17 julho 2014

Comentário: A reunião dos BRICs, para além do pessimismo da mídia

Impressionante como a imprensa brasileira se posicionou contra criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e do correspondente fundo estratégico, pelos cinco BRICS - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Uma postura que não é inesperada. Impressionante, mas não inesperada. Em meio ao apagão crítico que atravessa, inebriada por um militantismo anti-PT, a imprensa brasileira se abstêm tanto de criticar o governo onde ele precisa ser criticado como de reconher as iniciativas importantes para a sociedade e o Estado brasileiro.
A criação do Novo Banco de Desenvolvimento é uma dessas iniciativas importantes. Ela tem uma dimensão geopolítica maior, na conjuntura mundial. Dá aos BRICs o poder de questionar e de propor alternativas aos modelos econômicos impostos pelo FMI e outras instituições lideradas pelos países centrais, pois se conforma como uma alternativa ao FMI. Trata-se de um fato novo e maior da geopolítica mundial  e que consolida o aspecto multilateral da conjuntura internacional.
Os BRICs possuem uma densidade econômica e política que sustenta e justifica criação do NBD. A magnitude da economia dos BRICs, na cena mundial, é gigantesca. Em seu conjunto, seu PIB soma R$ 15,8 trilhões – 19% do PIB mundial, o equivalente ao PIB dos EUA. No seu atual ritmo de crescimento, representará 1/4 do PIB mundial já em 2015. Sua população, de 3 bilhões de pessoas, representa cerca de 38% da população do planeta. A economia dos BRICs – e em particular sua estratégia comum de gerar empregos – foi um dos elementos centrais na redução dos efeitos da crise financeira internacional de 2008.
A participação do Brasil no grupo dá uma dimensão inédita à política exterior do país. Consolida a posição de auto-determinação que vem sendo construída pela diplomacia nacional e amplia imensamente seu papel na América Latina, pois a criação do NBD o torna o principal avalista das relações que os países do continente poderão ter com o banco. A realização simultânea da VI Cúpula de Chefes de Estado e de Governo, organizada pelo Brasil, ressalta essa tendência e aproxima toda a América Latina do grupo BRIC, sob a liderança brasileira.
Outra vantagem - válida para todos os países membros - é a implementação de parcerias e acordos de cooperação entre eles. O volume de trocas entre os 5 países é hoje de US$ 250 bilhões por ano, e, com os acordos fechados nesta rodada de negociações, chegará a US$ 500 bilhões no ano que vem.
A criação desse banco surge de um debate maior, levado ao G-20 pelos quatro BRICs com insistência: a necessidade de reformar as instituições financeiras multilaterais, centralmente do FMI. O fato é que o FMI e essas outras instituições não refletem a transformação do poder mundial. Países como os BRICs não estão representados de acordo com seu papel econômico e politico e, nesse sentido, a criação do NBD constitui uma resposta política forte.
A presidenta Dilma deu uma declaração explicitando sua posição: “Nós não temos o menor interesse em abrir mão do Fundo Monetário. Pelo contrário, temos interesse em democratizá-lo, tornar o mais representativo. O novo Banco dos Brics não é contra, ele é a favor de nós”.

Excelente. É isso mesmo. Pena que a mídia brasileira prefere avaliar negativamente um acontecimento tão imporante para a soberania do país.

11 comentários:

Ana Maria Cardoso disse...

Você viu o Sardenberg no Jornal da Globo de ante-ontem? Toda a matéria sobre a reunião dos Brics se resumiu a um quadro comparativo mostrando índices dos cinco países e comentários mordazes sobre a diferença entre as taxas de juros da China e do Brasil. Como se isso tivesse relevância para a criação do Banco... Em síntese, eles substituíram uma notícia boa e importante por um comentário derrotista e ressentido. Pura desinformação! Revoltante!

Laís Mendes Balbino disse...

Nem a imprensa daqui de Fortaleza explorou direito o assunto. Só tratou dos chefes de Estado, das suas comitivas e da organização do encontro. Procurou explorar falhas e tratou o Brasil como se, em função das taxas de juros, não tivesse o direito de participar dos BRICs. A mentalidade dessa imprensa é tão tacanha que já parte do pressuposto de que o Brasil é precário e que tudo aqui dá errado. Imprensa colonizada!

Fabio Fonseca de Castro disse...

Ana Maria, vi sim, e concordo com você: uma cobertura derrotista e ressentida. É lamentável que isso esteja acontecendo. Não vejo problema no fato de jornalismo tomar partido, conquanto que: 1) declare a posição com clareza; 2) não permita que a opinião influencie na cobertura; 3) não manipule a cadeia narrativa dos fatos; 4) não manipule dados e nem os interprete ideologicamente; 5) não omita informações importantes para a descrição do fato.

Luis Barreto disse...

Fabio,
Ao menos um veículo discutiu com mais profundidade essa questão: o programa Espaço Público, da Rede Brasil, recebeu o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. Foi uma entrevista excelente. Olhe aqui: http://tvbrasil.ebc.com.br/espacopublico/episodio/embaixador-samuel-pinheiro-guimaraes-e-o-entrevistado-do-espaco-publico

Fabio Fonseca de Castro disse...

Obrigado pela informação, Laís. O termo que vc usa, "imprensa colonizada" é bastante apropriado. Penso que o que vc descreve mostra um aspecto interessante da economia da informação ideológica na mídia brasileira atual: o processo de reprodução de comportamentos e de estratégias de exclusão informativa, na construção de notícias, pelas empresas regionais e locais dos grandes grupos e redes nacionais.

Anônimo disse...

Fabio, a presidenta do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, enviou ao governo brasileiro mensagem parabenizando a realização da VI Cúpula do Brics e a criação do fundo de reservas. Olha só:

http://blog.planalto.gov.br/fmi-parabeniza-presidenta-dilma-pela-cupula-do-brics-e-criacao-do-arranjo-contingente-de-reserva/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=fmi-parabeniza-presidenta-dilma-pela-cupula-do-brics-e-criacao-do-arranjo-contingente-de-reserva

Anônimo disse...

Será que o acidente de ontem com o vôo da Malásia Airlines tem relação com a reunião dos Brics? Sei que parece teoria da conspiração, mas o fato é que a Rússia, sem ter recebido sanções dos parceiros Brics por sua postura na questão da Ucrânia, saiu muito fortalecida do encontro. Isso enervou com certeza os países europeus, que, de acordo com os noticiários, estão acusando a Rússia, e não a Ucrânia, de ter disparado o míssil que abateu o avião. Que achas disso?
J.P.

Anônimo disse...

Será que o acidente de ontem com o vôo da Malásia Airlines tem relação com a reunião dos Brics? Sei que parece teoria da conspiração, mas o fato é que a Rússia, sem ter recebido sanções dos parceiros Brics por sua postura na questão da Ucrânia, saiu muito fortalecida do encontro. Isso enervou com certeza os países europeus, que, de acordo com os noticiários, estão acusando a Rússia, e não a Ucrânia, de ter disparado o míssil que abateu o avião. Que achas disso?
J.P.

Rogério disse...

Outro efeito importante dessa reunião dos Brics no Brasil: a criação de um fórum e fundos de investimento entre China e América Latina. Esse fundo visa financiar projetos de infraestrutura e tem capital inicial de US$ 10 bilhões, que logo vai chegar a US$ 20 bilhões, segundo as notícias.

E junto com isso a China também propôs aos países da América Latina o lançamento de uma linha de crédito preferencial, dentro de um banco chinês, que poderá chegar a outros US$ 10 bilhões e 6 mil bolsas de estudo para a América Latina.

Isso é diplomacia de resultados. Destaca isso, Fábio.

Fabio Fonseca de Castro disse...

Anônimo das 22:39 e Rogério: obrigado pelas informacões e colaborações. Tanto a mensagem da Christine Lagarde (FMI) como a criacão do fundo de investimento China / América Latina são efeitos positivos da reunião dos BRICs. E outros virão. Certamente estão sendo - e serão ainda - pouco considerados pela mídia ideológica, mas atestam a importância da diplomacia brasileira nos governos do PT.

Fabio Fonseca de Castro disse...

Anônimo das 10:21, cara, acho que é viagem.