15 abril 2013

O desencontro marcado


Até estive chateado por ter corrido para me despedir dele e, depois de um vôo de 25 horas, com múltiplas escalas – porque foi o vôo possível – ter chegado a Belém uma mísera hora de pois dele ter partido.
Porém, refletindo sobre isso, ocorreu-me que esses desencontros se repetem, eventualmente, ao longo de toda nossa existência. Por mais nos esforcemos para estarmos à tempo, há os limites de tempo do tempo, o tempo dos outros, o tempo da carne, o tempo de morrer.
De certa maneira, todos temos, efetivamente, esse desencontro marcado com a morte. A nossa, é claro, que se espelha na morte dos outros, principalmente dos mais próximos. E, evidentemente, a morte das pessoas queridas.
É um desencontro porque evitamos pensar nele. Mas está marcado.
Aliás, não apenas com a morte, temos “desencontros marcados” com muitas pessoas, eventos, acontecimentos, sentimentos. A vida é feita de desencontros marcados, e é preciso estar preparado par eles.
O que é melhor é pensar que a história que assim se dá, se dá como anagrama de algo. É inevitável. Anagrama para o exercício de nossa hermenêutica privada e movediça. Anagrama para nossa imanência. Para imanentizarmos aquilo que, ao longo do tempo, vai ficando transcendente.
Isto dito, gostaria de agradecer as mensagens de apoio que recebi, aqui, por email e por telefone, a respeito da morte de meu pai. Não imaginam como essa atenção é reconfortante e como ajuda a superar as dificuldades colocadas por sua ausência.
Quando o falecimento vem após a enfermidade é sempre mais fácil. Porém, mesmo assim, a chegada do fim é sempre uma incógnita. E é por isso que o afeto, as manifestações de apoio e de amizade são tão significativas.
E como ajudam!
Em janeiro de 2012 detectamos um câncer em seus pulmões e o ano foi, para ele, desses imensos esforços físicos que se faz para sobreviver, talvez sabendo que não viveria, mais do que alguns meses e dias. Ele sempre esteve bem e sempre fez piadas sobre seu estado de saúde. Não sentiu nenhuma dor, em momento algum, o que seria comum nesse tipo de câncer. Mas não as sentiu. Fez algumas sessões de quimioterapia que, penso, foram importantes para que tivesse uma melhor qualidade de vida, mas que também lhe pediram muito da sua saúde.
O caminho paralelo foi duro: sua bexiga parou de funcionar e precisou ser substituída por uma bolsa externa; seus intestinos apresentaram, igualmente, inúmeros problemas. Por fim, os pulmões se deterioraram. Os pulmões que ele sempre me disse que eram fracos no seu sangue, independentemente do quanto muito que fumou.
Que eram fracos porque sua mãe, Maria Vera, minha avó; sua querida tia Lia, minha madrinha; seu avô Felipe e outros e outros dos seus morreram de enfisemas pulmonares sem nunca terem fumado. Os pulmões que ele dizia que eram fracos nele, tinham o agravo do muito que foram usados.
E enfim, se foi. Novo, aos 68 anos, perto de 69. Mas 68 anos bem vividos.
Como mencionei, era uma criatura intrigante.
E, devo dizer, nunca foi fácil ser seu filho: inteligente, culto, de uma perspicácia extrema, polêmico, muitas vezes egoísta, inveteradamente irresponsável, cotidianamente irritado, quase sempre incômodo, contraditório.
Nunca foi fácil ser seu filho.
Enquanto minha mãe vivia, até que as coisas iam bem, mas depois... filhos não controlam pais. Muito menos pais enlouquecidos e cheios de literatura nas veias.
Quando há alguns anos veio o AVC, do qual se recuperou heroicamente, as estripulias diminuíram... um pouco. Morou comigo e depois com minha irmã.
Cartesiano e pragmático como me pretendo (a bem dizer, o seu antípoda), tentei, em vão, estabelecer-lhe metas, objetivos, divisões de tempo e cardápios balanceados. Sempre em vão.
Nunca me senti tão insignificante quanto no dia em que tentei ensinar meu pai a usar uma agenda.
E isso sem falar nas incontáveis vezes em que fui obrigado a ensaiar vagas lições de ponderação. Logo vi que pitos de filho de nada valem.
Por outro lado, é inegável o tanto que aprendi com ele.
Amigo das boas coisas da vida, apaixonado por livros, pela mecânica de armas antigas, por cães de raça, conhecedor da mística judaica, amante da beleza das mulheres, leitor de constituições e de tratados de Direito Constitucional, leitor voraz da ficção brasileira e de poesia, releitor permanente de Machado de Assis, Eça e Balzac, colecionador de livros e revistas de gastronomia, pesquisador dos crimes ocorridos no passado de Belém, interessado pela morfologia dos répteis, memorialista do cotidiano, lembrador contumaz de sua infância e juventude, memorialista de velhos embates entre Remo e Paissandu, mas também apaixonado pelo Fluminense... carioca manqué – de tanto que lembrava das ruas, dos restaurantes, dos sebos e livrarias do Rio de Janeiro... E quanto mais? Amante dos bons whiskies, dos puros maltes, causeur e contador fabuloso de histórias.
Tudo isso pode parecer um pouco extravagante, mas tinha todo o outro lado: a simplicidade das suas amizades de rua, sua flânnerie diária, passando por padarias, bancas de revista, mercados, comidas de rua, sentando para engraxar os sapatos e ver a vida passar; sua paixão pelas sopas mais simples, sua amizade com jornaleiros e com porteiros de todos os prédios do perímetro de onde morava, ali na casa da minha irmã.
Nunca foi fácil ser seu filho. Mas não sabem como me esforcei...
Quanto aos whiskies, por exemplo. Era para ele e por ele que, nas festas na minha casa, eu oferecia peças incomuns à inculta Belém, preferindo os Cutty Sarks e os Old Machinists, por exemplo, a esses Reds, Blacks, Chivas da vida e coisas desse tipo, para usar suas palavras, “sem espírito” e “típicas de uma Belém que perdeu o gosto e esqueceu do que vale à pena de fato”.
Esses termos ecoavam sua ironia, sua crítica feroz a tudo o que fosse amedrontado, pobre de espírito – ou, para referir outra de seus xingamentos de predileção, “pequeno-buguês”.
“O que desgraça a civilização é a pequeno-burguesia”, ele repetia, sempre.
Essa ideia reflete, percebo, sua filosofia política, plena de um esquerdismo de modo algum dogmático: “O que precisamos combater é a pequeno-burguesia, é lá que estão os valores arraigados e que não mudam; os valores espirituais de um Brasil arrogante, autoritário e arbitrário. A grande burguesia não tem valores, é fácil de comprar”.
E daí vinha a sua compreensão do governo Lula: “Lula é um gênio, porque ele cria as condições de governabilidade tranquilizando e ridiculamente promovendo o grande capital ao mesmo tempo em que promove o lumpem. Lula não caiu nesse papo de proletariado, que é um conceito que não descreve o povo brasileiro. Ao transferir renda para o povo, ele ignora a pequena-burguesia e, enfim, faz a história avançar”.
O que se resumia em frases como “Um governo de esquerda precisa ser trágico, senão não conta. Lula é um trágico: ele é a consciência histórica da esquerda, porque trai seus ideais para garantir a marcha da história! O PT encena a tragédia grega da história brasileira!”
Aí também estava a sua crítica e seu rancor em relação ao velho PCB, o partido do seu coração: “O problema do PCB é o dogmatismo. Eles querem transferir conceitos marxistas para uma realidade extravagante, como a brasileira. Proletariado, por exemplo: tal como descrito por Marx, proletariado só existe em alguns lugares de São Paulo; ou burguesia: São Paulo não tem burguesia, tem gente rica, tem elite; burguesia, historicamente falando, só existiu no Rio, no Recife e em Belém”.
Ou: “É bobagem pensar em luta social usando conceitos como luta de classes. No Pará, a luta entre Remo e Paissandu é mais expressiva do que a luta de classes”.
Meu pai... cheio de enigmas e de-códigos, intrigante... provocador.
Dessa mesma matriz de pensamento também vinha sua irritante mania de se meter com meus namoros de adolescente: “Essa moça é uma pequeno-burguesa ridícula; só serve pra comer e ir embora!”
Com o perdão do geracional machismo, é necessário observar seu posicionamento tolerante às escolhas de sexo, religião e identidade de qualquer um.
Mais de que em meus namoros, ele se metia com minhas leituras, intrigado com a existência de um filho que lia mais filosofia que romances.
Lembro quando me pegou lendo Santo Agostinho, “A Cidade de Deus” – que ele mesmo comprara. Quase teve um colapso e, preocupado, foi logo me acusando: “Agora está virando místico!”
Percebo que seu maior medo, a meu respeito, é que eu não desenvolvesse o senso crítico. Imagino que a leitura de Agostinho pudesse me cambar para o lado dogmático mais que para o lado filosófico.
Foi logo depois desse episódio que ele veio com aquela história:
“Eu acho que estás precisando de um pouco de dissipação!”.
Frases que me constrangiam enormemente.
E ele sempre me incitando: “dissipa-te, dissipa-te”.
Com efeito, eu tentava estar à sua altura. Embora, devo dizer, não, exatamente, me dissipando.
Mas estar “à sua altura” nunca era fácil. Aos seus olhos, eu era quase um prussiano. Filho tímido e introspectivo de um pai expansivo e desvairado, ouvi coisas como:
“Minha droga é o whisky, não suporto coisas como maconha e cocaína, mas pensando bem, acho que um pouquinho delas não iriam te fazer mal...”
Por exemplo.
Bem...
Se eu fosse um rebelde, o seria sem causa.
O problema dele, em geral, era com minhas leituras. Na sua biblioteca, bem construída, havia coisas que ele desprezava mas que julgava que devia ter, porque lhes reconhecia valor sem que, necessariamente, gostasse deles.
E quis o acaso que eu gostasse de alguns desses textos. Agostinho eu apenas li, mas me tomei de paixões com gente que ele também julgava perigosa.
Uma vez ele escondeu de mim o livro que eu mais amava, o livro que levava todas as noites para a cama: a tradução de 1959 do De Officiis, de Cícero, feita pelo prof. Maximiano Augusto Gonçalves, com direito ao original em latim, frase sobre frase. Um livro que fora ele, também, quem comprou.
Peguei meu pai reclamando para minha mãe: “Não sei o que ele vê nesse livro. É um elogio de Roma!, de Roma!”.

Mais para Grécia do que para Roma, mais para Baco de que para Apolo; sempre.
Entre nós, muita contiguidade, mas, inevitavelmente, um enorme fosso.
Um fosso que eu procurava, de alguma forma, suplantar, mas todo esforço que fizesse para estar à sua altura sempre era em vão.
E ele me dizia coisas como: “Evidentemente é uma incapacidade tua”, “Lamentável, Fábio, essa tua compreensão” e “O fato não é esse; e em teu caso é sempre outro”.
Comungávamos da mesma paixão pelos livros e da mesma posição política. Mas meu pai, por assim dizer, dissipava-se.
Há uma anáfora aí.
E isso, veja-se bem, apesar de ele sempre me dizer – ah, aquela frase que tanto me moldou – “A pior coisa em uma criatura é demonstrar suas emoções”.
Bem, ele demonstrava várias, embora pouquíssimas concernentes à vida familiar. Mas podemos ignorar esse fato, mesmo porque em minha casa era proibido comemorar parvalhices como dia das mães, dia dos pais, dia dos namorados e coisas desse tipo.
“Bestialidades materialistas”.
Mas, por tradição de minha avó Maria Vera, era inconcebível não comemorar-se o Dia de Reis...
Penso que era alguém que praticamente não prestava atenção em nossos interesses quando estes não eram coincidentes com os seus – embora, quando isso acontecia, fosse capaz de diálogos que duravam anos.
Um tema rigorosamente ausente de nosso diálogo era o meu trabalho. Nenhum interesse sobre ele. Acompanhava o que eu escrevia, mas com um distanciamento crítico que, na verdade, sempre me foi utilíssimo: ele não se sentia nem compelido e nem obrigado a gostar do que eu escrevia, e estava totalmente à vontade para me criticar. E isso foi de uma generosidade preciosa, sempre, para mim.
O que ele não acompanhava era meu trabalho, digamos assim, formal: emprego, carreira, títulos. Tudo isso, para ele, era desinteressante.
Na verdade, percebo que meu pai tinha certo distanciamento em relação às universidades. Sempre desprezou diplomas e títulos acadêmicos. Se um filho não quisesse ir à universidade... nenhum problema. Achava fundamental, por outro lado, a leitura.
Nos últimos anos, com movimentos físicos limitados em função do AVC, releu o que amava: obras completas de Machado de Assis, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Moacyr Scliar, Dalcídio Jurandir, Oswald de Andrade, Pedro Nava, Rubem Fonseca, Joel Silveira e alguns outros. Ele amava a literatura brasileira, antes de tudo.
E era um crítico ácido de toda bobagem. Mas fazia questão de elogiar certas futilidades – conquanto fossem, como dizia, futilidades do espírito. Contundente, costumava dizer o que pensava, a quem fosse, quando julgava  necessário:
“Sabes, és uma besta, só não sei ainda se de pai e de mãe”.
Alguns o detestavam.
Outros, o contrário. De qualquer forma o que lhe era inegável era a sua virtude mais presente: a arte da conversação. Charmeur, meu pai sabia cativar quando contava uma história. Multiplicava as alegorias, as anáforas, as anamneses. Recuperava assuntos de duas horas atrás, perguntava com graça o que os outros pensavam. Alterava monólogos com frases curtas, de impacto, e trazia, repentinamente, para o diálogo, informações inusitadas, de uma cultura aberta, vasta, que dobrava em livros antigos e em enciclopédias do fim do mundo.
E, o que era incrível: mantinha, com certas pessoas, por anos a fio, conversações específicas. Com um amigo, era um acontecimento banal de 20 anos atrás, que sempre fornecia margem para novas interpretações. Com outro amigo, era um detalhe qualquer da medicina legal, uma de suas paixões.
Em nossa vida, penso que mantive alguns diálogos específicos, todos eles de longa duração, que atravessaram as décadas.
Conversávamos sempre sobre literatura e sobre seu próprio passado: sobre a Belém de seu passado, o Rio de Janeiro e a Petrópolis de seu passado, sobre a história e suas estranhezas, sobre as pessoas que conheceu e as coisas que presenciou.
Há anos disputava com ele. Disputava e entendia-me. Retornava. Revolvia.
Não, nunca foi, realmente fácil, ser seu filho. Porém, é preciso dizer que muito do que sou não seria sem ele. Sem sua cordialidade, fidalguia, extravagância mas também simplicidade; egoísmo mas também generosidade; e, sobretudo, talvez, sem a sua insanidade.
Todos esses eventos foram “desencontros marcados”. Todos os temos a vida inteira e durante.
À nós de compreendê-los e aproveitá-los.

13 comentários:

Marise Rocha Morbach disse...

Que bonito Fábio!

Samuel Mota disse...

Fábio, a saudade transcende o entendimento. Rico seu testemunho. nossos sentimentos.

Maria Luisa da Gama e Silva disse...

Estimado primo Fábio,
Que belas palavras e que belas imagens você usou para descrever nosso amado primo Luiz Fernando. Receba de todos nós, parentes desterrados no Rio, nosso carinho nessa hora tão difícil; e peço que os transmita a seus irmãos e a toda a família.
Fique com Deus,
Maria Luisa.

Otávio Barroso disse...

Belo depoimento. Seu pai ficaria orgulhoso. Fique bem.

CHICO CAVALCANTE disse...

Fábio, querido. Meus sentimentos pelas perdas tantas que relatas em teu belo texto, que gira em espiral e nos leva a passear por tua memória. O desamparo dessa hora, que já vivi, é indizível. Um forte abraço.

Luis Roberto Lavareda disse...

Tocante relato. Universaliza as relações de Pais e Filhos que todos nós temos. Força neste momento.

Regina Alves disse...

Nunca é fácil ser filho de um pai tão fascinante assim - e ainda por cima bonito, como ele foi - mas certamente o amor de vocês vai iluminar a tua vida para sempre.
Regina Alves

Rodolpho Chermont disse...

Convivi com o seu pai no Colégio Moderno e, depois, na velha União Acadêmica Paraense. Ele era uma figura impressionante. Uma oratória invulgar e uma cultura vastíssima, muito a frente de seus colegas, nós, e, ouso dizer, muito à frente do seu tempo. O Luiz Fernando era fascinante e tenho orgulho de ter convivido com ele. E, se me permite, quero fazer justiça também a sua avó, à querida Professora Maria Vera Horácio-Castro, outra figura impressionante pela gentileza, pela elegância e pela inteligência. Reconheço-a em seu pai e em você.

Alda disse...

Luiz Fernando, homme à femmes.... Impossível não se apaixonar...

Leila Macedo disse...

Belo depoimento. Estava certa de que ia chorar, mas acabei rindo...

Fabio Fonseca de Castro disse...

Caros, obrigado por essas palavras. Obrigado a todos.

José Carneiro disse...

Oi Fábio:
Acabo de ler teu emocionante e reflexivo relato sobre o teu pai e meu amigo Luis Fernando Castro. Estou fora de Belém e pretendo escrever sobre os incontáveis papos que tivemos nas mesas do então Gio, que ambos frequentávamos. Lembra que estive com ele em tua casa, por ocasião da seleção para o curso de cinema?
Receba o meu abraço fraterno, de imensa solidariedade

diariodeumamulherdespeitada disse...

emocionada. Lembrou-me meu pai. Ele também merecia um texto assim.