23 julho 2014

Piscadelas, preconceitos e humor de resistência

- Negão, te trouxe isto aqui!
- Negão é o cu da puta que te pariu! Sou afrodescendente. Mas se tiveres a minha cor eu deixo passar. Deixa eu ver quem está aí... Ah, és tu!
E deu uma piscadela para o rapaz. Uma piscadela.
Hoje fui trocar o óleo do carro. No posto, o responsável pela tarefa era um sujeito negro. Falador e simpático. Troquei algumas ideias com ele. Terminada a tarefa, estava pagando minha conta quando veio alguém trazendo para ele uma encomenda. Concentrado na operação de coisar meu cartão de crédito, ele estava de costas para o rapaz que chegava.
Foi quando se deu o diálogo que reproduzo acima.
Uma piscadela explica muito. Bem conhecemos quantos antropólogos já falaram de piscadelas. Geertz, Rosaldo, Dawsey, Turner...
Bem sabemos o quanto piscadelas denunciam dos entre-ditos, pós-ditos, quase-ditos, não-ditos.
- Se és tu, está tudo bem.
O rapaz que trazia a encomenda era negro, como ele.
Observador silencioso, fiquei pensando o quanto silentes são as sutilezas do humor.

E em quanto o humor responde às firmezas das necessárias reivindicações, às coragens para as lutas e para as grandes questões.

2 comentários:

Thiane disse...

E ainda bem que a piscadela veio de uma autorização! Melhor assim. Soa como um final feliz (eu aqui de novo, professor).

O racismo nunca saiu da pauta do dia. As piadas vêm de todas as formas, por todos os lados e em todo tipo de tom. No fim as pessoas não-negras me dizem: "sabes nem brincar". E eu lá brinco com coisa que vem matando minha gente há bem mais de 5 séculos? Alguns me chamam "negra-branca", outros "nem és negra", outros ainda: "vem cá neguinha". E as piadas seguem. Seguirão. Marcando o lugar onde nos querem.

Abraços grandes.

Claudia disse...

Adorei!

No texto do Geertz dois meninos piscam rapidamente o olho direito e...

Deixa eu publicar aqui o trecho? La vai:

Num deles, esse é um tique involuntário; no outro é uma piscadela conspiratória a um amigo. Como movimentos, os dois são idênticos; observando os dois sozinhos, numa observação “fenomenalista”, ninguém poderia dizer qual delas seria um tique nervoso ou uma piscadela ou, na verdade, se ambas eram piscadelas ou tiques nervosos. No entanto, embora não retratável, a diferença entre um tique nervoso e uma piscadela é grande. O piscador está se comunicando e, de fato, se comunicando de uma forma precisa e especial: (1) deliberadamente, (2) a alguém em particular, (3) transmitindo uma mensagem específica, (4) de acordo com um código socialmente estabelecido e (5) sem o conhecimento dos demais companheiros.

O sujeito da tua história, Fábio, como foi que ele piscou? Ele se enquadra numa dessas categorias?