur de recherche". Para mim, tanto faz, mas enfim, como tudo é capital simbólico neste mundo cruel da academia, sigamos conforme soprem os ventos e voem os corvos.

Como disse, li muito da produção do Cooren e do seu grupo. Ele é um herdeito direto da ethnometodologia, à qual funda com uma leitura instigante de Derrida. Procurei compreender o que ele, juntamente com toda uma tradição norte-americana de pesquisa em Comunicação, chama de Teoria Constitutiva da Comunicação. Procurei compreender como os referenciais de uma preocupação endógena da interacão social a constituem, a essa teoria.

Referenciais, aliás, todos esses, com os quais tenho trabalhado há anos e que estão na base da crítica que faço à teoria sociológica "sociologizante", "economicista" e ao suicidio em curso da teoria da comunicação, quando esta decide se isolar do diálogo com as ciências sociais.

Para onde estou indo? Meu objetivo é refletir sobre a dimensão hermenêutica da comunicação. Para mim, isso significa colocar a comunicacão no centro. Significa pensar a comunicação como uma ciência social, e não como uma ciência social "aplicada" - no sentido de utilitária e utilitarista. Significa transpor, para a reflexão sobre a comunicação, a ruptura lançada por Simmel e Mauss sobre as ciências sociais. Mas isso tudo são apenas hipóteses. O que importante é o caminho, o trabalho em curso, diário e difícil, que ainda está no começo.

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