06 abril 2014

Diários de Montreal 43: Escargotear

"Que fait-tu là?" (Que fazes aí?)
"J’escargotte". (Eu escargoteio.)
Escargoter é um desses novos verbos que vão surgindo, na língua francesa como em todas as línguas, da interação quotidiana. Significa “ir devagar”, “tomar seu tempo”. A menção ao escargô não demanda esclarecimento maior. Os caracóis têm sua reputação lenta – e seu alento é que o lento, em geral, permite melhor o encontro com as coisas.
Cansado da longa viagem de 25 horas, havendo dormido pouco, estava ali como um escargô. Um escargô em Montreal. Concedi-me dois dias para escargoter pela cidade, cultivando o acaso, pensando nas coisas feitas e a fazer. Olhando, escutando, pisando no chão, caminhando. São meus preâmbulos aqui. Estou aqui para 45 dias de trabalho imersivo, por meio do qual me atribuo a tarefa de fechar um pós-doutorado. Seria fácil se eu tivesses melhores respostas para as perguntas que nunca parei de me fazer, mas não é o caso. Talvez que nunca seja – e “e daí?”... imagino que “e daí?” deva ser uma expressão bastante usada pelos escargôs no seu estar-no-mundo. Imagino que falem “e daís?” para tudo, a toda hora, na sua lentidão talvez reflexiva.
Em meus preâmbulos, deambulo. Passo das ruas à “Grande Bibliothèque Nationale”. Bibliotecas são meu habitat natural. Deambulando, escargoteando, edaisando, vou olhando e me deixando imergir nos livros que estão ali. Vou pegando um ou outro ao acaso. Lendo aqui e ali, lendo jornais, revistas.
E foi assim que me permiti sentar no chão da biblioteca, tendo às mãos um livrinho sobre a história de Atenas.
Distraído numa eternidade sólida, a voz do guarda da biblioteca, gentil, mas decidida, me subtraiu de uma discussão sobre as invasões persas. O guarda me perguntou:
     "Que fait-tu là?" (Que fazes aí?)
Respondi com os termos que tinha em mente:
         "J’escargotte". (Eu escargoteio)
Disse como quem diz o que lhe parece essencial. O guarda da biblioteca não conhecia a palavra. Permaneceu me olhando com aquela expressão de resignação que têm os guardas da Grande Biblioteca Nacional do Quebec – e talvez de mais nenhuma biblioteca, treinados que estão para ter paciência e para lidar com a incrível quantidade de gente doida que anda por ali. Resignado, mas cumpridor das suas tarefas, ele me comunicou:
         "Bah, les reglements t’interdisent!" (Bah, os regulamentos te proíbem!)
-  "Oui, oui, excusez-moi, mais exactement de quoi, d’escargoter?" (Sim, sim, me desculpe, mas exatamente de que, de escargotear?)
O guarda tomou fôlego e me olhou firmemente.
         "De rester assis là, comme t’es, toi". (De ficar sentado aí, como tu estás)
Era minha última chance, é claro. Levantei, me desculpei outra vez e segui meu destino, entre as prateleiras de livros que pareciam se bifurcar no horizonte, como senderos borgianos.

Ainda lentamente, perdendo meu próprio olhar no horizonte que, nas bibliotecas, se conforma em diagonal, por entre as fileiras de livros que se deixam ver por fileiras mais próximas.

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