28 maio 2015

Sobre a greve mas universidades federais: a agenda da esquerda-útil


Iniciou hoje a greve, por tempo indeterminado, das universidades federais. As reivindicações são justas: reajusta linear de 27,3%, reestruturação da carreira e reversão dos cortes de 30% no orçamento da edução.
Eu mesmo a acompanho, pois compreendo que faço parte de uma categoria – os professores das universidades públicas – que, legitimamente, em assembleia, decidiu pela greve.
No entanto, não tenho como deixar de expressar minha opinião sobre essa greve: sou contra e penso que ela serve para atender à agenda da direita e da esquerda-útil, essa esquerda que, sem visão de conjuntura, se deixa levar por um pauta que, embora justa, constitui um instrumental despolitizado que favorece o golpismo e a crise institucional que, a termo, tende a reverter todas as conquistas que o ensino superior público alcançou durante os governos Lula e Dilma.
Acredito que esta greve está a serviço de um movimento oportunista de oposição ao Governo Federal e que, no contexto político que o país atravessa, acaba por favorecer a agenda golpista. Em última análise, à agenda dos tucanos, dos juízes do STF partidarizados e dessa parte podre do PMDB que, no controle da Câmara Federal, mercantiliza a política e avilta a democracia.
Esta greve é a greve da esquerda menor: da esquerda que se rebaixa ao quotidiano e sem visão histórica. A greve dos que fecham os ouvidos e os olhos. É a greve do oportunismo... de uns poucos. E da inocência... de muitos.
Aderir à greve é repetir a pauta da agenda golpista. No fundo, da agenda que, no seu esquecimento útil, perde de vistas o caos que foi, para o ensino superior público, o governo neoliberal do PSDB. Eu vivenciei esse período e me lembro. Não me custa lembrar. Era preciso que morressem, ou se aposentassem, três professores, para que se abrisse um concurso público. Não havia nenhum dinheiro para pesquisa. Nenhum. E não havia nenhuma possibilidade de expansão do ensino.
Olhem, eu tenho todas as razões do mundo para me decepcionar com a agenda política e econômica do Governo Federal: creio que o ajuste fiscal em curso é um retrocesso. Penso que o governo Dilma traiu o pensamento petista referente às políticas de cultura, comunicação e educação. Me sinto aviltado diante do abandono de projetos construídos e pactuados com a sociedade civil.
No entanto, apesar de todas as circunstâncias, tenho convicção de que retroceder, nas conquistas realizadas, significa rifar a universidade pública e, também, a democracia brasileira.
Lastimo profundamente que minha categoria aceite fazer esse jogo. Mas infelizmente constato, ao mesmo tempo, que ela está, apenas, sendo coerente com o absurdo despolitizado que sociedade brasileira experimenta neste momento.
Por tudo isso, me recuso a fazer uma “greve de ocupação”. Faço minha greve, dentro da greve. Os motivos dessa greve são menores. A ignorância impera. A pequenez absurdiza...
Mas... quem sabe, concretizada a agenda golpista que esta greve favorece, possamos, um dia, na força dessas palavras despolitizadas que a permitiram, nos reencontrarmos... reivindicando democracia... e investimentos em educação superior.

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