05 abril 2014

Diários de Montreal 42: Reencontros

Vim passer, desta vez, 45 dias em Montreal. Aluguei um apartamento, mas ele só estará disponível daqui a alguns dias. Vim para um hotel. Escolhi um hotel que já conheço, um hotel familiar, com apenas 20 quartos, na Rue Saint-Denis, Quartir Latin, um dos corações da cidade. Tinha ficado nele há três anos, em 2011, quando Marina, Pedro e eu passamos uma semana aqui.
Hotel central, ao lado da Grande Biblioteca, ao lado da Uqam, dos cinemas que frequento e de tudo que preciso – e com bom preço – tudo resultava conveniente.
E era, mas, de fato, não esperava pelo que aconteceu.
Foi no dia seguinte.
Desci para tomar o café da manhã. A pequena sala do café fica no subsolo do prédio. Estava curioso para ver se ainda trabalhava por lá um senhos simpatico e falador, argeliano, amante de futebol, com quem, na outra estadia, havia conversado a cada dia que descia para o café.
Pois bem. Abri a porta. Ele estava lá. Eu lhe disse:
“Bonjour!”
Ele me olhou, apontou o dedo para cima e respondeu:
"Pas bonjour, bom dia!"
Tinha me reconhecido. Achei aquilo incrível. Que eu lembrasse dele, tudo bem, porque tenho boníssima memoria e porque ele era o ponto fixo, e eu o sujeito em trânsito, mas que ele lembrasse de mim, apenas um dentre milhares de hóspedes ?!?
E ele realmente se lembrava:
"T'es venu seul cette fois? Ta femme et ton fils sont restés au Brésil?"
(Vieste só desta vez? Tua mulher e teu filho ficaram no Brasil?)
Eu estava boquiaberto.
“Mais vous vous souvenez de moi? Vous me reconnaissez?”
(Mas o senhor se lembra de mim? O senhor me reconheceu?)
“Bien sur, mon ami!”
(Claro que sim, meu amigo!)
Não é incrível?
Tenho mais a falar a respeito do simpatico argeliano, mas retornarei ao assunto mais tarde.
Passo ao episódio seguinte, curiosamente similar.
Depois de tomar o café da manhã, peguei o metrIo e fui a Côtes-des-Neiges, o delicioso bairro onde morávamos e onde fica a UdeM (a Universitee de Montréal). Lá também fica minha agência bancária. Fiz as coisas que tinha que fazer e caminhei uma quadra até o escritório das “Belles Soirées”.
Trata-se de um programa da UdeM que oferece dezenas de cursos deliciosos, nos mais dversos campos de cohecimento, da filosofia à enologia, passando pela história de Creta e “geografia dos subterrâneos de Paris”.
Minha missão era me inscrever num curso para a Marina. Como ela não estea aqui eu vou fazer um curso para ela. Vou assistir a oito aulas de história da arte grega e romana, tomar notas, gravar e cumprimentar a professora, a Mme XXX em nome dela.
(Me digam se não sou um marido deicado?)
Pois bem, mal entrando no escritório das “Belles Soirées”, ouvi a voz simpatico da secretária cantarolando meu nome:
“Bonjour monsieur Castro, ça faisait du temps!”
(Bom dia, senhor Castro, há quanto tempo!)
Simpática, não?
Mais uma que se lembrava de mim e que era simpatica.
E nem vos conto: tem mais!
Minha missão seguinte era ir à loja da Apple, rue de Sainte-Catherine. Peguei alí na frente o ônibus, o 165. Quinze minutos mais tarde desci, caminhei três quadras, cheguei à Apple. Tinha umas trinta questões a colocar sobre uma série de produtos-feitos-coisas. Fui atendido por um vendedor atencioso que, lá pelas tantas, me disse:
“Eu vous reconnais. Nous etions dans le meme bus tout à l’heure, celui qu’est venue des Côtes-de-Neiges”
(Eu estou lhe reconhecendo. Nós estávamos no mesmo ônibus, ainda agora, vindo de Côtes-de-Neiges”)
Mais um que me reconhecia.
Sem mais comentários. Evito referir minha auto-estima que dali saia embalada. Mas não resiste em observer que isso tanto me aparece agradável, e mesmo incrível, à medida em que venho de uma cidade em que se tomou por costume fingir que não se conhece as pessoas e ignorer toda forma de cortesia e gentileza.
Dalí para a frente, se quizessem, eu dava autógrafos, todo metido.

Mas na verdade o que ocorria era que eu apenas retornava a um sistema de mundo que se centra na pessoa e no respeito da pessoa. Algum dia eu falo disso.

2 comentários:

Anônimo disse...

Isso é, um acrônica? Ou um fato real.

Fabio Fonseca de Castro disse...

Crônica de um fato real, acontecidíssimo. Até agora estou supreso.